Forças federais entram na busca a jornalista e indigenista desaparecidos na Amazônia

O jornalista Dom Phillps com o microfone, em entrevista do presidente Jair Bolsonaro, com correspondentes estrangeiros: Polícia Federal e Marinha demoram mas entram na busca a repórter e indigenistas desaparecidos na Amazônia (Foto: Foto: Marcos Corrêa/PR – 19/07/2019)

Após pressão do governo inglês e repercussão internacional, Marinha e Polícia Federal se unem a polícia do Amazonas e indígenas no Vale do Javari

Por Amazônia Real | ODS 16 • Publicada em 7 de junho de 2022 - 10:53 • Atualizada em 8 de junho de 2022 - 16:44

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O jornalista Dom Phillps com o microfone, em entrevista do presidente Jair Bolsonaro, com correspondentes estrangeiros: Polícia Federal e Marinha demoram mas entram na busca a repórter e indigenistas desaparecidos na Amazônia (Foto: Foto: Marcos Corrêa/PR – 19/07/2019)

(Fábio Pontes e Elaíze Farias* – Rio Branco/AC e Manaus/AM) – Após pressão da Embaixada da Inglaterra e uma comoção nas redes sociais, a Marinha do Brasil e a Polícia Federal iniciaram no fim da tarde desta segunda-feira (6) a busca ao jornalista britânico Dom Phillips, colaborador do jornal The Guardian no Brasil, e ao indigenista Bruno Araújo Pereira, servidor licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai) que estava trabalhando em um projeto da União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja), na Amazônia. Dados como desaparecidos, após aportarem neste domingo (5) na comunidade ribeirinha São Rafael, localizada no município de Atalaia do Norte (a 1.136 quilômetros de Manaus), no extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru. Segundo a Univaja, a última informação de avistamento deles é da comunidade São Gabriel, que fica rio abaixo da comunidade São Rafael.

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A comunidade São Rafael é presidida pelo ribeirinho conhecido como “Churrasco”, responsável pelo manejo de pescado na região, mas suspeito de envolvimento na pesca ilegal e de invasões dentro da Terra Indígena Vale do Javari, segundo fontes ouvidas pela agência Amazônia Real.

A região do município de Atalaia do Norte, junto com Tabatinga, na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, é tensa com registro de inúmeros conflitos, inclusive, a morte de um ex-servidor da Funai, em 2019, que denunciava os crimes ambientais na região. Desde o final de 2018, o número de ataques de invasores na Terra Indígena Vale do Javari aumentou, como o que aconteceu em dezembro daquele ano.

O desaparecimento é ainda mais angustiante pelo fato de Bruno Pereira e de Dom Phillips terem recebido ameaças nos últimos dias, segundo a Univaja. Bruno foi um dos responsáveis por pressionar a Polícia Federal para realizar operação contra a pesca e a caça clandestina dentro de terras indígenas. Ele próprio esteve numa destas ações, que resultou na prisão de duas pessoas e apreensões de embarcações.

Em nota, a Marinha do Brasil informou que “uma equipe de Busca e Salvamento (SAR), subordinada à Capitania Fluvial de Tabatinga foi direcionada ao local da ocorrência”. Até o momento não há pistas dos desaparecidos, mas confirmou o local das buscas: “próximo a comunidade São Rafael”.

Segundo apurou a reportagem, agentes da Polícia Federal iriam na tarde desta segunda-feira à comunidade São Rafael em busca de depoimentos do homem identificado como “Churrasco”, presidente da associação dos moradores. Um outro homem conhecido como “Colômbia”, também envolvido na pesca ilegal, estaria sendo procurado por ser uma das pessoas que teria ameaçado o indigenista Bruno Pereira.

No início da noite desta segunda-feira, a Polícia Civil deteve “Churrasco” e outro homem identificado como “Jâneo”. Eles foram considerados suspeitos de estarem envolvidos no desaparecimento e levados para Atalaia do Norte, onde prestaram depoimento e teriam sido liberados.

No domingo (5), de acordo com as informações da Univaja, Bruno Pereira e Dom Phillips pararam na comunidade São Rafael, em uma visita previamente agendada, para que o indigenista fizesse uma reunião com o “Churrasco”. O objetivo da reunião seria consolidar trabalhos conjuntos entre ribeirinhos e indígenas na vigilância do território afetado pelas intensas invasões.

“Pelo que consta nas informações trocadas, via Dispositivo de Comunicação Satelital SPOT, eles chegaram na comunidade São Rafael por volta das 6h, onde conversaram com a esposa do “Churrasco”, visto que este não estava na comunidade, e depois partiram rumo a Atalaia do Norte, viagem que dura aproximadamente duas horas. Assim, deveriam ter chegado por volta de 8h ou 9h da manhã na cidade, o que não ocorreu”, diz a nota da Univaja e da OPI (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato).

O desaparecimento da dupla ocorreu às vésperas da Cúpula das Américas. O presidente Jair Bolsonaro (PL) deverá participar de uma reunião com o presidente americano Joe Biden e a política ambiental do governo estará em pauta.

Indígenas na busca

Dom Phillips e Bruno Pereira percorriam a região do Vale do Javari desde a sexta-feira (3) e, segundo o jornal inglês The Guardian, o jornalista trabalhava na produção de um livro com apoio da Fundação Alicia Patterson, sediada nos Estados Unidos.

Os dois saíram de Atalaia do Norte na manhã de sexta, numa embarcação da Funai com motor 40 HP. Para assegurar a viagem de ida e volta, o barco transportava 70 litros de gasolina, segundo Paulo Marubo.

O trabalho de vigilância é realizado como forma de coibir a atuação de caçadores e invasores das terras indígenas da região. Policiais da Força Nacional de Segurança também atuam na região.

Conforme a Amazônia Real apurou, os dois viajavam sem a presença de um barqueiro ou de indígenas mateiros. Por já ter sido chefe da Coordenação Regional Vale do Javari e coordenador geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, de onde saiu em março de 2021, e conhecedor da região “como a palma das mãos”, Bruno achou melhor ele próprio pilotar a embarcação. A proposta da viagem era para Dom Phillips conhecer o trabalho de monitoramento e proteção territorial desenvolvido pelos próprios indígenas, mas a dupla não chegou a entrar na Terra Indígena Vale do Javari.

O desaparecimento veio a público na manhã desta segunda-feira (6), por meio de nota conjunta divulgada pela Univaja e pelo OPI. Segundo o comunicado das duas organizações, o indigenista e o jornalista tinham como objetivo visitar a equipe de Vigilância Indígena que se encontra próxima a localidade chamada de Lago do Jaburu (próxima da Base de Vigilância da Funai no rio Ituí). O lago fica a 15 minutos de distância da comunidade de São Rafael. “Os dois chegaram ao local de destino ( Lago do Jaburu) no dia 3 de junho às 19h25. No dia 5, os dois retornaram cedo para a cidade de Atalaia do Norte, porém, antes pararam na comunidade São Rafael”, diz a nota.

A Base de Vigilância é um dos quatro postos da Funai de monitoramento de indígenas isolados e de recente contato dentro da TI Vale do Javari. O território indígena é onde há maior número de registros e referências de grupos isolados do Brasil.

“Os agentes da Funai já desceram o rio Ituí no mesmo trajeto percorrido por Bruno e Dom em busca de vestígio dos desaparecidos, mas sem sucesso”, disse um funcionário do órgão em Tabatinga, de onde partiram hoje as equipes da Polícia Federal e da Marinha. A distância de Atalaia do Norte é de duas horas de viagem em embarcações.

Lideranças preocupadas

O desaparecimento deixou os indígenas preocupados diante do clima de tensão na região provocado pela intensificação das ameaças sofridas por lideranças por denunciarem a ação de caçadores, pescadores e invasores aos territórios demarcados. Por estar na fronteira com a Colômbia e com o Peru, a área também é marcada pela atuação de facções criminosas que controlam o tráfico de drogas.

Em 6 de setembro de 2019 foi assassinado em Tabatinga, cidade que fica a duas horas de viagem de barco de Atalaia do Norte, o indigenista Maxciel Pereira dos Santos. Dias antes, ele tinha recebido ameaças de morte de caçadores por sua atuação em defesa da Terra Indígena Vale do Javari. Colaborador e ex-servidor da Funai, Maxciel foi “assassinado a sangue frio” diante de sua família em uma rua movimentada de Tabatinga, na tríplice fronteira do Brasil com Colômbia e Peru.

Mais de seis mil indígenas dos povos Marubo, Kanamari, Kulina, Matsés, Matís, Kobubo e grupos de recente contato e em isolamento voluntário vivem na Terra Indígena Vale do Javari. Líderes indígenas relatam o aumento das invasões de seus territórios e das ameaças desde a eleição de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência da República, no final do ano de 2018.

Para Paulo Marubo, coordenador da União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja), a retórica anti-índigena de Bolsonaro desde a campanha eleitoral é usada como amparo para os interessados em invadir terras indígenas, deixando as comunidades ainda mais vulneráveis. “O número de invasões às terras indígenas, e não só as daqui do Vale do Javari, aumentou. Nós sempre denunciamos à Funai, mas a Funai nunca se posicionou, nunca nos deu uma resposta”, disse Paulo Marubo à Amazônia Real. Ele próprio afirma ter recebido, recentemente, ameaças de morte em Atalaia do Norte.

Funcionário de carreira da Funai, Bruno Pereira está de licença para tratar de interesses particulares, segundo a fundação. “A Funai informa que acompanha o caso, está em contato com as forças de segurança que atuam na região e colabora com as buscas”, diz nota à imprensa. Em 2016, ele foi exonerado da coordenação do Vale do Javari da fundação após conflito com os indígenas Matís.

A reportagem apurou que Bruno Pereira continua como servidor de carreira da Funai, mas está licenciado, sem receber remuneração, para dar apoio aos trabalhos da Univaja.

“O MPF instaurou um procedimento administrativo para apuração e acionou a Polícia Federal, a Polícia Civil, a Força Nacional, a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari e a Marinha do Brasil. Esta última já confirmou ao MPF que conduzirá as atividades de busca na região, por meio do Comando de Operações Navais”, diz o órgão.

Livro sobre a Amazônia

Jornalista freelancer no Brasil há pelo menos 15 anos, Dom Phillips, 57 anos, escreve para diversos veículos internacionais, além do The Guardian, onde é colaborador assíduo. Ele colabora também com Washington Post, The New York Times e Financial Times. Atualmente, mora em Salvador, na Bahia. Nos últimos três anos, com a destruição da política ambiental e indígena pelo governo Bolsonaro, passou a escrever com recorrência sobre as questões amazônicas, expondo ao mundo a devastação da mais importante floresta tropical do planeta. Neste trabalho, por várias vezes esteve na Amazônia para produzir suas reportagens.

“Vou falar como amigo pessoal do Dom. Ele é um jornalista sensacional, corajoso. Ele está em um projeto para escrever um livro sobre a Amazônia, projeto pessoal. Eu não sei bem porque ele está no Vale do Javari, talvez para o livro dele”, afirmou o também jornalista Jonathan Watts, editor global de Meio Ambiente do The Guardian, em entrevista à Amazônia Real. “Espero que ele apareça em breve a gente possa se encontrar.”

Watts afirmou estar muito preocupado com o desaparecimento do colega e pediu urgência às autoridades brasileiras nas operações de busca. Segundo informações repassadas pelo Ministério Público Federal no Amazonas, militares do Comando de Operações Navais, da Marinha, estão em deslocamento até a região onde Bruno e Dom foram vistos pela última vez.

Em texto publicado em seu site, o The Guardian manifestou preocupação com o desaparecimento do jornalista. “Dom Phillips desapareceu em viagem a um dos recantos mais remotos da Amazônia dias após receber ameaças”, diz trecho do texto. “O repórter estava viajando com Bruno Araújo Pereira, um ex-funcionário do governo encarregado de proteger as tribos isoladas do Brasil, que há muito recebe ameaças de madeireiros e garimpeiros que buscam invadir suas terras”.

O governo do Amazonas divulgou nota informando que determinou à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) o envio de reforço policial especializado para o município de Atalaia do Norte, para apoiar as buscas e as investigações do desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips.

“O titular da 50ª Delegacia Interativa de Polícia Civil (DIP), delegado Alex Perez, montou uma força-tarefa entre as polícias Militar e Civil, além de voluntários para intensificação das buscas na região, que já foram iniciadas”, diz a nota.

*Elaíze Pires é jornalista e editora de conteúdo da Amazônia Real; Fábio Pontes, na Amazônia Real desde 2016, Fabio Pontes é jornalista acreano e há mais de uma década, escreve, desde a Amazônia, sobre meio ambiente, povos indígenas e comunidades extrativistas

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