Brasil perde Dom Pedro Casaldáliga, referência na defesa dos direitos humanos na Amazônia

Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, em sua casa no município em 2014: legado de defesa dos indígenas, dos ribeirinhos e dos trabalhadores rurais na Amazônia (Wilson Dias/Agência Brasil)

Bispo emérito de São Félix do Araguaia morreu ao 92 anos por problemas pulmonares, deixando legado de luta por indígenas, ribeirinhos e trabalhadores rurais

Por #Colabora | ODS 15ODS 16 • Publicada em 8 de agosto de 2020 - 12:17 • Atualizada em 20 de agosto de 2020 - 11:29

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Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, em sua casa no município em 2014: legado de defesa dos indígenas, dos ribeirinhos e dos trabalhadores rurais na Amazônia (Wilson Dias/Agência Brasil)

Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e um dos maiores defensores dos direitos humanos do país, morreu aos 92 anos, neste sábado (08/08), em Batatais (SP), onde havia sido removido para tratamento médico devido a problemas respiratórios. A informação foi comunicada pela Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos). Ele havia testado negativo para covid-19.

Um dos expoente da Teologia da Libertacão, Dom Pedro Casaldáliga ficou conhecido como defensor dos povos indígenas e ribeirinhos e dos camponeses e trabalhadores rurais da Amazônia desde a ditadura militar. Foi responsável por algumas das primeiras denúncias por trabalho escravo contemporâneo que ganharam o mundo no início da década de 1970.

Morador até hoje de São Félix do Araguaia, o bispo emérito havia sido transferido no meio da semana, por uma UTI aérea, para o hospital de São Paulo, após o agravamento de seu estado de saúde. Ainda jovem, Dom Pedro sofreu uma forte pneumonia que deixou uma sequela permanente em seu pulmão. Após a transferência, Dom Adriano Ciocca, atual bispo da Prelazia de São Félix, informou que  Casaldáliga estava com um grave problema pulmonar. “Há dois meses ele já foi hospitalizado por causa disso, mas conseguiu reagir e recuperar. Dessa vez está com mais dificuldades, porque o mal de Parkinson e a idade enfraqueceram ainda mais ele”, acrescentou em áudio encaminhado à reportagem da agência Amazônia Real.

Para o bispo da Diocese de Xingu-Altamira, Dom João Muniz Alves, o bispo emérito tem um legado de doação e presença junto ao povo de sua igreja e é um dos maiores profetas da atualidade. “Dom Casaldáliga é um ícone da Igreja do Brasil, uma voz profética em favor da vida e dos direitos dos indígenas e lavradores. Sofreu ameaças de morte e permaneceu firme na missão. Com 52 anos de presença na Amazônia, Casaldáliga enraizou-se na cultura de nosso povo e tornou-se um de nós. Deus seja louvado por este apóstolo da esperança e do amor que se doa até o fim”, disse Dom João.

No ano passado, a escritora e jornalista Ana Helena Tavares lançou a biografia de Dom Pedro Casaldáliga – Um Bispo contra Todas as Cercas – e escreveu no #Colabora sobre sua experiência ao preparar e lançar o livro. “Não é por outro motivo, senão pela identificação com estas causas, que cada lançamento tem se tornado um ato político, sempre descontraído e lotado de pessoas sedentas de utopia. Elas se alimentam da luz emanada pelo biografado e eu me revigoro a cada evento. No lançamento no Rio de Janeiro, em 8 de maio, houve, ao final, um inspirador momento de oração com a presença de representantes da Igreja Católica, um pastor luterano e um pastor metodista, fazendo jus ao ecumenismo sempre praticado por Pedro”, escreveu Ana Helena.

Dom Pedrp Casaldáliga na década de 1980; dedicação aos mais pobres (Foto: CPT/Divulgação)
Dom Pedrp Casaldáliga na década de 1980; dedicação aos mais pobres (Foto: CPT/Divulgação)

Uma vida em defesa da democracia e dos direitos humanos

Dom Pedro Casaldáliga nasceu na Espanha em 1928 e ficou conhecido por sua luta pela defesa dos direitos humanos – especialmente dos povos indígenas –, sendo um dos principais expoentes da Teologia da Libertação no Brasil. Filho de camponeses, nasceu na cidade catalã de Balsareny, sacerdote ordenado na Espanha, Casaldáliga veio para o Brasil como missionário em 1968: estava fugindo da Espanha franquista.

Em plena ditadura militar, não se calou diante dos desmandos que começou a perceber assim que chegou à Prelazia de São Félix, em 1968. Publicou uma série de cartas abertas à população relatando as desigualdades na região, agravadas pela grande concentração de terras nas mãos de poucos. Ganhou projeção nacional e  internacional por denunciar os grandes latifúndios de São Félix do Araguaia que começaram a se estabelecer na década de 1970; em 1971, foi nomeado o primeiro bispo da diocese local.

Por seguir os ensinamentos de Cristo, pagou um preço alto por isso, sendo preso e perseguido pelos militares: “Como é bom ser perseguido pela causa do Evangelho, da Justiça e da total libertação!”, escreveu na ocasião em que foi submetido ao cárcere privado.

Ainda na década de 70, escreveu a carta intitulada “Uma igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”. O documento alcançou outros importantes teólogos, como Frei Betto e Leonardo Boff, e trouxe São Félix do Araguaia – uma pequena cidade do interior brasileiro – para o debate nacional sobre a importância da reforma agrária e das lutas sociais, além de reforçar, dentro da igreja Católica, o movimento da Teologia da Libertação.

Casaldáliga é um dos fundadores do Conselho Missionário Indígena (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), duas das mais importantes entidades religiosas do Brasil. As organizações desempenharam um papel importante na transição democrática e também influenciaram na elaboração da Constituição de 1988, marco dos direitos sociais e indígenas no país.

Mais recentemente, em julho passado, Dom Pedro assinou uma carta, em conjunto com outros 154 bispos da Igreja Católica, tecendo duras críticas ao presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido). Na carta foi destacado que o Governo Federal “é apático”, “omisso” e demonstra uma grande falta de interesse em atender os mais pobres, além “de incapacidade para enfrentar crises”.

Anos antes, em 2013, ele teve que sair escoltado pela Polícia Federal de São Félix do Araguaia por causa de ameaças de mortes de fazendeiros da região, inconformados com o processo de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé, do povo Xavante. À época, os produtores rurais disseram que as declarações do bispo a favor dos indígenas pela retomada do território, fez com que o Governo Federal acelerasse ainda mais o processo de desintrusão.

*Com Amazônia Real

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