ODS 1
Ayvu: curso usa tecnologia como ponte para a cultura e a língua Mbya Guarani


Iniciativa conta videoaulas com professores guaranis. Objetivo é promover o patrimônio cultural e a língua Mbya Guarani


“Nhembojerovia ma jareko ra’ã Nhanderu rembiapo’re”. A língua de um povo é uma ponte para compreender sua forma de ver e atuar no mundo. Assim é com o Mbya Guarani e com a frase do início deste texto que representa um dos valores dessa etnia: “É preciso ser ensinado o respeito com a natureza”.
Idealizado com a proposta de promover a cultura imaterial Mbya Guarani, o curso “Ayvu é fala e é amor também” utiliza a tecnologia como um canal para as tradições dessa população. Para isso, a iniciativa conta com videoaulas gravadas nas próprias tekoás (aldeias) e com o protagonismo de dois professores guaranis: Juliana Kerexu e Verá Tupã.
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“Não é apenas ensinar a pronúncia e a gramática, mas aprender sobre a história e a raiz da língua guarani. Essa estrutura também influencia essa vasta mistura que é o povo brasileiro”, explica Juliana, cacica da Tekoá Takuaty, localizada na Terra indígena Ilha da Cotinga, sobreposta ao município de Paranaguá (PR). Para ela, o projeto é um meio para combater o racismo e o preconceito contra os povos originários.
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Veja o que já enviamosEstimativas indicam que antes da invasão e colonização, mais de mil línguas eram faladas no território brasileiro “Não é uma língua estrangeira, como inglês, francês ou japonês, mas uma língua daqui”, recorda Verá Tupã, agente cultural e professor nas comunidades Yvy Poty e Guapo’y, no município de Barra do Ribeiro (RS).
Dados do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) identificaram 295 línguas faladas por 391 etnias no Brasil. As três línguas com maior número de falantes são Tikúna (51.978), Guarani Kaiowá (38.658) e Guajajara (29.212). Contribuir com a preservação dessa diversidade linguística indígena é um dos objetivos do “ayvu”, expressão que pode ser traduzida como alma-palavra ou como o sopro de vida.
Como funciona o curso ayvu?
O primeiro episódio do “Ayvu é fala e é amor também” foi publicado no dia 30 de janeiro, apresentado por Juliana Kerexu e gravado na Tekoá Takuaty. Inicialmente, o objetivo é apresentar aspectos sobre o cotidiano e cultura dessa etnia. Ao todo, estão previstos dez episódios, sendo três dedicados aos cantos Mbya Guarani. Além disso, é possível acompanhar os conteúdos por um e-book bilíngue.
Do ponto de vista pedagógico, a proposta é partir das conexões entre as palavras, letras e a cosmovisão Mbya Guarani. O curso foi idealizado pelas produtoras Sem Início Sem Fim e Outro Acontecimento, com financiamento via Pró Cultura RS e recursos do Plano Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Dentro de uma cosmovisão guarani, a gente acredita que tudo é um ciclo constante e também o nosso espírito. Por isso, é tão importante construir essa Terra Sem Males… Nós também somos o meio ambiente, então precisamos cuidar desse lugar que nós somos
Uma das produtoras responsáveis, Elisa Gottfried – mais conhecida como Mishta – conta que o curso é uma continuidade do podcast Nhexyrõ. A inspiração para trabalhar com os povos originários, no entanto, nasceu a partir do contato com Jaider Esbell, indígena Makuxi, escritor e arte-educador.
A primeira temporada do curso foi exclusiva para professores e educadores, em 2023. Ao todo, foram 50 docentes que participaram das formações on-line de forma síncrona. O foco inicial era auxiliar na implementação da lei 11.645/2008, norma que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino sobre as culturas afro-brasileiras e indígenas no Brasil.
Segundo Mishta, a ideia de alterar o formato está ligada com a intenção de levar os saberes compartilhados nas aulas para mais pessoas, principalmente, em uma região do país em que a colonização atuou de forma violenta para apagar as heranças dos povos originários. “Ampliar o entendimento das pessoas não indígenas sobre a resistência dos povos indígenas no sul”, complementa.


Professora, cacica e ativista
“Oky nhaneramõi kuery ayvu / Ombojau gueamirirõ kuery mborai’i py / Mbaraete py ijayu
omembe’u nhande mãje / Ko yvy py gua mbovy yakã mbovy ka’aguy / Rei hẽ’y pa”
O trecho acima pertence ao poema “Rio de Palavras”, escrito por Juliana Kerexu. A tradução para o português mostra a relação dos guaranis com a terra e com sua ancestralidade: “Choveu memória / choveu a palavra dos avós / para banhar os netos de sonhos com cantos de força, paciência dizendo que somos desta terra / de muitos rios e florestas”.
Além de professora, Juliana atua desde jovem como ativista em defesa de sua comunidade, em especial, pelo direito das mulheres indígenas. “Com 15 para 16 anos entendi o meu papel como uma jovem que compreende e fala bem português, [compreendi] que isso serviria para a defesa do meu povo e das mulheres que eu via passar por tantas violências, quando iam para a cidade vender artesanato”, relata a cacica.
Poetisa e artista visual, ela participa do Movimento Xondaria Kuery Jera Rete, iniciativa de mulheres indígenas do Paraná que luta pelo empoderamento feminino nas aldeias. Juliana também é co-autora do caderno “Emergência climática: povos indígenas chamam para a cura da Terra!”, escrito junto com Cristiane Julião Pankararu e ilustrado por Wanessa Ribeiro, ambas indígenas.
Antes, a proximidade com o português era uma forma de Juliana mediar o contato de outras mulheres com os juruá (não indígenas). Agora, ela atua em outra via para promover o empoderamento e ocupar espaços com a língua Mbya Guarani, ajudando a enfrentar as raízes da violência de gênero que também afeta as aldeias.
A cacica desmonta a ideia de que a violência contra as mulheres indígenas seja um elemento cultural. Pelo contrário, trata-se de uma herança colonial. “Infelizmente a humanidade sofre com uma doença que é o patriarcado, que coloca a mulher como subserviente e como objeto”, pontua Juliana.
Nos últimos anos, a cacica também tem se tornado uma liderança espiritual da comunidade, uma outra maneira de resistir às pressões e aos desafios enfrentados nas tekoás, inclusive, do ponto de vista socioambiental. “Dentro de uma cosmovisão guarani, a gente acredita que tudo é um ciclo constante e também o nosso espírito. Por isso, é tão importante construir essa Terra Sem Males… Nós também somos o meio ambiente, então precisamos cuidar desse lugar que nós somos”.


“Guaranizar” os juruá
“Kaay ma ogueru akã porã / Kaay ma ogueru iporã vae tete pe / opambaepe guarã”.
“A erva mate traz muita experiência / A erva mate deixa as pessoas com mais vontade / para se concentrar e pensar”. Essa é a tradução de um trecho do e-book utilizado como complemento para o curso on-line. Parte deste texto e de muitos outros deste repórter foram escritos sob a influência da erva mate.
Para Verá Tupã, nome indígena de Geronimo Morinico Franco, existe um elo indissociável entre a agricultura e a espiritualidade dos Mbya Guarani. São em cerimônias com o uso de plantas tradicionais que as crianças da comunidade obtêm seus nomes indígenas, por exemplo.
Nascido na província de Misiones, na Argentina, Verá veio para o Rio Grande do Sul ainda criança e desde 2003 atua como professor. Nas comunidades em que atua, ele foi responsável pela criação da “Trilha Intercultural”, uma espécie de museu imersivo na floresta, para compartilhar saberes e fazeres da cultura guarani.
“Se você se esforçar bastante, você aprende logo”, afirma Verá, sobre o processo de aprendizagem do Mbya Guarani. Para o professor indígena, o ensino da língua Mbya é uma forma de “guaranizar os juruá”, ou seja, de fazer com que os não indígenas possam se reconectar com a natureza.
Verá lembra, porém, que existem variações entre a língua falada no Brasil para outros países, como Argentina, Bolívia e Paraguai. Este último concentra a maior parte dos falantes e tem o guarani como um dos seus idiomas oficiais, ao lado do espanhol.
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A variação mais comum no sul do país é o Mbya, uma das três vertentes principais do Guarani, da família linguística Tupi-Guarani, parte do chamado tronco Tupi. As outras são o Nhandeva ou Chiripá/Txiripa/Xiripá ou Ava Guarani e o Kaiowá.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.







































