Amazônia: muito ouro e pouco desenvolvimento humano

Mineração deixa rastro de destruição, desmatamento e poluição de rios, e ainda mantém a população local pobre, doente e sem educação

Por Liana Melo | ODS 16 • Publicada em 30 de setembro de 2021 - 07:08 • Atualizada em 6 de outubro de 2021 - 08:49

Garimpo ilegal na terra indígena Munduruku no sudoeste do Pará: extração de minérios preciosos deixa rastro de destruição na Amazônia (Foto: Marcos Amend/Greenpeace)

Garimpo ilegal na terra indígena Munduruku no sudoeste do Pará: extração de minérios preciosos deixa rastro de destruição na Amazônia (Foto: Marcos Amend/Greenpeace)

Mineração deixa rastro de destruição, desmatamento e poluição de rios, e ainda mantém a população local pobre, doente e sem educação

Por Liana Melo | ODS 16 • Publicada em 30 de setembro de 2021 - 07:08 • Atualizada em 6 de outubro de 2021 - 08:49

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O ouro do subsolo da Amazônia não mudou os indicadores sociais e econômicos dos municípios onde houve exploração de ouro e de diamantes. Marcadores de pobreza como os de saúde, educação e PIB per capita tiveram uma melhora apenas momentânea, mas insustentável no longo prazo. A conclusão do estudo “Qual o real impacto socioeconômico da exploração de ouro e diamantes na Amazônia?“, do Instituto Escolhas, é que a exploração desses minérios não trouxe desenvolvimento humano para a população da região. O saque dos recursos foi incapaz de mudar a dinâmica econômica para uma que gerasse benefícios socioeconômicos duradouros. Ao contrário. A mineração deixou um rastro de destruição, desmatamento, poluição de rios e populações e ainda manteve a população local pobre, doente e sem educação.

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O real impacto da extração de ouro e diamantes na Amazônia foi irrisório. Três anos é o período máximo que duram os impactos da extração de ouro e diamantes sobre o indicador de saúde dos municípios da Amazônia. Em apenas cinco anos, somem os rastros de melhora no indicador de educação, assim como é esse prazo ínfimo que duram os impactos da extração de ouro e diamantes no PIB per capita dos municípios da Amazônia Legal. É nesse prazo de cinco anos que a extração de ambos os minérios causam um aumento no desmatamento dos municípios da região.

“Ao trazer à tona o fato de que o ouro e os diamantes não irão tirar a região da pobreza, da doença e da pouca educação, abre-se também a discussão sobre as alternativas econômicas que poderiam, de fato, gerar riqueza e bem-estar duradouros”, analisou Larissa Rodrigues, coordenadora da pesquisa. Com base numa simulação computacional, os pesquisadores tiveram o cuidado de comparar municípios com e sem a mineração, desde que com uma situação socioeconômica similar. O objetivo foi garantir que o efeito da extração de ouro e diamantes fosse capturado de modo isolado.

Ao revelar o impacto temporário da atividade, o estudo desmistificou a ilusão de que ouro gera riqueza e desenvolvimento no seu entorno. E mais: iniciativas como as que pretendem viabilizar a mineração dentro de Terras Indígenas, o projeto de lei 191/2020, ou a legalização de garimpos em situação irregular devem ser avaliadas sob a ótica dos impactos socioeconômicos gerados, já que há um indicativo, apontado pelo estudo, de que as duas iniciativas não trazem benefícios reais à população.

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Outra característica comprovada no estudo é que a indústria extrativa mineral é uma das que menos empregam ao longo da cadeia produtiva. Para cada 100 empregos diretos no setor, são gerados 86 empregos ao longo da cadeia. O setor da indústria de transformação, por exemplo, é altamente intensivo em mão de obra: para cada 100 empregos diretos, outros 480 são gerados. “Há um efeito multiplicador na cadeia, o que não acontece na indústria extrativa mineral, já que o número de empregos ao longo da cadeia é menor que o número de empregos diretos”, comentou Larissa.

Além de não gerar emprego e nem mudar os indicadores socioeconômicos, a mineração na Amazônia deixa um rastro de destruição na floresta. De modo isolado, o desmatamento atribuído somente a essa atividade, apontou o estudo, foi confirmado estatisticamente a partir de dois anos de exposição à atividade, deixando de existir após sete anos. “Isso não quer dizer que não houve nenhum desmatamento antes dos dois anos, mas que, estatisticamente, foi possível atribuir a perda da floresta à mineração a partir dos dois anos em que a atividade esteve nos municípios”, concluiu Larissa.

 

 

 

 

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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