Porto seguro para aves maltratadas, Museu Goeldi faz financiamento coletivo

Instituição de pesquisa e divulgação científica do Pará quer reformar área onde ficam os pássaros amazônicos, levados ao local para se recuperar de ferimentos

Por Marita Boos | ods15 • Publicada em 31 de janeiro de 2020 - 16:22 • Atualizada em 17 de fevereiro de 2020 - 19:26

Coruja (Foto de Janine Valente)
Socoí Museu Goeldi
Um socoí ou socozinho que vive solto no Museu Goeldi (Foto de Messias Costa)

Vítimas de maus tratos ou de acidentes, com politraumatismos graves, cerca de 35 espécies de pássaros da região amazônica encontraram no Parque Zoobotânico do Museu Emílio Goeldi, em Belém (PA) seu porto seguro. Levadas por órgãos públicos ambientais ou por “pessoas físicas”, as aves são tratadas pela equipe da instituição de pesquisa, e, na maioria dos casos, devido aos ferimentos que sofreram, viram hóspedes permanentes dos viveiros. A fim de garantir o melhor tratamento possível a esses moradores alados, o museu lançou uma campanha de financiamento coletivo para a reforma dos recintos, na plataforma Benfeitoria. A arrecadação vai até o dia 3/02.

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Atualmente há 130 pássaros no parque, sendo que alguns vivem soltos, de acordo com o chefe do Serviço de Veterinária do Zoobotânico,  veterinário Messias Costa. São espécies mais conhecidas como a Arara vermelha (Ara chloroptera), Papagaio verdadeiro (Amazona aestiva) e Tucano-do-peito-branco (Ramphastos tucanus); nomes menos populares como a Marreca-asa-de-seda (Amazonetta brasiliensis), o Mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), Socózinho (Butoridis striata), Savacu-de-coroa (Nyctanassa violassea) e Urubu-rei (Sarcoramphus papa). Algumas estão ameaçadas de extinção,  a exemplo da Ararajuba (Guaruba guarouba), da Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) e do Gavião real (Harpia harpyja).  

 

A reforma dos recintos das aves faz parte de um amplo programa de revitalização da estrutura do Parque Zoobotânico, instalado em 1895, e  considerado o principal canal de comunicação e educação do Museu Goeldi (inaugurado em 1866), que é uma instituição ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (Mctic). O museu é um destino importante de educação ambiental para moradores de Belém e turistas e um dos principais pontos turísticos do estado.

O museu é um lugar de afeto, descobertas, construção de identidades e memórias sobre a Amazônia na vida das pessoas que moram e das que visitam Belém. Ir ao Goeldi é um hábito que atravessa gerações

Maria Emilia Sales
Museu Goeldi

“Há mais de 20 anos o Museu Goeldi vem discutindo e procurando formas de viabilizar um projeto de modernização do conceito e da estrutura de seu Zoobotânico, o que implica em conservar e renovar não só o que está acima da superfície como o que está no subsolo”, informou a coordenadora de Comunicação e Extensão da instituição, Maria Emília Sales. “O museu é um lugar de afeto, descobertas, construção de identidades e memórias sobre a Amazônia na vida das pessoas que moram e das que visitam Belém. Ir ao Goeldi é um hábito que atravessa gerações”.

Segundo o veterinário, muitas aves chegam ao parque em situação muito grave, vítimas de traumatismos, desnutrição e hipotermia. Algumas ficam com comportamento agressivo, tentam sair do viveiro. Outras, principalmente araras e papagaios, sentem falta de humanos. “É um desafio restabelecer os laços de relação dos indivíduos da mesma espécie. A equipe que cuida deles procura ser boa, mas sem exagerar na dose, porque o que se espera é que as aves tenham o vínculo entre elas”.  afirmou Costa. Ele lembrou ainda uma elo diferente que se formou no passado. Um maracanã “ficou louco” por uma ararajuba. Tanto fez que conseguiu chegar ao outro viveiro. Eles acasalaram e tiveram um filhote híbrido. “Do ponto de vista da conservação, não é o ideal. A ararajuba é uma espécie em extinção. Mas aconteceu…”

Observação das aves

Os recintos das aves terão suas alturas ampliadas: o volume atual do abrigo é de 105,55 m³ e passará para 134,08 m³, um crescimento de cerca de 22%, segundo informou o chefe do Serviço do Parque, Pedro Pompei Oliva. Haverá troca dos telames e renovação de suportes internos. O aumento na altura permitirá mais mobilidade e alcance de voo para os pássaros. A colocação de novas telas deve garantir mais segurança aos animais, diminuir risco de fuga e melhorar a observação por parte dos visitantes. Serão instalados também, no interior dos recintos, ninhos mais adequados à reprodução e facilidades de acesso aos comedouros suspensos.  

A reforma geral dos recintos teve início em 2019, com recursos próprios da instituição e também de oriundos de penas ambientais, repassados pelo juizado ambiental de Altamira (PA). Um novo recinto já foi concluído e outro está em fase de conclusão. Ainda faltam outros três, que aguardam o resultado da campanha de financiamento. O valor total da reforma dos é R$ 131 mil.

Corujas
Corujas em grupo (Foto Janine Valente)

Na modalidade de financiamento coletivo utilizada pelo Goeldi,  a cada um real investido pelo público, o Programa Matchfunding BNDES+ investirá mais dois reais. “O financiamento coletivo é interessante porque envolve a sociedade diretamente no projeto de modernização da instituição; é uma oportunidade de chamar a atenção para os problemas ambientais que afetam a fauna amazônica; e indica ao financiador os projetos que o público deseja ver concretizado”, afirmou Maria Emília Sales.

O projeto também prevê maior interação com o visitante a partir da instalação de 16 beacons, aparelhos de proximidade que emitem informações, por meio da tecnologia bluetooth, a smartphones cadastrados. As pessoas receberão informações sobre as espécies e os animais, como idade, tempo de vida, gênero, reprodução, ameaças, cuidados na alimentação, onde vivem na natureza.  

“No decorrer dos seus quase 125 anos de existência, a estrutura e o conceito do parque tem procurado acompanhar as mudanças no campo da museologia, educação e manejo da fauna e flora silvestre ex-situ, a legislação ambiental e patrimonial vigente no país”, disse a coordenadora. “Os desafios são muitos e de toda ordem. Imagine um parque histórico, com coleções vivas expressivas de fauna e flora, além de prédios antigos e monumentos no centro de uma grande cidade, cercado por vias de largo trânsito por todos os lados? Some a esses fatores gerações e gerações de pessoas que têm suas vidas e memórias entrelaçadas com esse espaço”.

Ararajuba Museu Goeldi
Uma ararajuba protagonizou episódio curioso: se “apaixonou” por um maracanã, e os pássaros acasalaram (Foto Janine Valente)

Aquário público reformado

A reforma toda conta com a participação de técnicos especializados do Museu Goeldi, como arquiteto, engenheiro, biólogo e veterinário e serviços terceirizados, pagos com recursos do ministério, responsável pelos salários, repasse de recursos para custeio e capital, que garantem contratos de segurança, limpeza, recepção, fornecimento de luz e água, aquisição de material de consumo e informática, e algumas das obras em execução nas quatro bases físicas da instituição.    

“Para assegurar a realização de pesquisas e projetos especiais de infraestrutura, comunicação e extensão, o Museu Goeldi procura captar recursos externos que viabilizem essas atividades”, informou Maria Emília.

Como não foi viável obter recursos para desenvolver projetos arquitetônicos de todo o Zoobotânico de uma só vez, a instituição fez um zoneamento, dividiu os projetos por quadrantes, estabeleceu prioridades e submeteu propostas para diferentes financiadores

Maria Emilia Sales
Museu Goeldi

O Aquário Jacques Huber, o mais antigo aquário público do país, por exemplo, foi totalmente reformado em duas etapas por diferentes financiadores, e hoje é a principal atração do Zoobotânico. “Como não foi viável obter recursos para desenvolver projetos arquitetônicos de todo o Zoobotânico de uma só vez, a instituição fez um zoneamento, dividiu os projetos por quadrantes, estabeleceu prioridades e submeteu propostas para diferentes financiadores”, disse a coordenadora.

Há 18 anos, o prédio histórico maior e mais antigo deste conjunto – o Pavilhão Expositivo Domingos Soares Ferreira Penna, mais conhecido como Rocinha – foi totalmente restaurado com recursos do BNDES e seu projeto foi assinado pela equipe de arquitetos especializados do Governo do Pará na ocasião (atualmente o mesmo prédio já demanda nova reforma). Cinco chalés históricos foram reformados com recursos do ministério, mas também já precisam de obras.

O ambiente das aves aquáticas, o laguinho do tambaqui e o ambiente para tamanduás e preguiças adultas foram reformados com recursos do Mctic. O novo pavilhão expositivo Eduardo Galvão, que será inaugurado em outubro de 2020, e o prédio histórico da Biblioteca Clara Galvão também utilizaram verbas do ministério. 

Um museu de 154 anos

O Museu Emílio Goeldi, instituição de pesquisa científica e de divulgação de conhecimento focada, desde sua fundação, em 1866, na Região Amazônica, é integrada pelo Parque Zoobotânico (instalado em 1895, com 5,4 hectares), o Campus de Pesquisa, ambos em Belém, a Estação Científica Ferreira Penna, no arquipélago de Marajó, e o Campus Avançado, em Cuibá (MT). “No Goeldi, as pessoas aprendem sobre o fazer científico, a fauna, flora e culturas amazônicas, construindo percepções, imaginário, identidade e acumulando conhecimento sobre o maior bioma brasileiro”, afirma o texto que acompanha a campanha de financiamento coletivo.

O Parque Zoobotânico é a base física do museu aberta à visitação pública – são cerca de 300 mil pessoas por ano. Funciona como sala de aula, de visita, espaço de experimentação artística, quintal, jardim e santuário para Belém, informa outro trecho da divulgação da campanha. “A relação das pessoas com a instituição é visivelmente de admiração e carinho, mesmo quando há críticas”, disse a coordenadora. O parque é o zoobotânico mais antigo do Brasil e o primeiro científico do Norte e do Nordeste.  Atualmente está localizado em um bairro central (São Braz), mas na época de sua inauguração a área era rural. 

O Zoobotânico abriga 80 espécies de animais (incluindo as aves), num total de três mil, a maioria em cativeiro. São vítimas do desmatamento, de maus tratos e do tráfico ilegal. Assim como os pássaros, recebem cuidados de veterinários, biólogos e tratadores. Entre os que vivem em cativeiro, há onça Pintada (Panthera onca), Ariranha (Pteronura brasiliensis), Macaco Coatá-da-testa-branca (Ateles marginatus), Jacaré Açu (Melanosuchus niger) e Tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa). Soltos, Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla),  Porco-espinho de cauda (Coendou prehensilis) e Preguiça Real (Choloepus didactylus). 

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