Mourão diz a empresários que combate ao desmatamento ilegal é responsabilidade do Estado

Fumaça sobe de incêndios florestais em Altamira, no Pará. A imagem é de agosto de 2019, mas os recordes de desmatamento seguem sendo batidos há 14 meses. Foto João Laet/AFP

No dia em que o país registrou novo recorde de destruição da Amazônia, vice-presidente promete medidas efetivas e metas de acompanhamento

Por Agostinho Vieira | ODS 15 • Publicada em 10 de julho de 2020 - 19:34 • Atualizada em 11 de julho de 2020 - 14:39

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Fumaça sobe de incêndios florestais em Altamira, no Pará. A imagem é de agosto de 2019, mas os recordes de desmatamento seguem sendo batidos há 14 meses. Foto João Laet/AFP

O desmatamento na Floresta Amazônica cresceu 25% entre janeiro e junho deste ano, totalizando 3.069,61 km2. Um novo recorde desde que estes cálculos começaram a ser feitos, em 2015. Segundo dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a destruição alcançou 1.034,4 km2 em junho, comparado a 934,81 km2 de junho 2019. Este é o décimo-quarto mês seguido de crescimento em comparação com os mesmos meses do ano anterior. Apesar dos números vexatórios, o presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal e vice-presidente da República, Hamilton Mourão, garantiu a um grupo de empresários que o governo é 100% responsável pelo combate ao desmatamento ilegal e prometeu medidas efetivas e metas de acompanhamento.

A reunião, feita por videoconferência, contou com a presença de dez empresários e representantes de entidades empresariais, entre eles os CEOs da Natura, da Suzano, do Itaú e da Shell. Da parte do governo, além de Mourão, estava presente o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que é acusado pelo Ministério Público Federal de improbidade administrativa na gestão de políticas ambientais. Os empresários cobraram ações mais claras e eficazes do governo para acabar com o desmatamento ilegal que, segundo eles, representa 98% de todo o desmatamento na região.

Em entrevista coletiva, após a reunião, a presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), Marina Grossi, disse que o desmatamento representa um enorme prejuízo para o Brasil, não só em termos de reputação, mas de forma efetiva para o desenvolvimento dos negócios das empresas e na geração de divisas para o país: “Precisamos resolver a questão do desmatamento no Brasil como um dia já resolvemos o problema da inflação. Temos todas as condições para sermos uma potência ambiental e não podemos mais perder mais tempo com isso”, afirmou.

O vice-presidente Hamilton Mourão em entrevista coletiva após a reunião com investidores internacionais. Foto Romerio Cunha
O vice-presidente Hamilton Mourão em entrevista coletiva após a reunião com investidores internacionais. Foto Romerio Cunha

Nesta quinta-feira, dia 9 de julho, Hamilton Mourão já havia se reunido com investidores internacionais para discutir o mesmo assunto: o desmatamento da Amazônia. A exemplo do que aconteceu hoje, dia 10, o vice-presidente não anunciou nenhuma medida nova ou adicional para frear a devastação. Já pelo lado dos investidores, o discurso foi claro: não haverá novos aportes financeiros enquanto o Brasil não apresentar resultados positivos na luta contra o desmatamento. Na coletiva de imprensa realizada após o encontro, Mourão tentou relativizar as críticas recebidas pelo Brasil e afirmou que elas refletem apenas uma “disputa geopolítica” relacionada à força do agronegócio brasileiro no mercado internacional: “É óbvio que aqueles que serão incomodados com o avanço da produção brasileira, buscarão, de alguma forma, impedir que essa produção evolua como vem ocorrendo”, disse.

Contrariando a fala da Mourão no dia anterior, representantes do agronegócio presentes na conversa de hoje, como o CEO da Cargill, Paulo Sousa, e o presidente do Conselho de Administração da Marfrig, Marcos Antonio Molina dos Santos, disseram que as empresas não têm nenhum interesse de avançar sobre a floresta e garantiram que é perfeitamente possível produzir e preservar. Eles se comprometeram, inclusive, a desenvolver um programa de rastreamento da origem dos seus produtos, para garantir que eles não têm ligação com o desmatamento. No último dia 7 de julho, líderes de 50 grandes empresas nacionais divulgaram uma carta-manifesto em favor da preservação da Amazônia. Os empresários se declaram preocupados com as reações negativas de investidores internacionais ao desmatamento e reafirmam o compromisso com o desenvolvimento sustentável. Eles se baseiam em três ações que consideram fundamentais: o combate inflexível e abrangente ao desmatamento ilegal, a inclusão das comunidades locais e a valorização da biodiversidade.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Ainda na Infoglobo, empresa que administra os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, exerceu por oito anos a função de diretor executivo de Negócios. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. Atualmente é Editor Chefe do Projeto #Colabora.

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