MapBiomas: desmatamento no Brasil cresceu 20% em 2021

Área desmatada e queimada no município de Apuí, Amazonas: desmatamento aumentou 20% (Foto: Bruno Kelly / Amazônia Real – 09/08/2020)

Biomas Amazônia e Cerrado concentram quase 90% da área desmatada; em três anos, país perdeu o equivalente a um Rio de Janeiro de vegetação nativa

Por Oscar Valporto | ODS 15 • Publicada em 18 de julho de 2022 - 09:18 • Atualizada em 12 de agosto de 2022 - 09:47

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Área desmatada e queimada no município de Apuí, Amazonas: desmatamento aumentou 20% (Foto: Bruno Kelly / Amazônia Real – 09/08/2020)

O Brasil perdeu 16.557 km2 (1.655.782 hectares) de cobertura de vegetação nativa em todos seus biomas em 2021, um aumento de 20% em relação ao ano anterior. de acordo com a mais recente edição do Relatório Anual de Desmatamento no Brasil (RAD), produzido pelo MapBiomas. O documento destaca que, com a tendência de alta no desmate nos últimos três anos, nesse período o Brasil perdeu quase um Estado do Rio de Janeiro de vegetação nativa.

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Os números do relatório apontam que a Amazônia foi a grande frente de supressão da vegetação nativa do Brasil nos últimos três anos, concentrando, em 2021, 59% da área desmatada e 66,8% dos alertas de desmatamento em 2021. Foram mais de 977 mil hectares de vegetação nativa destruídos no ano passado – um crescimento de quase 15% em relação aos 851 mil hectares desmatados em 2020 que, por sua vez, já haviam representado um aumento de 10% em relação aos 771 mil hectares de desmate em 2019.

O segundo maior alvo, em número absolutos, dos desmatadores é o Cerrado, com pouco mais de meio milhão de hectares (30%) de vegetação suprimida, seguido pela Caatinga, com mais de 116 mil hectares (7%). Mesmo com menos de 29% de sua cobertura florestal, na Mata Atlântica foram desmatados 30.155 hectares – 1,8% da área dos alertas. Apesar de responder pela menor área de alertas (0,1% do total), o Pampa quase dobrou o montante desmatado (92,1%). No Pantanal se observou um aumento de 50,5% nos alertas detectados e 15,7% na área desmatada entre 2020 e 2021.

Para resolver o problema da ilegalidade é necessário atacar a impunidade — o risco de ser penalizado e responsabilizado pela destruição ilegal da vegetação nativa precisa ser real e devidamente percebido pelos infratores ambientais

Tasso Azevedo
Coordenador do MapBiomas

Juntos, Amazônia e Cerrado representaram 89,2% da área desmatada detectada em 2021. Quando somada a Caatinga, os três biomas responderam por 96,2% das perdas de vegetação nativa. Os maiores aumentos, em relação à área desmatada em 2020, ocorreram na Amazônia (126.680 hectares) e no Cerrado (83.981 hectares). Em termos proporcionais, entretanto, o maior crescimento na destruição da vegetação foi registrado na Caatinga (88,9%) e no Pampa (92,1%). No caso da Caatinga, o aumento está relacionado ao aprimoramento da nova fonte de dados usada pelo MapBiomas, o SAD Caatinga, especializado na detecção de desmatamento em matas secas no bioma.

Pressionado permanentemente pelo agronegócio, o Cerrado,  embora tenha uma participação de apenas 9,9% no número total de alertas, teve quase um terço do total (30,2%) de áreas desmatadas. O relatório aponta ainda que, nos biomas Amazônia e Mata Atlântica, predomina o desmatamento em formações florestais. No Cerrado, na Caatinga, no Pampa e no Pantanal, o predomínio é de outras formações não florestais. O MapBiomas alerta, entretanto, que “como a detecção de desmatamento em vegetação nativa não florestal ainda é deficiente, os alertas nestas classes são subestimados” – ou seja, a área desmatada pode ser ainda maior.

Aumento do desmatamento em todos os biomas (Gráfico: MapBiomas)
Aumento do desmatamento em todos os biomas (Gráfico: MapBiomas)

O avanço da ilegalidade

O RAD divulgado nesta segunda-feira (18/07) é o terceiro de uma série para consolidar e analisar as informações sobre todos os desmatamentos detectados nos seis biomas brasileiros, pelos múltiplos sistemas de alertas disponíveis. O projeto MapBiomas Alerta refinou e validou 69.796 alertas de desmatamento em 2021 em todo o território nacional, avaliou individualmente cada evento de desmatamento cruzando com dados de áreas protegidas, autorizações e cadastro ambiental rural (CAR) e encontrou indícios de irregularidades em mais de 98% dos casos. “Para resolver o problema da ilegalidade é necessário atacar a impunidade — o risco de ser penalizado e responsabilizado pela destruição ilegal da vegetação nativa precisa ser real e devidamente percebido pelos infratores ambientais”, afirma o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

Em apenas 1,34% dos alertas (que correspondem a 0,87% do total desmatado) não foram encontrados indícios ou evidências de irregularidades. Esse percentual de irregularidade está em linha com os 99% detectados nos relatórios anteriores (2019 e 2020).  Os alertas de desmatamento que cruzam com com imóveis rurais cadastrados no CAR correspondem a 77% da área total desmatada. “Isso significa que em pelo menos 3/4 dos desmatamentos é possível encontrar um responsável”, destaca o RAD do MapBiomas.

Tasso Azevedo acrescenta que, para combater o desmatamento, é preciso agir em três frentes. “Todo desmatamento deve ser detectado e reportado; todo desmatamento ilegal deve receber ação de responsabilização e punição dos infratores, como autuações e embargos); e o infrator não pode se beneficiar da área desmatada ilegalmente, recebendo algum tipo de penalização como por exemplo restrições de crédito, pendência do CAR, impedimento de regularização fundiária, exclusão de cadeias produtivas”, afirma o coordenador do MapBiomas.

Estados líderes do ranking do desmatamento (Infografia: MapBiomas)
Estados líderes do ranking do desmatamento (Infografia: MapBiomas)

Os campeões do desmatamento

De acordo com o RAD,  de cada quatro hectares desmatados no Brasil em 2021, um foi no Pará, onde a destruição da floresta alcançou 402.492 hectares – 24,3% do total. O Amazonas, que era o quarto no ranking de desmatamento em 2020,apareceu agora em segundo lugar, com 194.485 hetares desmatados, que representam 11,8% do total; Mato Grosso apareceu em terceiro com perda de 189.880 hetares (11,5%), seguido doMaranhão, com 167.047 (10,1%), e Bahia, com 152.098 (9,2%). Juntos, esses 5 estados responderam por 67% da área desmatada no Brasil em 2021.

No total, 13 estados superaram a marca de mil  alertas de desmatamento em 2021; em 2020, foram 11 estados, e em 2019, 10 estados. Houve crescimento da área desmatada em 20 estados; o número ficou estável em dois (Tocantins e Roraima) e, em apenas cinco estados, foi registrada redução do desmatamento (Alagoas, Santa Catarina, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Amapá). Entre os estados onde o desmatamento mais cresceu em termos proporcionais estão Pernambuco, Paraíba, Ceará, Minas Gerais e Sergipe, com mais de 80% de aumento na área detectada. “Isso reflete o crescimento do desmatamento e também a melhora no sistema de detecção do SAD Caatinga”, aponta o RAD do Mapbiomas. Em números absolutos, os maiores crescimentos foram registrados no Amazonas (64.673 hectares) e na Bahia (46.160 hectares).

O RAD também destaca o avanço do desmatamento em áreas críticas. Quase um quarto (23,6%) do desmatamento registrado no Brasil em 2021 foi registrado no Matopiba, área do Cerrado onde o agronegócio avança rapidamente: nesta região (com territórios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, também constatou-se um aumento de 14% da área desmatada em relação a 2020. Foram 5.206 alertas e 391.559 hectares desmatados. O Matopiba foi onde se concentrou a maior parte dos desmatamentos no Cerrado: cerca de 73%. Já na nova fronteira do desmatamento da Amazônia – região que está ficando conhecida como Amacro (na divisa de Amazonas, Acre e Rondônia) – a área desmatada representou 12,2% do total do Brasil em 2021, com 6.858alertas e 203.143 hectares desmatados. Em 2021, a Amacro apresentou 28,8% de incremento do desmatamento em relação a 2020.

Municípios com maior área desmatada (Infografia: MapBiomas)
Municípios com maior área desmatada (Infografia: MapBiomas)

O relatório também analisou as ações realizadas pelos órgãos de controle ambiental para conter o desmatamento ilegal e aponta que os embargos e autuações do Ibama e ICMBio até maio de2022 atingiram apenas 2,4% dos desmatamentos e 10,5% da área desmatada identificada entre2019 e 2021. “Nos 52 municípios definidos como prioritários pelo Ministério do Meio Ambiente para o combate ao desmatamento na Amazônia, este índice é um pouco melhor: 4,4% do total de alertas e 21,2% da área desmatada”, aponta o RAD.

O MapBiomas destaca ainda que, no período de 2019 a 2021, houve maior atuação dos órgãos fiscalizadores nos estados da Região Sudeste, em comparação com as outras regiões do país, quando se considera o percentual de alertas com ações de fiscalização como indicador (88,4% no ES, 27,3% no RJ, 26%em MG, e 21,8% em SP). Os estados com a maior proporção do desmatamento respondido com algum tipo de ação (seja autorização, autuações ou embargos) são Espírito Santo (86,3%),Mato Grosso (66%), Minas Gerais (43,2%) e Tocantins (40,9%). Os menores índices estão na Bahia (1,7%), Santa Catarina (3%) e Pernambuco (4,4%).

Desmatamento - sempre ilegal - nas Unidades de Conservação (Infografia: MapBiomas)
Desmatamento – sempre ilegal – nas Unidades de Conservação (Infografia: MapBiomas)

Áreas desprotegidas

Territórios protegidos por lei também foram atingidos pelo desmatamento – nestes casos, flagrantemente ilegal. O Mapbiomas detectou 166.895 hectares de desmatamento dentro de Unidades de Conservação(UCs) em 2021 – 10,1% da área total detectada no Brasil no anos. Das 2.181UCs federais e estaduais terrestres registradas no Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, 252 UCs (11,6%) tiveram pelo menos um evento de desmatamento de pelo menos um hectare em 2021 – número próximo ao observado em 2020 (254 UCs).Dessas 252 UCs, 21 tiveram mais de 1.000 hectares desmatados, sendo 12 delas Áreas de Preservação Ambiental em dez estados.

As duas Unidades de Conservação com maior área desmatada foram a APA do Triunfo do Xingu, com 48.971 hectares, e a FLONA (Floresta Nacional) do Jamanxim, com 18.281 hectares, ambas no estado do Pará.A área com maior número de alertas foi a RESEX (Reserva Extrativista) Chico Mendes, no Acre, com 1.078 alertas. A maior parte desse desmatamento ocorreu em UCs de uso sustentável (91,9%). Embora nas UCs de proteção integral, esse percentual tenha sido de apenas 8,1% do total observado em Unidades de Conservação, foi nessa categoria onde o problema mais avançou.

Terras Indígenas: aumento do registro de alertas de desmatamento (Infografia: MapBiomas)
Terras Indígenas: aumento do registro de alertas de desmatamento (Infografia: MapBiomas)

O RAD também aponta desmatamentos nas Terras Indígenas (TIs) que representaram 4,7% do total de alertas e 1,9% daárea total desmatada no Brasil em 2021. A maior parte dos alertas e da área desmatada em TIsse encontra no bioma Amazônia. Do total de 573 Terras Indígenas – considerando suas várias fases de reconhecimento e demarcação, inclusive com portaria de interdição – do Brasil, 232 (40,5%) tiveram pelo menos um evento de desmatamento em 2021. O número de TIs com registro de desmatamento entre 2019 e 2021 chegou a 326 (57%). Desse total, apenas 11 (2%) tiveram mais de 500 hectares desmatados. As TIs com desmatamento estão localizadas  em oito estados: Amazonas, Pará, Rondônia, Maranhão, Mato Grosso, Paraná, Acre e Roraima. Os maiores desmatamentos ocorreram nas TIs Apyterewa (8.247 hectares), Trincheira Bacajá (2.620hectares) e Cachoeira Seca (2.034 hectares), todas no estado do Pará. As Terras Indígenas Kayapó e Apyterewa registraram o maior número de alertas em 2021 – 531 e 514, respectivamente.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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