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Reprodução ‘in vitro’ para evitar a extinção dos corais

Projeto ReefBank, o primeiro banco de espermatozoizes e óvulos desses animais, é alternativa para conservar espécies ameaçadas


Close em uma colônia do coral-couve-flor (Mussismilia harttii) no momento da desova (Leandro Santos | Projeto Coral Vivo)

O desaparecimento dos corais, hoje ameaçados pela crise climática e por atividades como turismo, terá consequência graves não só para o ecossistema marinho, mas também para a vida humana. “A diminuição drástica dessa biodiversidade afetará a pesca e pode deixar 275 milhões de pessoas em situação de fome”, alerta o pesquisador Leandro Godoy, que há três anos criou o primeiro banco de gametas de corais do Atlântico Sul, o projeto ReefBank, que pretende congelar milhões de espermatozoides e óvulos de corais para posterior reprodução in vitro. Nesta entrevista, o cientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador associado da Rede de Pesquisas Coral Vivo detalhou a tecnologia e falou da importância desses animais na natureza.

PROJETO #COLABORA: Qual a principal missão do ReefBank?

LEANDRO GODOY: É aliar pesquisa científica com educação ambiental para a conservação dos recifes de coral. Porém, dado ao cenário preocupante do aquecimento global, a ação do homem no planeta e a desinformação de boa parte da população, nós decidimos que fazer apenas pesquisa não seria suficiente. Percebemos que seria preciso levar informação robusta, mas numa linguagem acessível. Decidimos então criar o perfil do ReefBank no Instagram. Também estamos iniciando atividades de extensão para alunos do ensino básico da rede pública no Rio Grande do Sul.

Essa técnica consiste em promover o encontro entre o espermatozoide e o óvulo, para que a fecundação aconteça da melhor forma possível, e assim uma nova vida (um bebê coral) surja.

Leandro Godoy
Projeto ReefBank

Quanto foi investido para viabilizar o projeto?

Temos o apoio financeiro de instituições privadas que apoiam a conservação da natureza: a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). O Projeto Coral Vivo e o Instituto Coral Vivo também são nossos parceiros e nos apoiam financeiramente em termos de logística, equipe de apoio, além de fornecer a Base de Pesquisa em Arraial D’Ajuda (Porto Seguro – BA) para a realização das nossas atividades. Nesta primeira etapa do projeto, com vigência de três anos, o total dos apoios chega a R$ 250 mil. 

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Em que fase está o projeto do banco de gametas de corais?

O Projeto Coral Vivo fez trabalhos de referência sobre a reprodução dos corais brasileiros, e essas informações foram a base para o início das pesquisas do ReefBank. Para atingir sucesso na formação de um banco de gametas (espermatozoides e óvulos) congelados, primeiro nós precisamos conhecer o básico, como características da estrutura (tamanho e forma) dos gametas, tempo de vida após a desova e a sensibilidade deles quando expostos à baixa temperatura e aos agentes químicos. Isso mesmo, para conseguir congelar uma célula e mantê-la viva nós precisamos nos livrar do principal “inimigo”, que é a água que está dentro da célula. Em baixa temperatura, a água formaria cristais de gelo que matariam a célula. Portanto, precisamos removê-la da célula antes do congelamento. Essa remoção da água é feita com uso de agentes químicos que chamamos de crioprotetores. Eles têm o papel de ocupar o espaço da água e reduzir o ponto de congelamento, tornando o processo viável. A estrutura dos gametas, o tempo de vida e a sensibilidade já foram avaliadas. Esse ano nós daremos início aos testes de congelamento e de reprodução in vitro.

Botijão contendo nitrogênio líquido, onde as amostras ficam armazenadas a temperatura de -196 °C. (foto Leandro Santos | Projeto Coral Vivo)

Que tecnologias estão sendo usadas? 

Estamos utilizando duas tecnologias principais. A criopreservação, que significa manter materiais biológicos como células e tecidos estocados em temperaturas criogênicas, geralmente -196 °C, armazenados em nitrogênio líquido. A criopreservação é considerada uma das formas mais efetivas de se preservar o material genético de espécies ameaçadas. E quando concluirmos o protocolo de congelamento, bilhões de espermatozoides e milhares de óvulos poderão ser estocados. E a segunda é a reprodução in vitro ou Reprodução artificial. Essa técnica consiste em promover o encontro entre o espermatozoide e o óvulo, para que a fecundação aconteça da melhor forma possível, e assim uma nova vida (um bebê coral) surja. Ter um protocolo de reprodução in vitro é fundamental para a geração de novos corais a partir das células que estavam congeladas. 

Em quanto tempo deverão ser descongelados e reintegrados ao ambiente marinho?

Numa criopreservação de sucesso, é como se o tempo não passasse para aquelas células. Isso significa que as células podem permanecer congeladas por um dia, um mês, um ano ou dez anos, e, quando descongelarmos, elas estarão vivas. Dessa forma, podemos dizer que os gametas dos corais poderiam ficar congelados por tempo indeterminado. 

 Monitoramento da desova do coral-couve-flor (Mussismilia harttii) na Base de Pesquisa do Coral Vivo (Foto: Leandro Santos | Projeto Coral Vivo)
Monitoramento da desova do coral-couve-flor (Mussismilia harttii) na Base de Pesquisa do Coral Vivo (Foto: Leandro Santos | Projeto Coral Vivo)

Qual o impacto do aquecimento global nos recifes de coral?

O aquecimento global tem provocado efeitos devastadores nos recifes de coral. A emissão excessiva de gases como o CO2, proveniente da queima de combustíveis fósseis, aumentou a temperatura média do planeta em cerca de 1 °C no último século. Isso pode parecer pouco para nós, mas para os frágeis corais, isso significa “entrar num quadro de febre”. O aumento da temperatura do oceano rompe a simbiose (relação) dos corais com pequenas algas que vivem dentro de seus tecidos. Além do aumento da temperatura da água, o excesso de CO2 absorvido pelo oceano está deixando suas águas mais ácidas. Nesse cenário, organismos calcificadores (que produzem conchas ou esqueleto calcário) como os corais terão seu crescimento comprometido. Se as emissões de gases do efeito estufa continuarem nesse ritmo, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) prevê até 2100 um aumento de 4,8 °C na temperatura do planeta, e uma acidificação de até 100% nas águas do oceano. Aproximadamente 40% dos corais do planeta já morreram devido esses impactos antrópicos.

O que pode ser feito em curto prazo para evitar a morte dos corais em grande escala? 

Criar áreas de preservação é importante, pois dessa forma se delimita e controla o acesso de pessoas ao local. No entanto, essa ação por si só não será suficiente. A mudança no clima é global, não tem fronteiras, e afetará áreas de preservação da mesma forma. Estamos falando de efeitos que são causados pelo coletivo. É a mudança de atitude de cada um de nós, somada à governança e políticas públicas adequadas que resultará de fato em benefícios para preservação desse ecossistema.

De que maneira o turismo desordenado impacta na morte dos corais?

Com certeza é preciso mais conscientização do setor. É comum observarmos uma disparidade na gestão do turismo em recifes de coral (em âmbito mundial). Em algumas regiões existe o controle do acesso, e em outras isso é praticamente inexistente, com turistas circulando por onde querem, inclusive pisando sobre os corais. Além disso, quase a totalidade dos protetores solares disponíveis no mercado protege a pele dos raios UV de forma química. A oxibenzona está presente na formulação da maioria dos protetores solares, e estudos científicos já comprovaram que ela é altamente tóxica para os corais jovens, danificando seu DNA e tornando-os mais vulneráveis ao branqueamento e morte. A alternativa é usar protetor de base mineral, feito, por exemplo, com óxido de zinco e dióxido de titânio, que formam uma barreira física sobre a pele e bloqueiam os raios UV. Vale lembrar também que a quantidade de protetor solar a ser usada pode ser reduzida se nos protegermos de forma adequada, usando, por exemplo, roupas com proteção UV. Não estou dizendo para não usar protetor solar, e sim substituí-lo por produtos “reef-safe”, que não sejam prejudiciais para a vida marinha.

Como a morte dos recifes de coral pode impactar o turismo e a economia?

Apesar de ocuparem menos de 1% dos oceanos, os recifes de coral são considerados o berço da vida marinha, oferecendo alimento e abrigo para 25% de todas as espécies marinhas. Eles impactam também muitas vidas humanas. Para muitas cidades e países das regiões próximas aos recifes de coral, o turismo é uma das principais atividades econômicas. O turismo nesses ecossistemas gira em torno de US$ 36 bilhões por ano e gera mais de 6 milhões de empregos no mundo. Em regiões com recifes de coral, a fauna marinha é incrivelmente rica e provê alimento e sustento para muitas comunidades. As atividades pesqueiras hoje são importantes econômica e socialmente para aproximadamente 100 países. Com o desaparecimento dos corais, a diminuição drástica dessa biodiversidade afetará a pesca e pode deixar 275 milhões de pessoas em situação de fome extrema nesses países, acarretando um prejuízo econômico de quase U$ 7 bilhões.

Os corais são importantes também para a saúde dos humanos?

Apesar de serem sésseis (não podem se locomover), os corais são animais fantásticos e complexos. Eles tiveram que desenvolver mecanismos para capturar presas, além de defesas contra patógenos e predadores. Por esta complexidade orgânica, os corais são fonte para muitos medicamentos, inclusive, as chances de encontrar medicamentos nos recifes de coral são muito maiores que em florestas tropicais.  Os recifes de coral não apenas fornecem proteção para muitos seres vivos dentro do mar, mas também aos humanos. Eles exercem uma função importantíssima fazendo papel de “para-choque” contra as ondas marítimas. Essas ondas são amortecidas no choque direto com os corpos recifais, que barram até 70% de toda essa energia. Também são capazes de proteger o continente de tempestades vindas diretamente do mar aberto. 


Escrito por Rosangela Honor

Jornalista com 30 anos de experiência em redações como O Globo, O Estado de São Paulo, O Dia, Folha de São Paulo e IstoÉ Gente. Durante esse período atuou como repórter, colunista, editora e chefe de sucursal. Atualmente trabalha como Assessora de Comunicação, Consultora e Coordenadora de Eventos.

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