Tóquio 2020: calor inicial aponta para jogos mais quentes da história

Uma suada voluntária ajuda a tenista sérvia Nina Stojanovic a se refrescar com um ar condicionado durante partida em Tóquio temperaturas sempre acima dos 30 graus apontam para os Jogos Olímpicos mais quentes da história (Giuseppe Cacace /AFP – 24/07/2021)

Com crise climática, temperatura média do verão na capital japonesa subiu mais de dois graus desde o século passado e atletas sofrem no fim de semana

Por Oscar Valporto | ODS 13 • Publicada em 26 de julho de 2021 - 09:20 • Atualizada em 29 de julho de 2021 - 14:32

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Uma suada voluntária ajuda a tenista sérvia Nina Stojanovic a se refrescar com um ar condicionado durante partida em Tóquio temperaturas sempre acima dos 30 graus apontam para os Jogos Olímpicos mais quentes da história (Giuseppe Cacace /AFP – 24/07/2021)

Em 1964, quando Tóquio sediou pela primeira vez os Jogos Olímpicos de Verão, as competições foram disputados no outono. O temido calor na capital japonesa, geralmente acompanhado de umidade acima de 50%, fez os organizadores adiarem em três meses o evento. Apesar da crise climática, o adiamento não foi considerado desta vez e o primeiro fim de semana dos Jogos Olímpicos de Tóquio foi com temperaturas acima de 30º graus – com máxima de 34º e sensação térmica acima de 40º graus Celsius, o que provocou reclamações dos atletas, principalmente aqueles que disputaram competições ao ar livre como vôlei de praia, tênis, remo, hóquei e tiro com arco.

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O primeiro fim de semana olímpico – e os dias que antecederam a abertura na sexta-feira (23/06) – confirma a previsão de meteorologistas e climatologistas de que Tóquio 2020 será marcado como os Jogos Olímpicos mais quentes da história com a temperatura média superando a de Los Angeles 1984 – que teve temperatura média ligeiramente acima de 32 graus. Atenas 2004 e Atlanta 1996 também tiveram temperaturas médias acima de 30 graus. A sensação na capital japonesa é pior devido a umidade, que, no fim de semana, alcançou 70% durante o dia.

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Quem viu a estreia da dupla brasileira no torneio masculino de vôlei de praia pode perceber que o atual campeão olímpico Alison Cerruti colocava um colete nos intervalos da partida de estreia quando o capixaba e seu parceiro Álvaro Filho derrotaram uma dupla argentina. “O calor aqui é muito úmido, estamos suando mais do que o normal: sem ventar fica mais quente ainda”, lamentou Alison que, além do ouro no Rio 2016, foi prata em Londres 2012.

O brasileiro Alison supera o bloqueio do argentino Capogrosso em quadra com sensação térmica de 40 graus: colete de refrigeração e queidas contra calor e umidade no Parque Shyokaze, em Tóquio (Foto: Angela Weiss / AFP - 24/07/2021)
O brasileiro Alison supera o bloqueio do argentino Capogrosso em quadra com sensação térmica de 40 graus: colete de refrigeração e queixas contra calor e umidade no Parque Shyokaze, em Tóquio (Foto: Angela Weiss / AFP – 24/07/2021)

O colete de Alison faz parte do kit refrigeração distribuído aos atletas pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil) que contém ainda colar e chapéu nos quais é possível colocar pedras de gelo para reduzir a temperatura corporal. O colete, inflável, vem fazendo sucesso; outras delegações também estão usando equipamento semelhante. A própria areia foi trocada antes dos jogos porque estava quente demais; e a nova foi regada para poupar os pés dos jogadores.

Os atletas do vôlei de praia foram unânimes em reclamar da temperatura. Campeã mundial, a canadense Sarah Pavan não queria usar a máscara contra a covid-19 na coletiva após seu jogo de estreia. “Estou completamente sem fôlego, suando até na boca”, reclamou antes de colocar a máscara. “Eu posso desmaiar aqui”, alertou. “Em alguns momentos, eu tive que parar para respirar e me concentrar para conseguir fechar o ponto. Até o árbitro me lembrou que eu podia beber água nas trocas de lado da quadra”, contou a brasileira Ágatha.

Conhecido como Mamute por sua força, Alison, de 2,03m, destacou outro ponto. “Parece que a falta de público deixa ainda o lugar mais quente ainda”, desabafou. Ele está certo: os cientistas explicam que as pessoas ajudam a absorver o calor, o que o material (cimento, metais, plásticos) das arenas não faz. Grandes metrópoles, como Tóquio, abrigam ilhas de calor provocadas pelo excesso de asfalto, cimento e metais da pavimentação das ruas e das estruturas dos edifícios.

O brasileiro Kelvin Hoefler a caminho da medalha de prata sob o sol de 33 graus no Parque Ariake: pista de cimento aumenta a sensação de calor extremo (Foto: Martin Bernetti / AFP - 25/07/2021)
O brasileiro Kelvin Hoefler a caminho da medalha de prata sob o sol forte e a temperatura de 33 graus no Parque Ariake: pista de cimento aumenta a sensação de calor extremo (Foto: Martin Bernetti / AFP – 25/07/2021)

Quando o Brasil ganhou sua primeira medalha – a prata com o skatista Kelvin Hoefler – em Tóquio 2020, pouco depois do meio-dia de domingo (hora local), os termômetros marcavam 33 graus na capital japonesa. Mas a sensação térmica no Parque Ariake de Skate estava perto dos 40 graus: a pista de cimento aumentava o calor. “Agradeço a Pamela (Rosa, companheira da equipe brasileira de skate) por ficar me chamando para ir para a sombra e me hidratar”, disse Kelvin após ganhar a medalha de prata

A futura medalhista Rayssa Leal e seu look para enfrentar a alta temperatura e a unidade das pistas de skate durante os treinos: "tá fervendo" (Foto: Reprodução/Instagram)A futura medalhista Rayssa Leal e seu look para enfrentar a alta temperatura e a unidade das pistas de skate durante os treinos: "tá fervendo" (Foto: Reprodução/Instagram)
A futura medalhista Rayssa Leal e seu look para enfrentar a alta temperatura e a unidade das pistas de skate durante os treinos: “tá fervendo” (Foto: Reprodução/Instagram)

Na manhã de segunda (no Japão), a temperatura estava um pouco (dois graus) mais baixa e havia algumas nuvens mas, mesmo assim, Rayssa Leal – a maranhense de 13 anos que ganhou medalha de prata no skate – usava o colete refrigerado no intervalo de suas exibições. Nos treinos, ela já tinha reclamado do clima. “O calor em Tóquio é outro patamar. Tá fervendo. A gente usa colete de gelo, boné de gelo pedrado, e continua calor”, escreveu Rayssa numa rede social ao lado de uma foto com seu kit refrigeração.

Na arena de tênis, foram colocadas unidades portáteis de ar condicionado para refrescar os jogadores nos intervalos das partidas, disputadas sob calor sufocante na quadra de cimento. “O calor foi um dos piores que já enfrentei”, desabafou o russo Daniil Medvedev, número 3 do ranking mundial. O tenista acrescentou que os organizadores dos Jogos deveriam adiar todas as partidas para a noite a fim de evitar o calor extremo. Apelo semelhante foi feito pelo sérvio Novak Djokovic, número 1 do mundo e vencedor recente dos tradicionais torneios de Roland Garros e Wimbledon. “As condições, com o calor e a unidade, são brutais”.

Número 1 do mundo, o tenista Djokovic Novak enxuga o calor na quadra do Complexo de Tênis de Tóquio 2020: "calor brutal", protestou o sérvio (Foto: Pauline Ballet / KMSP / AFP - 24/07/2021)
Número 1 do mundo, o tenista Djokovic Novak enxuga o calor na quadra do Complexo de Tênis de Tóquio 2020: “calor brutal”, protestou o sérvio (Foto: Pauline Ballet / KMSP / AFP – 24/07/2021)

Apelos semelhantes aos de Djokovic e Medvedev já foram ouvidos por dirigentes de outros esportes. Partidas de rubgy, marcadas para o começo da tarde serão jogadas no fim do dia. Provas de mountain bike foram antecipadas para as primeiras horas da manhã. Nas primeiras provas de rua do ciclismo, disputadas no fim de semana, os atletas enfiaram bolsas de gelo em suas roupas de lycra. No hóquei sobre a grama, a organização instalou um sistema de irrigação – para os atletas, não para a grama. Na sexta-feira, a arqueira russa Svetlana Gomboeva já havida desmaiado devido ao calor de 34 graus durante a rodada de qualificação.

O esperado calor em Tóquio já havia feito o comitê organizador decidir, ainda em 2019, transferir as provas de maratona e caminhada atlética para a cidade de Sapporo, cerca de 830 km ao norte da capital e onde os verões são geralmente muito mais suportáveis. Mas os termômetros marcaram 35 graus na segunda-feira (19/07), a temperatura mais alta em Sapporo desde 2000: duas mulheres idosas foram encontradas mortas por insolação na rua e posteriormente confirmadas como mortas de insolação.

Na província de Hukkaido, onde está Sapporo, mais de 100 pessoas foram internadas em hospitais da região para serem tratadas por insolação. “Sabemos que as temperaturas aumentam a cada verão, mas 35 graus é muito incomum”, disse Yoko Tsukamoto, professora de Infectologia, da Universidade de Ciências da Saúde de Hokkaido, à Associated Press.

Jogadora de hóquei da Alemanha corre em meio a água do sistema de irrigação: equipamentos usados para refrescar, além do gramado, atletas (Foto: Michael Kappeler/ DPA / AFP -20/07/2021)
Jogadora de hóquei da Alemanha corre em meio a água do sistema de irrigação: equipamentos usados para refrescar, além do gramado, atletas (Foto: Michael Kappeler/ DPA / AFP -20/07/2021)

Emergência climática e calor extremo

Nos últimos anos, o Japão tem enfrentados as temperaturas mais altas de sua história moderna, acompanhadas por chuvas mais frequentes e intensas que provocam inundações. No verão de 2018, pelo menos 80 pessoas morreram durante uma onda de calor em Tóquio, e em 23 de julho – a mesma data da cerimônia de abertura dos Jogos de Tóquio – a temperatura chegou 41,1° Celsius, em Kumagaya, a apenas 70 quilômetros da capital japonesa: foi o recorde de calor no país.

Pouco mais de um mês antes da abertura dos Jogos Olímpicos, estudo publicado pela Associação Britânica para o Esporte Sustentável mostrou as principais preocupações de cientistas e também de atletas obre os impactos das altas temperaturas no Japão sobre a saúde. “A temperatura média anual em Tóquio aumentou 2,86 graus Celsius desde 1900, mais de três vezes mais rápido que a média mundial”, alertou o relatório.

Jornalista japonesa acompanha jogo de basquete 3x3, ao ar livre, com ventilador portátil: recomendação das autoridades para que população evite fazer exercícios ao ar livre devido às altas temperaturas e à unidade (Foto: Vladimir Astapkovich / Sputnik / AFP)
Jornalista japonesa acompanha jogo de basquete 3×3, ao ar livre, com ventilador portátil: recomendação das autoridades para que população evite fazer exercícios ao ar livre devido às altas temperaturas e à umidade (Foto: Vladimir Astapkovich / Sputnik / AFP)

Governador metropolitano de Tóquio entre 2014 e 2016, Yoichi Masuzoe demonstrou preocupação com as altas temperaturas durante os Jogos Olímpicos. “As competições ao ar livre neste ambiente quente e úmido são uma batalha contra a insolação. Só os interesses financeiros e a transmissão pela TV explicam a decisão de disputar os jogos em pleno verão”, escreveu no Twitter.

Pesquisadora do Centro de Políticas Públicas de Saúde Global, a professora Hiromi Murakami também lembrou que os próprios moradores de Tóquio têm enfrentado problemas pelas altas temperaturas. “Nos últimos anos, os verões em Tóquio têm ficado gradualmente mais quentes e mais desconfortáveis”, afirmou. “É difícil para as pessoas comuns ficar ao ar livre por muito tempo, então não posso imaginar o quão difícil deve ser para os atletas de elite tentar competir nessas condições”, acrescentou a pesquisadora.

O calor de julho fez que as autoridades japoneses alertassem a população – as pessoas comuns – que evitasse exercícios ao ar livre. São nessas condições que os atletas olímpicos estão disputando as competições mais importantes de suas vidas em que são obrigados a chegar aos limites do corpo.

Depois do fim de semana, os atletas devem ter um pouco de refresco, mas não de tranquilidade. Meteorologistas preveem a chegada de um tufão (versão asiática de furacão) no litoral do país que deve levar chuva e vento até Tóquio. O fenômeno é comum no verão japonês, mas os tufões, como as ondas de calor, também estão ficando mais intensos e frequentes.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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