Sem a COP, jovens organizam conferência alternativa pelo clima

Jovens em protesto pelo clima em Londres antes da pandemia: conferência alternativa virtual para discutir emergência climática (Foto: David Cliff/AFP)

Delegados de mais de 140 países, todos até 25 anos, vão se reunir virtualmente a partir do dia 19 para debater ações para conter emergência climática

Por José Eduardo Mendonça | ODS 13 • Publicada em 16 de novembro de 2020 - 09:11 • Atualizada em 18 de novembro de 2020 - 09:12

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Jovens em protesto pelo clima em Londres antes da pandemia: conferência alternativa virtual para discutir emergência climática (Foto: David Cliff/AFP)

Jovens foram fundamentais na eleição de Joe Biden, que logo depois de ser eleito formou um grupo para cuidar do clima como prioridade. E jovens de todo mundo mostram uma adesão cada vez maior à questão. A COP26, cúpula do clima da ONU, deveria começar no dia 19 de novembro em Glasgow mais foi adiada para o final do ano que vem devido à pandemia. Mas ativistas desta faixa de idade, relutantes em esperar, vão realizar, a começar da mesma data, e por nove dias, o que está sendo chamado de “Mock COP” online.

As negociações terão o mesmo formato da conferência da ONU, com delegados de mais de 140 países, e pretende ilustrar o que “podemos fazer nós mesmos com nossa participação” para o mundo. “Alguém disse, de repente: por que não fazemos nosso próprio evento?”, lembra Josh Tregale, estudante britânico, um dos organizadores da Mock COP.

A conferência focará em temas que incluem educação do clima, metas de carbono, justiça climática, saúde e empregos verdes, e pretende produzir um resultado negociado no mesmo formato das COPs oficiais. “Aprendemos o bastante sobre mudança do clima para criarmos nossas saídas”, afirma Tregale. Um dos motivos da reunião é manter acesa uma causa que foi obscurecida pela impossibilidade de realizar movimentos de massa nas ruas. Outro combustível é o número de desastres causados pela mudança do clima, como incêndios, enchentes e furacões.

“Quando falamos da crise do clima estamos falando de humanos”, afirma Sofia Hernandez, de 22 anos, da Costa Rica e uma das organizadoras da COP da juventude, Ela é uma estudante de ciência política com foco em direitos humanos. Ela aderiu às Sextas-Feiras pelo Futuro (Fridays For Future), organização lançada pela ativista sueca Greta Thunberg.

A ativista Greta Thunberg na Conferência do Clima da ONU em 2019: adiamento da cúpula oficial levou jovens a criar encontro alternativo (Foto: Cristina Quicler/AFP)
A ativista Greta Thunberg na Conferência do Clima da ONU em 2019: adiamento da cúpula oficial levou jovens a criar encontro alternativo (Foto: Cristina Quicler/AFP)

Há uma preocupação com os países mais pobres. Eles contarão com cinco delegados cada, enquanto que os ricos poderão ter três. O evento também quer ser um modelo do que pode ser possível em negociações online para o baixo carbono. “Eles estão garantindo que as vozes das áreas mais afetadas sejam amplificadas e garantindo que temos um espaço e não estejamos apenas simbolizados”, frisa Mitzi Jonelle Tan, uma ativista das Filipinas, de 22 anos, que também achou a abordagem do Mock Cop26 “revigorante”.

As duas semanas tratarão do empoderamento e terão estudos e painéis seguidos de documentos, com grupos de trabalho temáticos, diz o site da organização. Entre os organizadores estão participantes da Austrália, Brasil, Burkina Faso, Canadá, Costa Rica, Índia, Japão, Quênia, Nigéria, Filipinas e Reino Unido. A idade dos participantes vai de 14 a 25 anos. “Queremos utilizar essa pandemia em vez de ficarmos nos queixando, para que possamos amplificar as vozes daqueles que têm pouca representação. É uma oportunidade de partilhar com os jovens do mundo o que temos a fazer”, afirma Josh Tregale.

Recentemente, na sede da ONU, falando durante comemoração do Dia dos Direitos Humanos, o secretário-geral António Guterres pediu aos governos que “invistam em “progresso e esperança” prestando atenção à juventude. “Os jovens estão na linha de frente da ação contra a mudança do clima, que apresenta séria ameaça aos direitos humanos e à vida humana”, disse Guterres. “Os jovens estão exigindo que os governos os ouça e os respeito. Suas vozes têm de ser ouvidas”, acrescentou.

Uma das jovens ativistas do clima, Lavinia Iovino, de 14 anos, disse que se sentiu exasperada com o adiamento da conferência da ONU devido à pandemia “Fiquei muito desapontada porque isso mostrou que os líderes mundiais acham que podemos perder um ano ou mais, quando não podemos fazer isso. A crise do clima está acontecendo agora”.

“Vai ser ambicioso mas também será realista”, diz Tregale. “Queremos mostrar que os jovens têm opiniões, mas que que sabem como implemntar as coisas e serem líderes”. A COP 25 da ONU foi severamente criticada pelo fato de a grande maioria de sua equipe ser masculina, mais uma desilusão com o processo, de progresso limitado nas metas de emissões. “Foi anunciada como a maior COP de todos os tempos, mas dela não saiu nada concreto ou real. Nada que pudesse ser de verdade implementado”, lamenta Lavinia.

Os envolvidos não alimentam ilusões sobre o desafio de fazer com que líderes mundiais acordem para os problemas. “Não acho que teremos muito impacto de início, talvez, mas vamos mostrar que podemos gritar nas ruas, e que podemos ser tão profissionais quanto os adultos dizem que não somos capazes”, afirma Tregale.

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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