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Não foi por falta de aviso

Há 50 anos empresas de petróleo já sabiam dos efeitos drásticos do aquecimento global


Usina termelétrica a gás, em Bruxelas, na Bélgica. Foto Emmanuel Dunand/AFP
Usina termelétrica a gás, em Bruxelas, na Bélgica. Foto Emmanuel Dunand/AFP

Ainda não está convencido de que a Terra está esquentando rapidamente? Então pense nisso: a última vez que a temperatura média mensal global esteve abaixo da média foi em 1985. Ou seja, se você tem menos de 30 anos, não viveu um único mês fora deste cenário. Em 2016, pela primeira vez passamos um ano inteiro com uma concentração de CO2 na atmosfera acima de 400 partes por milhão (ppm), medida da concentração de carbono na atmosfera. Antes da era industrial, essa concentração ficava abaixo de 300 ppm.

O que consideramos incomumente quente hoje será considerado médio no futuro. E para o que chamamos ‘quente’ no futuro nem há atualmente uma analogia

Michael Mann
Climatologista da Penn State University

Análises em camadas de gelo indicam que nos últimos 800 mil anos (até o período pré-industrial), a concentração de CO2 na atmosfera variou ciclicamente entre 180 ppm e 280 ppm. De acordo com um estudo publicado pela Science em 2009, nos últimos 20 milhões de anos os níveis de dióxido de carbono na atmosfera só estiveram perto do que temos hoje durante o Mioceno, entre 16 milhões e 12 milhões de anos atrás. Na época, as temperaturas eram entre 3 e 6 graus Celsius maiores que as atuais, e o nível do mar era de 25 a 40 metros superior.

De acordo com cientistas da Universidade Princeton, meio grau de aquecimento pode levar à enchentes em cidades costeiras habitadas apor 5 milhões de pessoas. Science Photo Library
De acordo com cientistas da Universidade Princeton, meio grau de aquecimento pode levar à enchentes em cidades costeiras habitadas apor 5 milhões de pessoas. Science Photo Library

Temos aí uma receita pronta para o desastre, a provável extinção de espécies, tempestades e furacões cada vez mais frequentes e intensos, metrópoles ameaçadas pelo aumento do nível do mar, secas intermináveis. Mas não precisava ter sido assim. A ciência avisou. Faltou vontade política para dizer o que agora vem sendo dado como inevitável. A coisa está feia. Muito feia.

Há 50 anos, um relatório feito pela Universidade de Stanford, para o American Petroleum Institute, dizia que os impactos do aumento das emissões de CO2 na atmosfera poderiam trazer mudanças climáticas, como elevação de temperaturas, derretimento de geleiras e aumento do nível do mar – de acordo com cientistas da Universidade Princeton, meio grau de aquecimento pode levar à enchentes em cidades costeiras e ilhas habitadas atualmente por 5 milhões de pessoas.

As grandes empresas de petróleo fingiram que não era com elas,  varreram a sujeira para baixo do tapete e iniciaram uma longa, suja e abrangente estratégia de negação e obstrução da verdade, da mesma forma que a indústria do tabaco fizera décadas antes, tentando desmentir o indesmentível. Estar ao lado da ciência significava, afinal, abrir mão dos lucros.

Já se sabia do efeito do aquecimento na superfície há quase dois séculos, quando o matemático francês Joseph Fourier postulou, em 1827, pela primeira vez que a atmosfera da Terra retém calor de radiação. Não se sabia, no entanto, qual era a magnitude deste efeito sobre as temperaturas do planeta, ou as consequências disso.

Algumas décadas depois, em 1863, o físico inglês John Tyndall descobriu em seu laboratório que certos gases, incluindo vapor de água e dióxido de carbono (CO2), são opacos aos raios de calor, e entendeu que o ar ajuda a manter o globo aquecido ao interferir com a radiação que volta da Terra ao espaço, depois de tê-la atingido. Tyndall encontrara a chave a partir da qual se desvendaria a mudança do clima.

O químico sueco Svante Arrhenius foi mais adiante, oferecendo em 1896 a teoria dos efeitos dos gases de efeito estufa (GEE), calculando que um aumento de cem por cento de CO2 na atmosfera elevaria as temperaturas em 5ºC ou 6ºC acima dos níveis pré-industriais. Ele estudava o derretimento de geleiras.

Para além do escopo de sua teoria, Arrehnius não ignorava que a atividade humana, na forma da queima de carvão, estava jogando carbono na atmosfera acima dos níveis naturais e mantinham o planeta habitável. Em um comentário en passant, o cientista estimou que a queima levaria a um aumento de níveis de CO2 em 50% em 3000 anos. Para ele, problema nenhum. E nem, àquela altura do maçico desenvolvimento da Revolução Industrial, alguém levaria a ameaça a sério.

O trabalho foi o pontapé inicial para o estabelecimento, já em meados dos anos 1900, da ciência do clima, campo que abrange física, química, astronomia, geografia, matemática, biologia e outras áreas do saber. Foi a primeira ciência transdisciplinar da história.

Foi preciso que o climatologista James Hansen, diretor do Instituto de Estudos Especiais da Nasa, em Manhattan, fosse chamado a depor no congresso, em 1988, para que a mídia começasse a acordar. Ele declarou que a elevação das temperaturas provocadas por poluentes na atmosfera respondia inequivocamente pelo aquecimento global, e que este efeito ia muito além da variabilidade natural.

Na ocasião, o senador democrata Timothy Wierth disse: “Como eu vejo, a forte evidência científica é de que o clima global está mudando. O Congresso deve começar a considerar como vamos fazer para desacelerar ou brecar esta tendência de aquecimento e como iremos lidar com mudanças que já podem ser inevitáveis”.

Não há mais para o planeta o que se classificava como “normal”. Segundo Michael Mann, climatologista e geofísico da Penn State University, nem o que se chama de “médio”. “O que consideramos incomumente quente hoje será considerado médio no futuro. E para o que chamamos ‘quente’ no futuro nem há atualmente uma analogia”.

Em 2017, os Estados Unidos enfrentaram 16 desastres relacionados direta ou indiretamente ao aquecimento, que custaram mais de 300 bilhões de dólares em danos.

Não vai melhorar. A cada década de atraso e negação, os custos continuarão a subir. No momento, contribuintes estão com a conta de um crescente número de impactos que se transformaram em um desafio que a humanidade nunca enfrentou. Poluidores têm de ser chamados à justiça, e não apenas propagar seus esforços para ajudar a atenuar as temperaturas, muitas vezes em declarações que escondem mais uma estratégia de marketing. E a justiça deve beneficiar cidadãos que só queimaram lenha para fazer suas refeições, como na África e Ásia, ou foram ao trabalho em seus carros, nos países desenvolvidos ou ainda consumiram plástico, em todo mundo, por não terem alternativas.


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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Um Comentário

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  1. Uma observação somente: cuidado com a foto que ilustra este excelente artigo. Não aparece na foto nenhuma termeletrica a gás, mas sim a chaminé de uma usina nuclear, que somente expele vapor d’agua, ou seja, zero poluição.

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