Perda de gelo dobra na Groenlândia

Estudo aponta que derretimento de 600 bilhões de toneladas em dois meses de 2019 elevou o nível do mar em 2,2 mm

Por Observatório do Clima | ods13 • Publicada em 25 de março de 2020 - 09:09 • Atualizada em 25 de março de 2020 - 09:17

Blocos de gelo boiam no mar ao leste da Groenlândia: derretimento de 600 bilhões de toneladas, o dobro da média (Foto: Pierre Vernay/BiosPhoto/AFP)

Em apenas um verão, no ano passado, o manto de gelo da Groenlândia perdeu 600 bilhões de toneladas de água, que elevaram o oceano no mundo inteiro em 2,2 milímetros. A conclusão é de uma nova análise de dados de satélite, publicada por um grupo internacional de cientistas. O derretimento de 2019 só é comparável ao recorde absoluto de 2012, quando a segunda maior massa de gelo da Terra perdeu 650 bilhões de toneladas. A perda anual entre 2002 e 2019 na ilha foi de 268 bilhões de toneladas. Para dar ideia do que isso significa, o Brasil produz por ano 245 milhões de toneladas de grãos.

Olhando para a Antártida, maior manto de gelo do planeta, os pesquisadores tiveram uma notícia menos ruim: embora três regiões do continente tenham tido perdas de gelo somadas de 3 trilhões de toneladas desde 2002, a partir de 2009 uma quarta área no leste antártico passou a ganhar gelo, acumulando 980 bilhões de toneladas e desacelerando a taxa de perda anual. Atenção, negacionistas: não é que a Antártida tenha parado de derreter; é que a velocidade com que o derretimento cresce arrefeceu.

O estudo foi conduzido por um grupo liderado pela pesquisadora italiana Isabella Velicogna, da Universidade da Califórnia em Irvine, e publicado no periódico Geophysical Research Letters. Mais do que medir perda de gelo, a cientista e seus colegas estavam tentando resolver um problema com uma ferramenta.

Eles queriam verificar se dois satélites gêmeos enviados ao espaço em 2018 haviam conseguido substituir com sucesso equipamentos idênticos que pifaram no ano anterior.

Os satélites em questão são a missão Grace (Experimento de Recuperação de Gravidade e Clima). Trata-se de um par de satélites que voam perfeitamente alinhados. Sempre que ocorre uma variação do campo gravitacional da Terra, um deles é puxado com mais ou menos força que o outro e um desalinho quase imperceptível acontece. Esse desalinho é convertido em massa.

Quando o gelo dos polos derrete, o campo gravitacional fica mais fraco naquela região, e os dados do Grace permitem estimar a quantas toneladas de gelo equivale a diferença no puxão.

Blocos de gelo no Oceano Atlântco, perto da Groenlândia: degelo dos mantos polares hoje é o principal fator de elevação do nível do mar (Foto: Science Photo Library/AFP)
Blocos de gelo no Oceano Atlântco, perto da Groenlândia: degelo dos mantos polares hoje é o principal fator de elevação do nível do mar (Foto: Science Photo Library/AFP)

O Grace teve uma pane na bateria em 2017 e parou de funcionar. Uma missão de becape, a Grace-FO, foi lançada em 2018. O que Velicogna e colegas queriam saber era se era possível comparar as séries de dados dos dois sistemas. A resposta foi sim.

O degelo dos mantos polares hoje é o principal fator de elevação do nível do mar. Desde os anos 1990 ele é observado de forma acelerada na Groenlândia. Neste século, a Antártida passou a acelerar seu degelo também, especialmente na porção oeste. O oeste antártico é hoje a principal preocupação dos cientistas em termos de elevação dos oceanos, já que quatro de suas geleiras – que, juntas, poderiam acrescentar 3 metros ao nível global do oceano – já dão sinais de colapso irreversível.

Nesse ponto, disse Velicogna em um comunicado, o acúmulo de gelo visto no leste antártico (que é mais alto e mais frio do que o oeste, portanto responde ao vapor extra aportado pelo aquecimento da Terra com mais precipitação de neve) não chega a ser um alívio. “Na Antártida, a perda de massa no oeste continua irrefreável, o que é muito ruim para o nível do mar”, afirmou. “Mas também observamos um ganho de massa no setor atlântico da Antártida Oriental causado por um aumento na queda de neve, o que ajuda a mitigar a enorme perda de massa que vimos nas últimas duas décadas em outras partes do continente”, acrescentou.

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