Pantanal terá mais duas semanas críticas: quente, seco, com fogo e sem chuva

Incêndio próximo à Rodovia Transpantaneira: pesquisadores preveem mais duas semanas críticas de fogo no Pantanal (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)

Pesquisadores alertam para avanço dos incêndios em áreas protegidas; número de queimadas no bioma em 2020 é quase 200% maior do que em 2019

Por Oscar Valporto | ODS 13ODS 14 • Publicada em 1 de outubro de 2020 - 09:00 • Atualizada em 4 de outubro de 2020 - 11:38

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Incêndio próximo à Rodovia Transpantaneira: pesquisadores preveem mais duas semanas críticas de fogo no Pantanal (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)

No dia 23 de setembro, os satélites do Inpe (instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostravam que o avanço do fogo no Pantanal ainda não tinha atingido a Estação Ecológica Taiamã – área de mais de 11 mil hectares, composta por campos alagados, onde vivem 131 espécies de peixes e 267 espécies de aves, além de onças-pintadas, ariranhas e cervos. A chuva da semana anterior ajudou a conter os incêndios. Entretanto, seis dias depois, no dia 29, as imagens do Inpe registraram que o fogo já atingia 27% da Estação Ecológica. Pesquisadores alertam que o bioma ainda está muito ameaçado pelo fogo. “As duas próximas semanas serão críticas no Pantanal porque a previsão é de muito calor, baixíssima umidade e nenhuma precipitação”, afirmou o coordenador substituto do Programa Queimadas, do Inpe, em audiência pública, nesta quarta (30/09) na Câmara dos Deputados.

Em 10 anos, o bioma perdeu 16% de sua vegetação. O Pantanal está encolhendo. E tem cada vez mais e mais áreas à mercê do fogo.

Claumir César Muniz
Biólogo e pesquisador da Universidade Estadual do Mato Grosso

No mesmo debate, o biólogo professor da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), fez questão de destacar que os focos de incêndio ainda estão espalhados pelo Pantanal. “É preciso ainda reforçar o combate este ano e também começar a se preparar para o ano que vem. Não podemos delegar o controle das queimadas às chuvas”, apontou o pesquisador. De acordo com o Inpe, a chuva em todo o Pantanal só deve chegar em meados de agosto. “Até lá, teremos temperaturas acima de 40 graus, com sensação térmica de 50 nas cidades e uma umidade sempre abaixo de 30%. É uma combinação terrível para o combate ao fogo pois qu Claumir César Muniz,alquer fagulha se transforma em chamas”, explicou Setzer.

Ilha localizada em área de encontros de águas no Rio Paraguai, a área da estação ecológica, que abriga uma base de pesquisas da Unemat, teve 3,1 mil dos seus 11,6 mil hectares atingidos pelo fogo. “As árvores de mata alagada, como a do Pantanal, não têm a mesma capacidade de regeneração das árvores do Cerrado. Será preciso um trabalho para recuperar a vegetação perdida para o fogo”, frisou a bióloga e professora Solange Ikeda Castrillon, também da Unemat, que participa, na Taiamã, do PELD (Projeto Ecológico de Longa Duração) Pantanal. “Todo o bioma é riquíssimo em biodiversidade e ainda é impossível avaliar o impacto dessa temporada de incêndios”, acrescentou a pesquisadora na audiência pública promovida pela comissão externa da Câmara sobre o enfrentamento das queimadas.

O engenheiro florestal Vinícius Silgueiro, coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV (Instituto Centro Vida), alertou para a situação das áreas protegidas, ainda mais crítica pelas dificuldades de acesso. “Os incêndios esse ano no Pantanal têm consumido grandes áreas em um intervalo de poucos dias”, disse Vinícius Silgueiro, acrescentando, que, no  caso da Estação Ecológica Taiamã, o acesso só pode ser feito por via fluvial ou aérea. “Isso indica a necessidade de priorização e máximo esforço no combate a essa frente de incêndio”, destacou o coordenador do ICV.

Quatis buscam água em leito seco de rio no Pantanal; previsão mais dias sem chuva e com calor de 40 graus (Foto: Ernesto Carriço/NurPhoto/AFP)
Quatis buscam água em leito seco de rio no Pantanal; previsão mais dias sem chuva e com calor de 40 graus (Foto: Ernesto Carriço/NurPhoto/AFP)

O instituto vem alertando ainda para o estrago feito pelo fogo no Parque Estadual Encontro das Águas – entre os municípios de Poconé e Barão do Melgaço, em Mato Grosso – que teve pouco mais de  100 mil hectares, 93% da sua área total. O parque é considerado o maior refúgio nas Américas de onça-pintada, espécie sob risco de extinção. De janeiro até o dia 20 de setembro, o parque registrou 471 focos de calor; em 2019, não foi registrado foco algum.

Temos mais de um mês sem chuva, temperaturas na faixa de 40 graus, nenhuma precipitação prevista, umidade relativa abaixo de 25%: qualquer pessoa sabe que, riscou o fósforo, a vegetação vai queimar

Alberto Setzer
Coordenador substituto do Programa Queimadas do Inpe

A pesquisadora Solange Ikeda Castrillon alertou que os incêndios florestais no Pantanal estão afetando não apenas a fauna e a flora mas também boa parte da população. “Comunidades ribeirinhas estão evitando beber água do Rio Paraguai e seus afluentes com medo dos resíduos das queimadas que estão caindo nos rios. E há uma mobilização para levar água aos animais que estão morrendo de sede com a falta de chuva e a seca nos rios e lagoas”, disse a professora da Unemat, defendendo a necessidade de recuperação das cabeceiras dos rios. “O Pantanal é uma grande área de planície úmida que é encharcada pela água dos rios que nascem no Planalto. Mas o desmatamento e outras ações humanos estão afetando a vegetação nas cabeceiras dos rios que precisam ser conservadas”, acrescentou Solange durante a audiência pública.

O pesquisador Claumir César Muniz, também da Unemat, destacou que os números recordes de incêndios e de seca registrados em 2020 representam uma tendência que ameaça a região. “Em 10 anos, o bioma perdeu 16% de sua vegetação. O Pantanal está encolhendo. E tem cada vez mais e mais áreas à mercê do fogo. São queimadas provocadas pelos humanos. Precisamos usar a ciência para conter a devastação e prevenir os incêndios”, destacou o biólogo no debate promovido pela Câmara.

Chefe da Divisão de Previsão do Tempo e Clima do Inpe, a meteorologista Izabelly Carvalho da Costa explicou que o ano de 2020 teve precipitação abaixo da média desde março. “Tivemos um ano muito seco e a previsão é que, pelo menos, nos próximos 10 dias não haja chuva no Pantanal, principalmente no Mato Grosso. A previsão é de muito calor e de umidade muita baixa”, explicou a pesquisadora do Inpe. “A estação chuvosa só deve começar realmente em meados de outubro”, acrescentou, frisando ainda que a previsão para próximo trimestre é de um volume de chuvas novamente abaixo da média na região.

O coordenador substituto do Programa Queimadas destacou o ano de fogo no Pantanal. de janeiro até 30 de setembro, houve aumento de 195% no número de queimadas detectadas no Pantanal comparando com o mesmo período de 2019. “O aumento é de quase 200% e devemos levar em conta que, em 2019, já houve um aumento de mais de 320% em relação a 2018”, afirmou Alberto Setzer. “Em 2020 o número de focos já ultrapassou qualquer outro ano que tínhamos registrado na série histórica, desde 1998”, alertou.

Setzer mostrou mapas com os focos de incêndio no Pantanal no fim de semana. “São centenas de quilômetros de frente de fogo que deveriam ser combatidas. Para isso, hoje, contamos com centenas de brigadistas, heróis na verdade, que estão tentando o possível para controlar isso. Mas nós precisaríamos de milhares – na verdade, dezenas de milhares de pessoas – para conseguir enfrentar o fogo em área tão extensa, com distância de centenas de quilômetros entre os vários locais onde o satélite indica as queimadas”, avaliou o coordenador, voltando a alertar para os próximos dias. “Temos mais de um mês sem chuva, temperaturas na faixa de 40 graus, nenhuma precipitação prevista, umidade relativa abaixo de 25%: qualquer pessoa sabe que, riscou o fósforo, a vegetação vai queimar”, destacou.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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