Quem falhou em prevenir pandemia vai evitar a catástrofe climática?

Fracasso no enfrentamento de um provável novo vírus coloca em xeque a capacidade do paneta prevenir os desastres ambientais com as mudanças no clima

Por José Eduardo Mendonça | ODS 13 • Publicada em 22 de junho de 2020 - 08:30 • Atualizada em 1 de julho de 2020 - 09:54

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Manifestantes de máscara protestam contra degradação ambiental na Alemanha: pandemia com novo vírus era uma probabilidade; catástrofe climática é certa (Foto: Thomas Schwarz/AFP)

Em casa, somos informados sobre mortes e um possível avanço da ciência. Ficamos a uma distância inimaginável do “normal”. Mas, enquanto o vírus leva a ações desorientadas, o mundo está ainda menos preparado para uma força muito maior, e sem saber como responder a ela. A covid-19 revela estudos de caso de gerenciamento de risco – ou, melhor, de fracassos deste gerenciamento, com impacto enorme.

Por muitos anos, uma pandemia mundial capaz de matar milhões e destroçar a economia era um risco previsível. Da mesma forma, a probabilidade de a atmosfera aquecer é de 100%; e as temperaturas já estão um grau acima dois níveis pré-industriais. E são bem compreendidos os devastadores impactos humanos e econômicos de aumento das temperaturas globais.

Mas nosso destino ainda não está selado. Ainda há tempo de aplicarmos as lições que aprendemos para nos prepararmos para uma pandemia global. A ciência por trás da doença pode ser mais poderosas que a política, a religião, comícios políticos e fábricas que fecharam porque cientistas advertiram que fazer o contrário não era seguro. E devemos levar seus alertas a sério.

As transições sociais abruptas e desordenadas são mais devastadoras para populações vulneráveis, amplificando desigualdades e injustiças existentes em todo o mundo. Nos Estados Unidos, está provado que os impactos da pandemia afetam mais mulheres, negros e latinos. Estes sofrem de desemprego relacionado à covid-19 e as empresas dirigidas por estes grupos não têm acesso à ajuda federal. E o mesmo acontece no Brasil, onde um pífio programa de ajuda não chega a milhões de pessoas, ou empresas familiares quebram aos milhares porque o crédito acaba sendo dirigido para os grandes negócios.

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Com o coronavírus, como um dia se lembrará, em meio a um colapso econômico sem precedentes, as emissões de gases de efeito estufa terão sido 7% menores. Isto ainda está abaixo da taxa de redução de 7.5 % ao ano, requerida para limitar o aquecimento de 1.5 graus centígrados, combinado como meta pelo Acordo de Paris.

Com todas as dificuldades que a incerteza econômica criou para milhões de pessoas, houve esperança que estaria se abrindo um território para a melhora do meio ambiente. As cidades passariam por reformulação favorecendo transporte de baixo carbono, e os governos favoreceriam programas de auxílio para o incentivo a programas de estímulo a projetos ambientais. Mas o quadro real é muto mais complexo, e os efeitos podem evaporar rapidamente.

Cientistas alertam que o impacto do coronavírus será igual para as comunidades mais pobres, como acontece com a mudança do clima. Isto reduziria a redução de iniciativas ambientais, com governos e corporações tentando preencher os buracos causados em seus orçamentos e a queda nas receitas familiares.  O coronavirus tirará o foco dos investimentos contra a mudança do clima, colocando a questão de molho, diz o relatório Top Risk, da consultoria de risco Eurasia.

Há alguns precedente quando se trata de gastos corporativos. Pesquisadores que examinaram as iniciativas ambientais durante a recessão de 2017/2019, descobriram que empresas cortam seus orçamentos verdes, mas isso não é consistente. Aquelas que não colocaram a sustentabilidade em seus modelos de negócio tendem a tratá-los como filantropia. Já as companhias como a fabricante de veículos elétricos Tesla, ou a Patagonia, que construiu uma reputação ética no mercado de roupas e acessórios, provavelmente continuarão a fazer qualquer investimento ambiental que já fazem, por que isto é central a seus negócios.

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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