O aquecimento global vai te deixar burro

Em Kabul, no Afeganistão, pessoas andam no meio do nevoeiro provocado por poluição: emissões de gases podem causar declínio cognitivo, segundo estudo (Shah Marai/AFP)

Estudo aponta que concentrações elevadas de gás carbônico no ar previstas para este século prejudicam a cognição

Por Observatório do Clima | ODS 13 • Publicada em 26 de abril de 2020 - 09:16 • Atualizada em 1 de maio de 2020 - 15:09

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Em Kabul, no Afeganistão, pessoas andam no meio do nevoeiro provocado por poluição: emissões de gases podem causar declínio cognitivo, segundo estudo (Shah Marai/AFP)

Claudio Angelo*

As concentrações elevadas de gás carbônico na atmosfera poderão causar declínios cognitivos importantes nos seres humanos caso nada seja feito para cortar emissões. A análise é de um trio de pesquisadores americanos e é um dos primeiros estudos a apontar um efeito direto dos gases de efeito estufa sobre a saúde.

O grupo liderado por Kristopher Karnauskas, da Universidade do Colorado em Boulder, afirma que, no pior cenário de emissões, os níveis de CO2 na atmosfera estarão tão altos no final do século que a capacidade das pessoas de desenvolver raciocínios simples para tomada de decisões pode cair 25%. Para raciocínios complexos, que envolvam estratégia, o declínio é ainda mais acentuado: 50%.

O estudo, publicado no periódico GeoHealth, lembra que em toda a história do Homo sapiens as concentrações de CO2 no ar jamais alcançaram valores sequer próximos dos que existem hoje. Nossa espécie tem cerca de 300 mil anos de existência e, segundo registros paleoantropológicos, passou por uma explosão cognitiva cerca de 100 mil anos atrás. Em todo esse período, as concentrações de gás carbônico na atmosfera jamais ultrapassaram 300 partes por milhão (ou seja, 300 moléculas de CO2 por milhão de moléculas de ar).

Desde a Revolução Industrial, as concentrações de CO2 na atmosfera ultrapassaram 411 partes por milhão. Hoje elas estão ao redor de 415 ppm – em áreas urbanas ela chega perto das 500 ppm. É a maior concentração em pelo menos 800 mil anos e, provavelmente, em 3,5 milhões de anos.

A redução na função cognitiva é um dos impactos ocultos da mudança climática, na qual o aquecimento não é apenas um intermediário; e ela se manifestará especialmente em salas de aula, escritórios, hospitais e no setor de transportes

Kristopher Karnauskas Shelly Miller e Anna Schapiro
Pesquisadores da Universidade do Colorado

O CO2 é tóxico para seres humanos. Em concentrações altas, causa asfixia e morte, mas também tem efeitos nocivos sobre o cérebro em concentrações menores. O gás atravessa a barreira sangue-cérebro e causa perda de oxigênio nos neurônios. Isso causa tontura, sonolência, confusão mental, ansiedade e declínio da percepção visual.

Karnauskas e suas colegas Shelly Miller e Anna Shapiro fizeram uma revisão extensa da literatura existente sobre efeitos do CO2 na saúde e encontraram vários estudos mostrando que, em ambientes fechados, como escolas e escritórios, as concentrações e CO2 chegam a ficar 400 ppm mais altas do que em lugares abertos. Vários trabalhos realizados desde a década de 1990 mostraram que essa overdose de gás carbônico por longos períodos tem impactos significativos na concentração, na capacidade de tomada de decisão e na habilidade de pensar estrategicamente – que envolve analisar diversas consequências de longo prazo possíveis de uma determinada ação.

Os declínios mais significativos foram notados com concentrações mais altas – de 945 a 1.400 ppm. Coincidentemente, afirmam os pesquisadores, 930 ppm é o que os modelos do IPCC (o painel do clima da ONU) estimam que será a concentração de CO2 no planeta inteiro em ambientes abertos no fim deste século caso nada seja feito para reduzir emissões.

O melhor jeito de evitar que os níveis de CO2 em ambientes fechados atinjam patamares prejudiciais à cognição humana é reduzindo emissões de gases de efeito estufa

Kristopher Karnauskas Shelly LMiller Anna Schapiro
Pesquisadores da Universidade do Colorado

O grupo então modelou o que aconteceria em ambientes fechados em vários cenários de emissão, com base nas concentrações futuras de ambientes abertos. O declínio da capacidade de decisão é linear com o aumento do CO2 , ou seja, a queda é gradativa. Mas o do pensamento estratégico se mostrou não-linear. Daí a primeira cair 25% no pior cenário, mas o segundo despencar pela metade. O efeito quase some em concentrações compatíveis com o cumprimento do Acordo de Paris.

“Assim como a acidificação do oceano, a redução na função cognitiva é um dos impactos ocultos da mudança climática, na qual o aquecimento não é apenas um intermediário, e ela se manifestará especialmente em salas de aula, escritórios, hospitais e no setor de transportes”, escrevem Karnauskas e colegas.

Mas atenção: isso não significa que a humanidade inteira ficará com o QI dos discípulos do Olavo de Carvalho. Os autores reconhecem que em alguma medida os humanos são capazes de se adaptar. Comandantes de submarinos, por exemplo, passam grandes períodos sob concentrações elevadíssimas de CO2 e mantêm o foco. E a elevação nos níveis desse gás na atmosfera até hoje já teria bastado para produzir declínios de 8% a 13% na cognição humana, mas a tendência verificada desde o século passado é de aumento no QI, devido a fatores como nutrição e aumento do acesso à educação.

O que ocorrerá quando 10 bilhões de pessoas passarem 365 dias por ano expostas a alto CO2 , porém, é algo que demanda – urgentemente – investigação. “O melhor jeito de evitar que os níveis de CO2 em ambientes fechados atinjam patamares prejudiciais à cognição humana é reduzindo emissões de gases de efeito estufa”, escrevem os autores.

Observatório do Clima

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