James Lovelock: ‘A Terra viva se queixa de febre’

James Lovelock: “O bem-estar das massas crescentes de seres humanos exige um planeta sadio”. Foto Jacques Demarthon/AFP

Autor da Teoria de Gaia e um dos cientistas climáticos mais respeitados do planeta, morre aos 103 anos

Por Agostinho Vieira | ODS 13 • Publicada em 28 de julho de 2022 - 12:42 • Atualizada em 19 de agosto de 2022 - 09:09

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James Lovelock: “O bem-estar das massas crescentes de seres humanos exige um planeta sadio”. Foto Jacques Demarthon/AFP

Quando James Lovelock escreveu “A Vingança de Gaia”, em 2005, um dos clássicos da ciência climática, o mundo assistia estarrecido à tragédia do furacão Katrina, que deixou mais de 1.800 mortos em cidades americanas como Nova Orleans, Luisiana e Mississipi. Na introdução do livro, ele registrou: “Basta um pequeno movimento do planeta em que vivemos para causar a morte de alguma fração de milhão de pessoas. Mas isso não é nada comparado com o que poderá advir em breve: estamos abusando tanto da Terra que ele poderá se insurgir e retornar ao estado quente de 55 milhões de anos atrás, e se isso acontecer, a maioria de nós e nossos descendentes morreremos”

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Lovelock faleceu nesta terça-feira, dia 26 de julho, em sua casa em Devon, na Inglaterra, a mesma onde escreveu centenas de artigos e livros sobre a famosa Teoria de Gaia. Em um comunicado oficial, a família afirmou que: “nosso amado James Lovelock morreu cercado por sua família em seu 103º aniversário. Para o mundo ele era mais conhecido como um pioneiro científico, profeta climático e idealizador da Teoria de Gaia. Para nós, ele era um marido amoroso e um pai maravilhoso, com um senso de curiosidade sem limites, um senso de humor travesso e uma paixão pela natureza”.

Um dos cientistas mais respeitados da história, Lovelock postulou a hipótese de Gaia, que afirma que a Terra é uma comunidade única, formada por organismos que se completam e interagem uns com os outros. Um lugar onde todas as reações físicas, químicas e biológicas estão interligadas e não podem ser analisadas separadamente. Ele passou a vida defendendo medidas contra a crise climática, tendo iniciado sua saga décadas antes de muitos outros se preocuparem com o problema. Sua Teoria de Gaia chegou a ser ridicularizada por alguns, até se transformar em uma das bases da ciência climática.

Lovelock sempre argumentou apaixonada e poeticamente que, embora o aquecimento global seja inevitável, não é tarde demais para salvar pelo menos parte da civilização humana. Em sua obra, baseada em uma abordagem fisiológica da ciência da Terra, o cientista oferece uma explicação real, concreta. Ele analisa nossa necessidade de energia e quais poderiam ser suas fontes. Defendeu firmemente a energia nuclear como saída para a crise climática e chegou a oferecer o quintal de sua casa para que se enterrasse parte dos resíduos nucleares:

“A energia nuclear não é a única saída, mas não podemos ignorá-la. A energia nuclear é uma forma boa, limpa e segura de se gerar energia, e pode ser usada em larga escala. A energia na França é gerada quase que totalmente de fontes nucleares. A Finlândia está caminhando na mesma direção. Quase metade da energia da Suécia já é nuclear. Não há nada de errado com isso. Houve um acidente nuclear grave na Rússia, mas houve muitos acidentes graves na Rússia durante o período soviético”, disse, em 2004, em entrevista à BBC Brasil.

Jonathan Watts, editor de meio ambiente do The Guardian, que está trabalhando em uma biografia sobre o cientista afirmou: “a notícia é extremamente triste, mas que vida e que legado. Até muito recentemente, ele gozava de boa saúde e tinha uma memória notável de acontecimentos ocorridos há quase um século. Ele era inteligente, engraçado e feliz em compartilhar detalhes íntimos de sua vida extraordinária. Sua Teoria de Gaia, concebida com a consultora do Pentágono Dian Hitchcock e aperfeiçoada em colaboração com a bióloga norte-americana Lynn Margulis, lançou as bases para a ciência do sistema terrestre e uma nova compreensão da interação entre vida, nuvens, rochas e atmosfera. Ele também alertou, em termos mais claros do que qualquer um de seus pares, sobre os perigos que a humanidade representava para a extraordinária rede de relações que tornam a Terra exclusivamente viva em nosso universo”.

Lovelock também era um crítico mordaz do consumismo e das suas consequências para a vida no planeta. Citando Paul e Anne Ehrlich, ele escreveu em um de seus livros: “O sistema ambiental da Terra entraria em colapso se tentássemos proporcionar um estilo de vida europeu a todos os seres humanos atualmente vivos. Achar que tal aumento dos padrões de vida é possível para uma população mundial duas vezes maior que a atual, no início do próximo século, é absurdo”.

Além da esposa Sandra e dos filhos Christine, Jane, Andrew e John, James Lovelock deixa um enorme legado de conhecimento e dedicação à ciência: “Falo como um médico planetário cujo paciente, a Terra viva, se queixa de febre. Vejo o declínio da saúde da Terra como a nossa preocupação mais importante, nossas próprias vidas dependendo de uma Terra sadia. Nossa preocupação com ela deve vir em primeiro lugar, porque o bem-estar das massas crescentes de seres humanos exige um planeta sadio”, explicou no primeiro capítulo de “A Vingança de Gaia”.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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