Terra indígena: amortecedor contra mudança climática

Estudo científico conclui que territórios indígenas e áreas naturais protegidas na Amazônia emitem menos carbono do que regiões desprotegidas

Por Liana Melo | ods13 • Publicada em 7 de fevereiro de 2020 - 08:00 • Atualizada em 12 de março de 2020 - 10:48

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Área de desmatamento na Amazônia é interrompida às margens de uma reserva indígena no Pará. Foto Yasuyoshi Chiba/AFP

Pouco mais da metade do estoque de carbono da Amazônia está concentrado nas Terras Indígenas (TIs) e nas áreas naturais protegidas (ANPs). Dos 73 bilhões de toneladas de carbono estocado na região, 41,1 bilhões, ou 58% do total, estão nestas duas áreas. A conclusão é de um estudo científico inédito que comprovou que os povos indígenas são os verdadeiros guardiões da floresta. Publicado na última edição da revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences — publicação mensal da Academia de Ciência dos Estados Unidos,  o artigo defende maior apoio no resguardo dessas áreas, especialmente porque funcionam como verdadeiros amortecedores contra as mudanças climáticas.

Combinando imagens de satélites com dados de campo, os pesquisadores concluíram que as TIs e as ANPs  na Amazônia são menos propensas à perda de carbono por degradação do que regiões desprotegidas. É que a liberação de carbono resultante de degradação em TIs e ANPs é, em grande parte, compensada pelo crescimento da vegetação florestal – algo que não se verifica em terras sem proteção. Foram estudadas quatro diferentes áreas na Amazônia: quatro categorias de terras na Amazônia: TIs, ANPs, outras terras (sem proteção) e sobreposições entre TIs e ANPs.

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Intitulado “Terras Indígenas são as mais eficazes para manutenção dos estoques de carbono”, o levantamento foi feito por um conjunto de instituições: Woods Hole Research Center (WHRC, na sigla em inglês), Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Fundo de Defesa Ambiental (EDF) e Rede Amazônica de Informação Socioambiental (Raisg), que é um consórcio de oito ONGs da região Pan-Amazônia incluindo Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

Com base nas descobertas feitas pelos autores do estudo, eles alertarem para a importância dos direitos dos povos indígenas, cujas terras cobrem 30% da Amazônia e são responsáveis por estocar 34% de seu carbono. O levantamento foi feito no período entre 2003 e 2016.

Nosso trabalho mostra que as florestas sob a administração de povos indígenas e comunidades locais continuam a ter melhores resultados de carbono do que as terras sem proteção, o que significa que seu papel deve ser fortalecido para que os países da Bacia Amazônica consigam manter esse recurso globalmente importante, ao mesmo tempo em que cumprem seus compromissos sob o Acordo Climático de Paris

Wayne Walker
cientista do Woods Hole Research Center

“Nosso trabalho mostra que as florestas sob a administração de povos indígenas e comunidades locais continuam a ter melhores resultados de carbono do que as terras sem proteção, o que significa que seu papel deve ser fortalecido para que os países da bacia amazônica consigam manter esse recurso globalmente importante, ao mesmo tempo em que cumprem seus compromissos sob o Acordo Climático de Paris ”, avalia Wayne Walker, autor principal do estudo e cientista do Woods Hole Research Center (WHRC).

Apesar do alerta feito pelos cientistas, o desmatamento na Amazônia bateu recorde no ano passado. Foram destruídos 9.762 quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019, um aumento de 29,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O aumento do desmatamento está prejudicando um dos principais serviços ambientais prestados pela própria floresta, que é justamente o de estocar carbono.

o aumento do desmatamento no entorno das TIs e das ANPs está estressando a resiliência dessas áreas na Amazônia

Márcia Macedo
pesquisadora do WHRC e do Ipam

A pesquisadora Márcia Macedo, que é simultaneamente do WHRC e do Ipam, está convencida de que “o aumento do desmatamento no entorno das TIs e das ANPs está estressando a resiliência dessas áreas na Amazônia”.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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