Crise climática causa 37% das mortes por calor no mundo

Onda de calor em São Paulo no ano passado: estudo aponta 239 relacionadas ao calor na capital paulista (Foto: Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas)

Estudo na Nature revela impacto do aquecimento global em 732 cidades: São Paulo está no topo do ranking com 239 óbitos anuais

Por Climate News Network | ODS 13 • Publicada em 1 de junho de 2021 - 09:33 • Atualizada em 8 de junho de 2021 - 08:43

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Onda de calor em São Paulo no ano passado: estudo aponta 239 relacionadas ao calor na capital paulista (Foto: Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas)

(Tim Hardford*) – Conforme as temperaturas aumentam, também aumenta o número de pessoas morrendo de insolação e outras condições de saúde relacionadas ao calor. E agora os cientista conseguem separar o perigo extra gerado pelo aquecimento global: uma em cada três mortes relacionadas ao calor no planeta agora ocorre por causa do uso perdulário de combustíveis fósseis no último século, de acordo com estudo publicado na revista Nature Climate Change.

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Dezenas de pesquisadores que analisaram as mortes por calor em 732 cidades ao redor do mundo de 1991 a 2018 calcularam que 37% foram causadas por altas temperaturas do aquecimento causado pelo homem. Os maiores percentuais de mortes por calor causadas pela mudança do clima aconteceram em cidades da América do Sul. São Paulo aparece no topo da lista, com uma média de 239 mortes por ano que podem ser atribuídas ao calor decorrente do aquecimento global.

Esperamos que a proporção de mortes relacionadas ao calor continue a crescer se não fizermos algo sobre as mudanças climáticas ou nos adaptarmos

Ana Vicedo-Cabrera
Epidemiologista da Universidade de Berna

O estresse adicional do calor causado inteiramente pela ação humana agora ceifa 172 vidas em Roma todos os anos; 189 em Atenas, 177 em Madrid e até 82 londrinos. Do outro lado do Atlântico, o gás de efeito estufa extra mata 141 nova-iorquinos anualmente e 136 em Santiago, Chile. Em Bangkok, 146 morrem por causa do estresse térmico antropogênico; em Tóquio, 156, na cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã, são 137.

O calor extremo mata: pode fazê-lo de pelo menos 27 maneiras diferentes. Ondas de calor extremo são um perigo no verão, mesmo em zonas de clima temperado. As médias anuais podem sugerir condições agradavelmente quentes, mas esse não é um guia confiável: os verões sempre chegaram com o risco de um calor às vezes mortal.

Mas todas as evidências das últimas décadas sugerem que as temperaturas médias globais aumentaram pelo menos um grau Celsius nos últimos cem anos. E com esse aumento de temperatura, também aumentou o risco de extremos de calor mais prolongados, mais intensos e mais frequentes.

O consórcio internacional de 68 pesquisadores relata na Nature Climate Change que leituras diárias de temperatura e tabelas de mortalidade de 732 cidades em 43 países revelaram o que os níveis crescentes de mercúrio impulsionados pela atividade humana até agora poderiam fazer pela mortalidade e morbidade associadas ao calor.

Mortes por calor podem estar subestimadas

As descobertas são provavelmente conservadoras: algumas regiões tropicais com o maior risco de calor extremo e taxas muito altas de crescimento populacional foram excluídas porque os números diários de mortalidade não estavam disponíveis.

Não surpreendentemente, a proporção de mortes por extremos de calor atribuíveis às mudanças climáticas variou: de 20% a mais de 75%, resultando em uma média de 37%, ou uma morte em três, entre 1991 e 2018. Ou seja, a mudança climática já está silenciosamente ceifando vidas.

As mudanças climáticas não terão apenas impactos devastadores no futuro, mas todos os continentes já estão experimentando as terríveis consequências das atividades humanas no planeta

Antonio Gasparrini
Epidemiologisa da London School of Hygiene and Tropical Medicine

O estudo não é o primeiro a tentar quantificar o custo extra do aquecimento global gerado pelo uso de combustível fóssil. Eventos extremos acontecem de qualquer maneira: a mudança climática tende a torná-los mais extremos e, em maio, os pesquisadores tentaram estimar as vidas extras perdidas e as casas adicionais inundadas durante uma terrível tempestade que se tornou ainda mais terrível pelo aumento do nível do mar causado por humanos.

Há agora claras evidências que sugere que extremos de calor mais frequentes e devastadores estão a caminho. “Esperamos que a proporção de mortes relacionadas ao calor continue a crescer se não fizermos algo sobre as mudanças climáticas ou nos adaptarmos”, disse Ana M. Vicedo-Cabrera, da Universidade de Berna, na Suíça, primeira autora do artigo.

A epidemiologista, chefe do grupo de pesquisa sobre mudanças climáticas e saúde do Instituto de Medicina Social da universidade suíça, alertou para os impactos crescentes. “Até agora, a temperatura média global aumentou apenas cerca de 1 ° C, o que é uma fração do que poderíamos enfrentar se as emissões continuassem a crescer sem controle”, destacou. “São mortes relacionadas ao calor que realmente podem ser evitadas. É algo que causamos diretamente ”, acrescentou Vicedo-Cabrera.

Coautor do artigo na Nature, o bioestatístico e epidemiologista Antonio Gasparrini, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, reforçou o alerta: “A mensagem é clara: as mudanças climáticas não terão apenas impactos devastadores no futuro, mas todos os continentes já estão experimentando as terríveis consequências das atividades humanas no planeta. Devemos agir agora”.

*Tim Hadford, jornalista, é editor e fundador da Climate News Network (Rede de Notícias do Clima)

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