ODS 1
Crise climática: 20 mortos e 7 mil imóveis destruídos em incêndios florestais no Chile


Altas temperaturas, baixa umidade, ventos fortes e seca prolongada criaram condições ideais para rápida propagação do fogo no país


Os incêndios florestais, iniciados sábado no Chile durante intensa onda de calor, mataram pelo menos 20 pessoas, provocaram a evacuação de 50 mil pessoas e destruíram mais de 7 mil imóveis nas regiões de Ñuble e Biobío, no centro-sul do país. No fim da noite de terça-feira (20/01), de acordo com dados oficiais do governo cbileno, ainda havia 30 focos de incêndio ativos, com as queimadas avançando também para a região de La Araucanía, O’Higgins e Maule. Cerca de 50 mil pessoas foram evacuadas na região; muitas ainda estão desabrigadas.
Os incêndios florestais tornaram-se um risco recorrente no Chile, com temporadas marcadas por tragédias causadas pelo fogo em eventos climáticos extremos em 2017, 2023 e 2024. “Altas temperaturas, baixa umidade, ventos fortes e seca prolongada criam condições ideais para o início e a rápida propagação de incêndios”, apontou Gabriela Azócar de la Cruz, pesquisadora do Centro de Estudos sobre Clima e Resiliência, da Universidade do Chile, e doutora em Sociologia.
Lirquén, vila costeira com 20 mil habitantes, na Região do Biobío, foi a mais atingida pelos incêndios florestais. Cerca de 80% da área urbana foi afetada, com destruição de bairros inteiros e a interrupção de serviços básicos. Lirquén está localizada numa área densamente povoada, que se estende do litoral em direção a encostas e zonas de interface florestal: com essa geografia, a onda de calor, a seca prolongada e o vento intenso favoreceram o rápido avanço das chamas na mata em direção às áreas habitadas, forçando a evacuação em massa ainda no sábado (17/01).
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Veja o que já enviamosNo domingo (18/01), o governo do Chile declarou estado de emergência nas regiões de Ñuble e Biobío O governador de Biobío, Sergio Giacaman disse que a região enfrentava “uma catástrofe pior, na minha opinião, do que a que vivenciamos em 2010”, quando um terremoto de magnitude 8,8 na escala Richter teve epicentro na costa do Chile, próximo exatamente às regiões de Biobío e Ñuble. “O fogo não tem piedade de ninguém, destrói tudo, e as imagens são realmente dramáticas”, lamentou o governador.
O Chile mantém ampla mobilização de brigadas florestais, bombeiros, policiais, e também apoio das Forças Armadas, especialmente nas regiões onde o alerta vermelho está em vigor. Duas pessoas já foram presas por suspeita de terem iniciados incêndios na mata e foram encontradas também garrafas com vestígios de material inflamável.
Ondas de calor e secas prolongadas
De acordo com os dados do Centro de Estudos sobre Clima e Resiliência, no Chile, mais de 93% dos incêndios estão diretamente ligados à atividade humana. Desse percentual, 55% são causados por negligência e 38% são intencionais. Outra estatística importante indica que as zonas de interface urbano-florestal estão cada vez mais afetadas: mais de 60% dos incêndios têm origem em áreas onde a vegetação e as áreas urbanas se encontram.
A pesquisadora Gabriela Azócar explicou que o aumento dos incêndios florestais — especialmente os de natureza devastadora — está diretamente relacionado às mudanças climáticas, que vêm provocando aumento da temperatura, perto e até acima dos 40 graus e secas mais intensas e prolongadas. Embora algumas áreas tenham experimentado períodos mais chuvosos nos últimos anos, a pesquisadora chilena alertou que isso não reverte os efeitos de uma seca prolongada; pelo contrário, chuvas intensas ou fora de época promovem o crescimento da vegetação, que então seca com o calor, tornando-se altamente inflamável durante o verão.
Outro fator crucial é a expansão das zonas de interface urbano-rural, espaços intermediários entre áreas silvestres e urbanas onde residências, assentamentos e atividades humanas coexistem com florestas e plantações. “Essas são as áreas mais expostas porque estão cercadas por material combustível e, além disso, concentram a atividade humana, o que aumenta o risco de incêndios causados por negligência ou incêndio criminoso”, acrescentou a pesquisadora.
Especialistas apontam que, após os mega incêndios de 2017, o Chile avançou no seu programa de proteção, inclusive a Rede Comunitária de Prevenção, com o apoio de empresas florestais. Hoje, existem mais de 300 comunidades locais trabalhando juntas para se preparar e prevenir incêndios. Apesar dos avanços institucionais na gestão de riscos de desastres, Azócar identifica uma fragilidade persistente: o fluxo de informação e a coordenação entre autoridades e cidadãos. Em sua opinião, a política atual é adequada em sua concepção, mas sua implementação ainda é desigual. “Ainda há falta de coordenação e aprendizagem”, afirmou
A pesquisadora enfatizou que uma das principais lacunas reside nos protocolos de evacuação para incêndios florestais. “Os planos de evacuação para incêndios são genéricos e deixam muitas decisões a serem tomadas durante a emergência. Soma-se a isso a fragilidade dos sistemas de comunicação. O colapso das redes móveis ou a destruição de antenas podem deixar comunidades inteiras sem acesso à informação”, frisou.
Gabriela Azócar alertou ainda que experiência recente demonstra que os incêndios florestais no Chile deixaram de ser eventos excepcionais. Em um contexto de mudanças climáticas, reduzir seu impacto exige não apenas mais recursos para o combate a incêndios, mas também melhor informação, coordenação e conscientização institucional e cidadã. Sem esses elementos, destacou a especialista, a vulnerabilidade ao fogo continuará aumentando.
Incêndios florestais na Patagônia argentina
Os últimos dias de dezembro e os primeiros dias do ano também foram marcados por incêndios florestais na Patagônia Argentina que devastaram mais de 8 mil hectares de florestas, pastagens, plantações e casas na região, inclusive dentro de Parques Nacionais: pelo menos 700 pessoas tiveram que ser evacuadas. Em janeiro 2025, quase 32 mil hectares de floresta foram perdidos, no pior incêndio florestal andino-patagônico da região nas últimas três décadas. incêndio que começou na segunda-feira em Puerto Patriada, El Hoyo, Chubut, que permanece ativo.
Desde dezembro, os principais incêndios nas florestas andinas da Patagônia argentina ocorreram na província de Chubut, especificamente em El Turbio (3 mil hectares); Cholila, Villa Lago Rivadavia (150 hectares); Epuyén, Cerro Pirque (400 hectares); e no Parque Nacional Los Glaciares, região de Cerro Huemul, província de Santa Cruz (cerca de 600 hectares), de acordo com levantamento do Greenpeace Argentina.
A organização alerta que as altas temperaturas, cada vez mais altas a cada verão, as secas extremas, as plantações de espécies exóticas e outros fatores, muitos deles consequência da crise climática, criam o ambiente perfeito para incêndios cada vez mais frequentes e devastadores.
Em outras palavras, a crise climática já se manifesta à medida que as chamas avançam, e os recursos para prevenir e combater os incêndios permanecem insuficientes. “A crise climática exige preparação para um aumento dos incêndios, e os líderes políticos precisam parar de negar ou subestimar essa situação”, afirmou Hernán Giardini, coordenador da campanha Florestas do Greenpeace Argentina. “É necessário muito mais prevenção, bombeiros e aviões-tanque, tanto em nível nacional quanto provincial, para garantir uma resposta rápida aos múltiplos incêndios que posteriormente se tornam incontroláveis”.
A organização lembra que, de acordo com funcionários da Administração de Parques Nacionais, suas brigadas contam com apenas 400 bombeiros, quando o mínimo deveria ser 700, para cobrir os 5 milhões de hectares sob sua jurisdição e para poder auxiliar as províncias, quando solicitadas, por meio do Sistema Nacional de Gestão de Incêndios.
“A Argentina está entre os 15 países com as maiores taxas de desmatamento do mundo, e o governo nacional reduziu os orçamentos da Lei Florestal e do Fundo Nacional de Gestão de Incêndios, o que diminui a capacidade das províncias de controlar a extração ilegal de madeira e os incêndios. Além disso, é evidente que devemos avançar na aplicação de penalidades à destruição das florestas”, afirmou Giardini.
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Oscar Valporto
Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade







































