Consumidor precisa ser protagonista no combate ao aquecimento global

Aparelhos de ar condicionado em prédio de São Paulo: busca por eficiência energética é fundamental. Foto de Rafael de Nadai/Unsplash

Campanha alerta para importância da escolha dos equipamentos de ar condicionado com maior eficiência energética, para ajudar o planeta

Por Rodolfo Gomes | ODS 13ODS 7 • Publicada em 13 de janeiro de 2021 - 09:01 • Atualizada em 3 de fevereiro de 2021 - 09:37

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Aparelhos de ar condicionado em prédio de São Paulo: busca por eficiência energética é fundamental. Foto de Rafael de Nadai/Unsplash

O Brasil tem hoje 28 milhões de aparelhos de ar condicionado, que promovem bem-estar, mas geram grande impacto ambiental, contribuindo para o aquecimento global. De acordo com o relatório Estado do Clima 2019, elaborado por cientistas do mundo inteiro, a última década foi a mais quente da história e 2019 esteve entre os três mais tórridos desde o século 19. Para enfrentar as altas temperaturas, cada vez mais eletrodomésticos de refrigeração são comprados como item de necessidade básica: a estimativa fala num crescimento anual de 10%.

Esse círculo vicioso tende a se agravar ainda mais neste verão do home-office. Diante da adoção por parte da população do trabalho remoto como estratégia para se proteger da covid-19, mais equipamentos devem ser adquiridos, e eles ficarão ligados por períodos mais longos. Aonde isso pode nos levar? Hoje, o ar condicionado representa 17% da demanda de energia residencial. Se seguirmos nesse ritmo, a consequência óbvia é a necessidade de construir mais usinas de geração de eletricidade.

Existe saída sem precisar abrir mão da climatização. A Rede Kigali, iniciativa que reúne entidades e instituições de pesquisa, está lançando a campanha “Se liga na conta do ar-condicionado: melhor para o seu bolso, melhor para o planeta”. O objetivo é conscientizar os consumidores sobre os benefícios de aparelhos com maior eficiência energética, orientando-os para a melhor escolha e sobre instalação e uso adequados dos equipamentos. As principais dicas passam pela opção por aparelhos do tipo inverter – que consomem até 60% a menos de energia em relação aos aparelhos convencionais – e que tragam a etiqueta com a classificação A do Inmetro.

Cálculos do International Energy Initiative – IEI Brasil indicam que a diferença no preço do equipamento mais eficiente se paga em um intervalo de cinco a oito meses, dependendo do cenário, com a economia nas contas de luz. O resto é lucro do consumidor. As mesmas contas atestam que as economias na fatura de eletricidade chegam a ser suficientes para viabilizar a compra de outro aparelho em dez anos. Dinheiro que seria perdido se o consumidor optar por equipamento menos eficiente.

Os benefícios são claros para o meio ambiente. Se forem usados no Brasil aparelhos com 30% a mais de eficiência energética do que os atuais, em 2030 passaria ser desnecessário o acionamento de 32 GW de demanda nos horários de pico, o que equivaleria a 52 usinas térmicas de porte médio deixariam de funcionar. Assim, seriam reduzidas as emissões de gases do efeito estufa provenientes da queima dos combustíveis que provocam o aquecimento global em 23% – menos 16,79 milhões de toneladas de CO² na atmosfera.

O esforço mundial de redução dos impactos ambientais de aparelhos de ar condicionado tem, como capítulo mais recente, em outubro de 2016, reunião em Kigali, capital de Ruanda. Nela, os signatários do Protocolo de Montreal aprovaram emenda com um cronograma de redução gradual no consumo dos hidrofluorcarbonetos (HFCs), fluídos em condicionadores de ar com elevado impacto para o clima. Sua substituição por outros produtos de menor influência no aquecimento global evitaria o aumento de 0,5°C na temperatura média da Terra, valor bastante significativo.

A Emenda de Kigali entrou em vigor em janeiro de 2019 e já conta com cerca de 100 países que a internalizaram em suas legislações. O Brasil assinou o compromisso ainda em 2016, mas o Congresso Nacional precisa aprová-la. Falta apenas o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, pôr em votação, pois há consenso por sua aprovação pelos setores produtivos, de defesa do consumidor e do meio ambiente, academia e partidos políticos.

Governos, indústria e sociedade devem estar juntos nessa luta. Falar sobre a escolha do aparelho de ar condicionado é mais do que se preocupar com o conforto. Envolve meio ambiente, futuro, economia e questões sociais. Mas o consumidor precisa entender que, com seu poder de compra, é o protagonista da mudança.

Rodolfo Gomes

Diretor executivo do International Energy Initiative - IEI Brasil, ONG que atua desde 1992 no Brasil na produção de pesquisas e informações sobre energia. É engenheiro, mestre em Planejamento de Sistemas Energéticos. Atua no terceiro setor, com experiência na área de política energética, fontes renováveis de energia e eficiência energética. Trabalhou como consultor para a Sweco Groner e KanEnergi (Oslo, Noruega), representando o IEI Brasil.

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