Os novos ricos do mundo pós-petróleo

Brasil tem oportunidade histórica para explorar energias renováveis

Por Liana Melo | economia-verde ods13 ods14 • Publicada em 16 de dezembro de 2015 - 07:36 • Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 15:47

Funcionário descansa em planta solar da Norsol em Villaldemiro, na Espanha

O futuro é agora e ele já começou. A data foi sacramentada no último sábado, dia 12, quando, no início da tarde, foi anunciado o Acordo de Paris, na Conferência do Clima, a COP-21. Foi um acordo histórico, mas imperativo que seja cumprido. Ao definir para os próximos anos a meta de deter o aquecimento global a 1,5ºC – objetivo a ser revisitado de cinco em cinco anos, sendo a primeira reunião de avaliação agendada para 2018 –, abriu-se caminho para fechar a torneira das emissões de gases de efeito estufa.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, começou a semana fazendo um apelo a todos os países para que os governos não percam tempo. Comecem já a cumprir os compromissos. Disse que o acordo climático foi uma espécie de “apólice de saúde para o planeta”. Uma cerimônia formal de assinatura ocorrerá nas Nações Unidas no Dia da Terra: 22 de abril.

O tempo da diplomacia é diferente do tempo da realidade, mas, se o acordo não ficar apenas em promessas, uma nova geração de milionários está prestes a nascer. É que o dinheiro deverá mudar de mãos nas próximas décadas. Os que até agora ganhavam com os combustíveis fósseis serão os pobres do futuro. Os que até agora apostavam em fontes de energia limpa deverão ser os ricos do amanhã.

E o Brasil com isso?

O país tem uma oportunidade histórica pela frente, especialmente por já ser o mais renovável do mundo, tanto do ponto de vista elétrico quanto energético. A matriz energética brasileira já é 45% limpa  contra um percentual que não passa de 10% no mundo – o que explica parte do protagonismo do país na conferência. São as hidrelétricas que fazem a diferença.

O Brasil tem mais energia renovável por quilômetro quadrado do que qualquer outro país do mundo, ainda assim foi obrigado a lançar mão, nos últimos anos, de termoelétricas por conta da crise hídrica.  Apesar do baixo investimento em outras fontes limpas e renováveis, como eólica e solar, “temos vantagens competitivas incomparáveis”, comenta o físico Luiz Pinguelli Rosa, da Coppe/UFRJ, e um dos observadores presentes na COP de Paris.

Ainda que nos anos recentes o país tenha apostado no pré-sal como o passaporte para o futuro, a adoção de medidas mais ambiciosas de redução das emissões de gases de efeito estufa poderá contribuir para a economia do país e gerar até R$ 609 bilhões a mais de Produto Interno Bruto (PIB) do que o projetado para o período de 2015 até 2030.

Um dos méritos deste projeto é mostrar que pode haver crescimento no país e aumento do nível de emprego em um cenário de economia verde, com redução da emissão de gases de efeito estufa

Luiz Pinguelli Rosa
membro do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas

O cálculo é de um estudo que o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas apresentou à ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente, às vésperas da COP-21. O documento se chama “Implicações Econômicas e Sociais: Cenários de Mitigação de Gases de Efeito Estufa (IES-Brasil)” e foi coordenado por Pinguelli em parceria com Emilio La Rovere, também da Coppe/UFRJ. O aumento do uso dos biocombustíveis – uma das alternativas para alcançar uma matriz energética limpa – é uma das medidas apresentada no estudo.

O setor empresarial será um aliado fundamental deste esforço concentrado por um mundo descarbonizado. O termo, inclusive, foi banido do Acordo de Paris para evitar rachas e substituído por “emissão negativa” – o que significa não zerar as emissões, mas capturar os gases de efeito estufa a posteriori. A mudança não é mero jogo de palavras.

É que descarbonizar a economia mundial significa tirar poder da toda poderosa Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep ), o que a diretora-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, considera impossível. Ela acredita que o mundo ainda está anos luz de distância da era pós-petróleo e prefere apostar que a COP-21 apontou para uma nova tendência, a da economia de baixo carbono.

Nos próximos cinco anos estão previstos investimentos de US$ 60 bilhões para expandir o parque eólico nacional, que responde hoje por 6% da matriz energética do país. Os bons ventos que sopram por aqui, especialmente no Nordeste brasileiro e, em particular, na região do semiárido, atrai empresas globais do setor e o segundo maior produtor mundial de pás é uma brasileira, a Tecsis.

Quando o assunto é irradiação média, o país também dá um show. A irradiação verde-amarela é o dobro da registrada na Alemanha – país que usa a energia fotovoltaica em grande escala. O diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia, acredita que as decisões da COP-21 serão um combustível a mais para estimular o setor. O potencial brasileiro é tanto que a entidade garantiu um assento entre os 16 membros da recém lançada entidade mundial do setor, a Global Solar Council, durante a COP-21.  

Vento e sol o Brasil tem em quantidades generosas, resta saber aproveitar.

 

 

 

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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