Roberta Medina: ‘O copo plástico é um megacalo no meu pé’

Vice-presidente do Rock in Rio avalia os avanços do festival em termos de Sustentabilidade e afirma que ainda é preciso evoluir

Por Fernanda Baldioti | ods12 ods17 • Publicada em 3 de outubro de 2019 - 10:22 • Atualizada em 4 de outubro de 2019 - 19:48

É com o slogan “Por um mundo melhor” que o Rock in Rio vem, desde 2001, deixando claro que a sustentabilidade é uma questão-chave para a organização do evento. Até porque os números grandiosos de público (700 mil pessoas nesta edição, sendo 450 mil turistas), de estimativa de incremento na economia (R$ 1,7 bilhão), de equipamentos (10 mil toneladas) e de geração de empregos (30 mil empregos) dão uma dimensão do impacto ambiental do festival. Para se ter uma ideia, nos três primeiros dias, a Comlurb recolheu nas áreas interna e externa 149,7 toneladas de lixo (27 toneladas a menos do que o montante aferido no mesmo intervalo em 2017), sendo 57,4 toneladas de orgânicos e 92,3 de recicláveis. Mesmo com ações como a parceria da Heineken com a Natura, que pretende transformar 2,5 milhões de copos em embalagens da marca de beleza, o calo na sola do pé da vice-presidente do Rock in Rio, Roberta Medina, como ela mesma diz, são os plásticos de uso único. Isso porque em termos de emissões, ela tem conseguido bons resultados com estratégias de eficiência energética e compensação de carbono por meio de programas como o Amazonia Live, que já garantiu mais de 73 milhões de árvores para a Amazônia por meio de doações individuais e de parcerias.

Roberta Medina no Rock in Rio (Foto: Divulgação / I Hate Flash)

Apesar de as cenas de montanhas de lixo e do chão muito sujo ao fim dos dias de show ainda serem uma realidade, o público já vem mostrando uma mudança de postura e consciência, como mostra o vídeo acima do #Colabora feito no primeiro dia do festival. Para além do discurso, isso fica evidente no baixo número de infrações aplicadas pelo Programa Lixo Zero, que atuou no entorno do Parque Olímpico e multou apenas 10 pessoas de sexta a domingo, uma por urinar em vias públicas e nove pelo descarte irregular de pequenos resíduos. Na entrevista a seguir, Roberta avalia os avanços do festival em termos de Sustentabilidade e reconhece que ainda é preciso evoluir.

#Colabora: Este ano, pela primeira vez, vocês adotaram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU como diretriz para o plano de Sustentabilidade, tendo propostas para cada uma das 17 metas. É um plano ambicioso, não?

Roberta Medina: A gente já tinha e executava praticamente tudo o que está ali. O que fizemos, após contatos com equipes da ONU, foi alinhar nossos compromissos com os objetivos. Nosso plano de Sustentabilidade vai muito além do Meio Ambiente, como recomenda a ONU. É algo que vem sendo e que continuará sendo aprimorado. Acabamos de renovar nosso ISO 20121 – Eventos Sustentáveis na semana passada, o que mostra que estamos de fato comprometidos e conseguindo reconhecimento nesse sentido.

Se conseguimos na Copa e nas Olimpíadas, por que não no Rock in Rio? É difícil provocar a mudança, mas eu não vou desistir

Roberta Medina
Sobre a implantação de copos retornáveis no Rock in Rio

Uma das metas é sobre reduzir produção de resíduos dentro da Cidade do Rock. Para isso, vocês chegaram a proibir a distribuição de folhetos no evento. Mas a questão dos plásticos de uso único ainda é um dos gargalos?

Roberta Medina: O copo plástico é um megacalo no meu pé. Este ano, demos um passo positivo com a parceria da Heineken com a Natura. Isso me deixou com o coração mais calmo. Há três edições que tentamos implantar o copo reutilizável, mas ou bate na Anvisa ou no operador. Em Lisboa, nós já fizemos e foi muito legal, virou item de colecionador. A primeira compra tinha o valor cheio, mas nas próximas vezes, o consumidor pagava mais barato só pelo líquido mesmo. Aqui no Brasil, isso configura venda casada. Sempre dá uma encrenca no caminho, e eu espero que este ano seja a última vez. Se conseguimos na Copa e nas Olimpíadas, por que não no Rock in Rio? É difícil provocar a mudança, mas eu não vou desistir.

Casal se beija sob a chuva no primeiro dia de festival (Foto: Daniel Ramalho / AFP)

Nos bares, mesmo as pessoas que apresentavam seus próprios copos eram obrigadas a levar o plástico, gerando um lixo desnecessário. Isso é algo a ser ajustado para a próxima edição? 

Roberta Medina: O copo é a minha psicose. Faz sentido as pessoas levarem os próprios copos porque temos bebedouros disponíveis. Mas para a compra de bebidas não funciona porque cada recipiente comporta uma quantidade de ml, o que fica complicado para o operador. Entendo que o copo padronizado fornecido pelo festival faça mais sentido. Para além dessa questão, este ano nos deparamos com outro problema que são as capas de chuva. Ainda não tivemos uma ideia do que fazer com aquilo.

Mas temos buscado incentivar o consumidor a cuidar melhor do seu resíduo aqui dentro. E temos avançado de 2013 para cá quanto a lixo no chão. Já notamos que mudou o comportamento. É claro que ainda tem, e muito, mas avançamos. A próxima etapa é conseguir um resultado melhor quanto à separação do orgânico do reciclável. Até eu me pego com dúvida diante de um papel sujo de comida onde devo jogar. Falta ser trabalhada essa cultura e essa informação aqui no Brasil, como é na Europa.

A Comlurb disponibilizou 1.143 garis e 158 agentes de limpeza urbana para executar os serviços de varrição e limpeza das áreas de circulação do público no Rock in Rio 2019 (Foto: AFP)

#Colabora: Como é feita a separação do lixo do festival? Quantos % é reciclado?

Roberta Medina: Conseguimos que 100% dos resíduos gerados sejam reciclados ou valorizados. Mesmo o orgânico é transformado em adubo para as florestas. E logo que acaba o evento, no primeiro dia de desmontagem, temos uma lista de ONGs e empresas que se candidatam para recolher lonas, madeiras e outros materiais. Em Portugal, as equipes do festival Boom são as primeiras a entrarem. Elas constroem boa parte do evento delas com isso. Aqui no Brasil, temos uma parceria com a Comlurb, que faz a nossa operação de limpeza e depois leva tudo para uma unidade de reciclagem. São eles que fazem a gestão. E as cooperativas ficam com todo o recurso obtido com a venda do material.

Algumas empresas precisam querer e criar condições para mudar a logística da cadeia de produtos

Roberta Medina
Sobre a implantação de práticas mais sustentáveis

#Colabora: E vocês têm uma estimativa de quanto os cooperados conseguem ganhar com a venda deste material?

Roberta Medina: A partir da quantidade e da qualidade do material encaminhado às cooperativas, a expectativa é que cada cooperado ganhe em torno de R$ 800 só nesse primeiro fim de semana. Vale ressaltar que esse valor corresponde, em média, ao que cada uma consegue lucrar em um mês. São, aproximadamente, 80 cooperados.

#Colabora: O relatório de vocês diz que em Lisboa e Las Vegas são feitas doação de sobras alimentares que cumprem com os critérios de qualidade. Há planos de implementar isso aqui?

Roberta Medina: A legislação não permite, tem uma questão com a Vigilância Sanitária, o que é uma pena porque é comida impecável, própria para o consumo. Mas, infelizmente, nosso país tem tantas diferenças sociais que eu duvido que as sobras vão para o lixo. Acredito que as próprias equipes acabem distribuindo entre si o que eventualmente não é vendido.

As marcas estão mais conscientes da Sustentabilidade na elaboração de suas ações para o festival? Você percebe isso?

Roberta Medina: Agora, a gente já consegue perceber isso. Desde que adotamos o slogan “Por um mundo melhor”,  em 2001, percebemos que o maior impacto vinha da operação de fornecedores e patrocinadores. Então, em 2008, criamos um prêmio interno “Rock in Rio Atitude Sustentável” para estimular boas práticas e já premiamos mais de 30 parceiros, entre patrocinadores e fornecedores. Logo que lançamos o prêmio em Portugal, a empresa que ganhou, por exemplo, conseguiu otimizar a organização dos caminhões e reduzir a frota que levava material para o festival. Hoje já é mais fácil, mas ainda temos enormes desafios porque algumas empresas precisam querer e criar condições para mudar a logística da cadeia de produtos. Para além de ações de Meio Ambiente, a gente também valoriza as marcas que levantem conversas relevantes, como este ano tivemos Doritos e Itaú abordando a questão da Diversidade.

E o público? Vocês percebem alguma mudança de postura neste sentido?

Roberta Medina: Esse movimento das marcas não é à toa. Temos uma geração de novos consumidores para os quais os valores das companhias passam a ter uma relevância maior. Nesses anos todos, eu falava de “Mundo melhor” e me sentia uma chata.

Compartilhe

Fernanda Baldioti

Jornalista, com mestrado em Comunicação pela Uerj, trabalhou nos jornais "O Globo" e "Extra" e foi estagiária da rádio "CBN". Há dez anos, trabalha com foco em internet. Foi editora-assistente do site da "Revista Ela", onde se especializou nas áreas de moda, beleza, gastronomia, decoração e comportamento. Também atuou em outras editorias cobrindo política, economia, esportes e cidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *