O que a biodiversidade tem a ver com a moda?

Plantação de algodão em Mato Grosso: revisão tecnológica dos processos de produção para atender aos compromissos globais de redução de emissão de gases de efeito estufa (Foto: Florian Plaucheur / AFP – 08/08/2020)

Processos de produção do algodão - do qual indústria é dependente - devem passar por revisão profunda para atender aos compromissos de redução de emissões

Por Yamê Reis | ODS 12 • Publicada em 14 de dezembro de 2021 - 13:57 • Atualizada em 28 de dezembro de 2021 - 09:23

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Plantação de algodão em Mato Grosso: revisão tecnológica dos processos de produção para atender aos compromissos globais de redução de emissão de gases de efeito estufa (Foto: Florian Plaucheur / AFP – 08/08/2020)

A questão da perda da biodiversidade atingiu um nível sem precedentes neste século, deixando a humanidade numa encruzilhada em relação ao legado que estamos deixando às futuras gerações. Biodiversidade significa natureza viva: plantas e animais, os ecossistemas onde vivem, e como interagem entre si. Todos os elementos das nossas roupas vêm da natureza e nossa missão deveria ser, prioritariamente, a conservação dos ecossistemas, evitando sua degradação por meio de práticas de desmatamento ou monocultura, especialmente as que utilizam grandes quantidades de agrotóxicos.

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Os materiais têxteis são responsáveis pela maior parte da pegada de carbono dos produtos de moda: algodão e viscose têm provocado impactos devastadores pelo desmatamento e uso intensivo de produtos químicos; enquanto o poliéster é algo do qual a moda deve se livrar, tanto por sua origem nos combustíveis fósseis quanto pela disseminação de microplásticos nos oceanos durante as lavagens das roupas. Mas não basta trocar o poliéster pelas fibras naturais se estas forem cultivadas em monoculturas destruidoras da biodiversidade de biomas como o Cerrado, a Amazônia ou a Mata Atlântica, já tão intensamente devastados pelo agronegócio, a pecuária e a mineração.

Quando falamos de biodiversidade estamos nos referindo também às populações originárias e guardiãs desses territórios, ao seu conhecimento tradicional no cultivo dos alimentos e nos cuidados do solo. Portanto, devemos considerar que materiais sustentáveis são aqueles que no seu processo produtivo contribuem para a preservação da biodiversidade dos ecossistemas, proporcionando a segurança alimentar, a renda e um futuro digno para as futuras gerações.

Os processos de produção do algodão, por exemplo, do qual nossa indústria é tão dependente, deve passar por uma revisão tecnológica profunda para atender aos compromissos globais de redução de emissão de gases de efeito estufa. O uso intensivo de agrotóxicos, além de contaminar os lençóis freáticos e afetar diretamente a saúde dos trabalhadores, torna o solo incapaz de reter o carbono da atmosfera.

Precisamos propor uma transição de modelo de produção de matérias-primas naturais que tenham dois compromissos principais: a restauração da biodiversidade dos ecossistemas e a geração de renda e segurança alimentar. A transição tem que reconhecer a relação estreita entre esses dois elementos tal qual vemos nas práticas da agroecologia e da agrofloresta, onde os processos produtivos acontecem respeitando as pessoas e a diversidade das espécies que habitam aquele território. Os objetivos devem ser: redesenhar sistemas agrícolas que melhorem a produtividade sem causar impacto negativo à biodiversidade, tornando mais eficientes o uso da terra e da água; e redesenhar um novo modelo de cultivo que renuncie à produção de commodities de exportação, que geram poucos empregos e causam danos ambientais irreversíveis. É preciso promover os sistemas de certificação participativa criados no Brasil por agricultores familiares com grande potencial de aplicação em outros países do Sul global. As marcas de moda podem, e devem, comprar diretamente o algodão desses produtores agroecológicos, contribuindo para a verdadeira regeneração dos ecossistemas.

Os maiores indicadores de pobreza do Brasil estão nas áreas rurais e interioranas, e ali também estão as nossas maiores riquezas naturais, como os biomas da Amazônia e do Cerrado. Esses territórios têm sido palco constante de conflitos socioambientais, movimentados pelo avanço da grilagem, do desmatamento e da agropecuária. Não há como atingirmos as metas do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas até 2030 sem a erradicação da pobreza e do desmatamento, objetivos que não têm sido priorizados por políticas públicas.

É preciso despertar para o gigantesco desafio de manter entre 1,5 e 2 graus o aquecimento da Terra, de modo a tornar possível a continuidade da vida das espécies como conhecemos hoje. Conforme vemos no Índice de Transparência da Moda Brasil 2021, apenas 14% das marcas reportaram a rastreabilidade de seus materiais e nenhuma publicou seu compromisso para o desmatamento zero.

Cabe então perguntar: como podemos despertar nas marcas brasileiras o senso de urgência na ação para a transformação? E o que podemos esperar para 2022?

Yamê Reis

Yamê Reis é idealizadora do Rio Ethical Fashion e coordenadora de Design de Moda no IED Rio. Em sua carreira, liderou projetos com impacto no mercado brasileiro de moda em empresas como Cantão, Totem e Le Lis Blanc. Em 2017 fundou a Moda Verde, que atua nas áreas de Educação, Direção Criativa e projetos especiais para Moda Sustentável. Seu objetivo é colaborar com empresas para a construção de uma moda socialmente responsável e com baixo impacto ambiental. Socióloga e fundadora do Partido Verde nos anos 1980, Yamê atuou em projetos pioneiros como Amazon Life (1993), produziu e desfilou a primeira coleção feita com tecidos de hemp para sua marca autoral Yamê Reis (1994) e lançou no Fashion Rio o primeiro jeans orgânico nacional (2007), parceria do Cantão com o selo NOW (Natural Organic World). É autora de 'O Agronegócio do Algodão: Meio Ambiente e Sustentabilidade'

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