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O perímetro do desleixo

As cada vez mais elásticas fronteiras da moda


Até que chegam os netos e a aposentadoria. Você já não precisa se vestir para o chefe ou o cliente. É o senhor do seu próprio destino e , principalmente, das suas próprias roupas
Até que chegam os netos e a aposentadoria. Você já não precisa se vestir para o chefe ou o cliente. É o senhor do seu próprio destino e , principalmente, das suas próprias roupas

Você encontra o seu vizinho aposentado num jantar. Ele está de Crocs com meias, calça de elástico e casaco de moleton.

O horror! O horror!

Você pensa: como alguém vai num evento desse jeito?

Acredite, não é um rompante, um impulso tresloucado. É um longo processo.

Começa quando você vai morar sozinho.

No início você só fica à vontade em casa. O uniforme doméstico do mulambento, a cueca velha, a camiseta furada e os chinelos estropiados, só vale na sala, mesmo assim quando está sozinho. É o perímetro do desleixo: para além dele tem que se manter um mínimo de compostura, afinal lá fora pode estar a mulher da sua vida ou o trabalho que vai definir sua carreira. Ou, melhor ainda, a Scarlet Johansson. No início sempre há esperança.

Nessa fase, o conforto é algo muito particular.

Aí vem o fatídico dia em que o porteiro interfona e você tá lá no sofazão, assistindo netflix. De má vontade, muita má vontade, você atende e descobre que tem uma encomenda na portaria. Preguiçoso, só põe as havaianas e vai lá pegar. Se o porteiro não gostar do seu figurino que se dane.

Nesse momento, um amigo mais velho te mostra um par de Crocs. Que coisa mais confortável! E você, gênio da vanguarda, descobre que com meias eles ficam ainda mais aconchegantes. Não é à toa que a sabedoria vem com a idade.

Pronto. O perímetro mudou. Saiu de casa.

Passa o tempo, já morando com alguém, e dessa vez você descobre que acabou a cerveja. Logo agora! Em pleno jogo do Fluzão! No intervalo você põe outra vez as havaianas, o short Adidas azul-royal, a camiseta furada e vai correndo até a padaria. Se o caixa desaprovar o seu outfit, problema dele.

O perímetro chegou na esquina.

Numa quinta à noite os seus amigos te chamam pra tomar um chope. Onde? Perto, ali no bar do Zé. Você tá quase dormindo. Ah que se dane! Pega aquela confortável calça jeans que te acompanha há quinze anos, põe a camiseta Hering branca de estimação, aquela que de tão velha já virou uma película de algodão e, claro, o All Star preto que um dia foi branco. Nem o Zé nem seus amigos vão ligar. E você já perdeu a esperança da Scarlett Johansson aparecer

Mais alguns quarteirões para dentro do perímetro

Almoço de domingo. Agora você já é um respeitável homem de família e, no trabalho, se veste como tal. Cadê a pólo azul marinho? Lavando. Então vamos de Hering desbotada e bermuda vintage! A familia olha pro lado, constrangida, mas você, a esta altura, já não dá pelota, o que importa é o conforto. Além disso, domingão é dia de ficar à vontade, está na Bíblia, se não está, deveria.

Agora o bairro é a seu perímetro

Até que chegam os netos e a aposentadoria. Você já não precisa se vestir para o chefe ou o cliente. É o senhor do seu próprio destino e , principalmente, das suas próprias roupas. Chega de sapatos e colarinhos apertados, você é um homem livre. Na sua cabeça, as convenções pequeno-burguesas ficaram para trás e, também na sua cabeça, você está à frente da moda. Nesse momento, um amigo mais velho te mostra um par de Crocs. Que coisa mais confortável! E você, gênio da vanguarda, descobre que com meias eles ficam ainda mais aconchegantes. Não é à toa que a sabedoria vem com a idade. E a calça de elástico? Como você passou tanto tempo sem? Ah, os preconceitos da juventude…nada de fecho, nada de botões, só conforto. Igual ao moleton, que já não sai do seu corpo há anos.

O quê? Temos um jantar hoje? Vou assim! Que se dane!

O perímetro comemora. Agora o mundo é todo seu.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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