O Carnaval não tem nada a ver com a confusão

Tumulto após show para 300 mil pessoas em Copacabana era caos anunciado, que foi ignorado pela prefeitura do Rio

Por Oscar Valporto | ods12 • Publicada em 13 de janeiro de 2020 - 17:50 • Atualizada em 10 de março de 2020 - 16:53

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Multidão estimada em 300 mil na praia de Copacabana para show do Bloco da Favorita: tumulto previsível e pancadaria no final (Foto: Allan Carvalho/AGIF/AFP)
Multidão estimada em 300 mil pessoas na praia de Copacabana para show do Bloco da Favorita: tumulto previsível e pancadaria no final (Foto: Allan Carvalho/AGIF/AFP)
Multidão estimada em 300 mil na praia de Copacabana para show do Bloco da Favorita: tumulto previsível e pancadaria no final (Foto: Allan Carvalho/AGIF/AFP)

Em 2018, o Bloco da Favorita levou mais de 500 mil pessoas à orla de Copacabana no sábado de Carnaval: teve engarrafamento no trânsito, confusão nas estações do metrô, que ficou parado por 40 minutos, depredação de equipamentos públicos, correria e confusão nas ruas. Moradores do bairro aumentaram o tom das reclamações, que já vinham do ano interior, e a Prefeitura e o Riotur decidiram que, pelos problemas de logística, os chamados megablocos – com artistas e outras atrações – só desfilariam no Centro do Rio, o que efetivamente ocorreu em 2019; com exceção da Favorita, que preferiu se apresentar em São Paulo. Neste 2020, no primeiro dia do ano, a Riotur anunciou uma “abertura do Carnaval” na orla de Copacabana com o Bloco da Favorita, apenas 10 dias depois do Réveillon: tinha tudo para dar errado. E deu: congestionamento, confusão no metrô, depredação. Teve ainda dispersão do público na base de paulada e bomba de gás.

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O evento é inadequado em razão dos impactos urbanísticos gerados no bairro predominantemente residencial, provocando caos urbano agravado pela falta de antecedência para a articulação com os demais setores públicos, como transporte e limpeza urbana, controle de tráfego, interdição de vias e de áreas de estacionamento

Liana Barros Cardozo
Promotora, em ação pedindo a suspensão do evento do Bloco da Favorita

Apesar de eu ter citado a maior festa da cidade no parágrafo de abertura, é importante logo dizer que o Carnaval não tem nada a ver com isso. Como sabem os cariocas, o prefeito Marcelo Crivella tem deixado claro desde que assumiu que odeia essa festa: recusou-se a entregar a chave da cidade ao Rei Momo, cortou verbas das escolas de samba, dificultou a organização dos blocos de rua. Talvez por conta do ano eleitoral, a prefeitura apareceu com essa infeliz ideia de abertura, com um evento para mais de 300 mil pessoas na praia de Copacabana, apenas 10 dias depois do Réveillon.

Tinha tudo para dar errado e não sou eu quem estou dizendo. A  promotora Liana Barros Cardozo  – da 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania da Capital – entrou com uma ação pedindo a suspensão do evento por considerar inadequado “em razão dos impactos urbanísticos gerados no bairro predominantemente residencial, provocando caos urbano agravado pela falta de antecedência para a articulação com os demais setores públicos, como transporte e limpeza urbana, controle de tráfego, interdição de vias e de áreas de estacionamento”.  Para a promotora, a falta de planejamento colocava em risco a segurança pública e a integridade física dos presentes. “Não se pode admitir que os entes municipais e estaduais assumam a postura de realizar megaeventos sem o planejamento adequado, sob pena de incidir novamente em práticas amadoras”, argumentava ação movida pelo MP que não foi aceita pela Justiça.

Criticar isso não é preconceito, não é morar no passado, não é ser conservador, mas colocar as coisas no lugar que elas têm, pra que a barbárie não seja o lugar comum. Nem tudo é carnaval e carnaval não é um tudo pode

Luiz Carlos Máximo
Compositor

Vou repetir: o Carnaval não tem nada a ver com isso. O que houve em Copacabana foi um show gratuito, com Preta Gil, Sandra de Sá, Tony Garrido, DJs e MCs, atrações suficientes para mobilizar uma multidão. O santo nome do Carnaval foi usado em vão: só uma minoria deve saber que foram eleitos o Rei Momo e sua Rainha. Tinha razão a Polícia Militar para vetar a Favorita no domingo; a lei determina que autorização para um evento dessa magnitude precisa ser feito com 70 dias de antecedência. Mas a PM cedeu, a Justiça autorizou – e a Riotur simplesmente esqueceu os problemas que a levaram a transferir os megablocos para o Centro.

O Carnaval do Rio não tem nada a ver com isso, mas o estrago – mais um – em sua imagem está feito. Nas redes sociais, os mau-humorados de plantão descem o pau na folia carioca de rua, moradores de Copacabana e bairros da Zona Sul destilam preconceito contra “funkeiros”  – como se fossem eles a atirar bombas e usar cassetetes – e analistas do comportamento alheio culpam a falta de educação do povo e a bagunça carnavalesca. O que fica provado é que o prefeito faz mal ao Carnaval até quando tenta – desastradamente, é verdade – faturar com a popularidade da festa.

Venho dizendo há tempos que uma ameaça tão forte quanto a do imaginário neopentecostal de demonização do carnaval e a flagrante demofobia das elites brasileiras é a captura da rua pelo mercado e da festa pela lógica do evento que proporciona circulação de capital e só por isso se justifica. O fenômeno dos megablocos se insere nessa lógica. O que se quer ali não é carnaval. É grana

Luiz Antônio Simas
Historiador e professor

A confusão com o show do Bloco da Favorita provocou ainda outras reflexões. O compositor Luiz Carlos Máximo, coautor do samba-enredo da Mangueira em 2019 e 2020, destacou, em texto no Facebook, que “é preciso separar a crítica correta da desorganização e despreparo na segurança do evento, do preconceito e horror da classe média da zona sul por gente pobre e preta na ‘sua’ praia”.  Máximo também critica os megablocos “que não têm nada de Carnaval” e que “nada têm a ver com a anarquia, subversão, extroversão, alegria e espontaneidade” da festa popular. “Criticar isso não é preconceito, não é morar no passado, não é ser conservador, mas colocar as coisas no lugar que elas têm, pra que a barbárie não seja o lugar comum. Nem tudo é Carnaval e Carnaval não é um tudo pode”, escreveu o compositor.

No Twitter, o historiador e rueiro Luiz Antonio Simas também faz sua crítica ao fenômeno dos megablocos. “Venho dizendo há tempos que uma ameaça tão forte quanto a do imaginário neopentecostal de demonização do Carnaval e a flagrante demofobia das elites brasileiras é a captura da rua pelo mercado e da festa pela lógica do evento que proporciona circulação de capital e só por isso se justifica. O fenômeno dos megablocos se insere nessa lógica. O que se quer ali não é Carnaval. É grana”, escreveu. “Os megablocos não são sinais de vitalidade do Carnaval de rua. Eles sinalizam o inverso”, acrescentou Simas

Multidão na apresentação do Bloco da Favorita em Copacabana: oposição dos moradores do bairro e do Ministério Público, alertando par transtornos, não conseguiu impedir evento (Foto: Fernndo Maia/Riotur)
Multidão na apresentação do Bloco da Favorita em Copacabana: oposição dos moradores do bairro e do Ministério Público, alertando par transtornos, não conseguiu impedir evento (Foto: Fernndo Maia/Riotur)

A retomada do Carnaval de rua, a partir da redemocratização do país, foi uma injeção de ânimo e alegria para a alma e o espírito carioca. Em menos de 20 anos, os blocos cresceram e se multiplicaram pela cidade.  Lembro que, no começo deste milênio, o desfile do Simpatia é Quase Amor pelas ruas de Ipanema durava nove horas e parava o bairro – essa bagunça, nem sempre saudável, repetia-se em outros blocos e outros bairros. Foi necessário dar alguma ordem na folia: houve restrições aos horários e outras exigências e os blocos tradicionais foram se adequando às regras.  E resistem e ainda se multiplicam, apesar do atual gestão da prefeitura ter procurado sempre atrapalhar.

Foi o sucesso do Carnaval de rua que provocou o aparecimento de iniciativas como este Bloco da Favorita – nascido do Baile da Favorita, uma festa movida a funk – que faz um desfile show, cópia dos blocos de trios elétricos da Bahia, puxado por artistas populares.  Não deixa de ser Carnaval e cabe ao administrador público – nesta mui leal e heroica cidade de São Sebastião – cuidar para que a festa seja para todos. Naturalmente, esses blocos são movidos pelo lucro, tanto assim que a Favorita, contrariada por seu veto a desfilar em Copacabana no Carnaval 2019, transferiu sua folia para São Paulo, coisa inimaginável para a Banda de Ipanema ou o Cordão do Bola Preta. Outros arrastaram multidões no Centro do Rio como o Bloco da Preta (Gil), o Giro do Arar, da cantora Ludmila, o Bloco das Poderosas, de Anitta, e o Monobloco.

Esses megablocos podiam e podem se exibir – por vezes, nem chega a ser um desfile – no Aterro do Flamengo ou no Parque Olímpico, locais muito mais adequados para a tal abertura de domingo, como deveria ter imaginado a Riotur. Aliás, para informação do prefeito e sua turma, a abertura (não-oficial) do Carnaval 2020 foi realizada no domingo anterior quando quase 30 blocos, com milhares de foliões, saíram de vários pontos do Centro. Na convocação para a folia, foi divulgado pela Desliga dos Blocos o Manifesto do Carnaval Livre que começa assim: “O Carnaval é livre, pois é uma manifestação autêntica da nossa cultura. É livre, pois é popular e inclusivo”. E termina: “É livre, pois permite a fantasia, a alegria, a utopia e o amor. O Carnaval Livre é, sobretudo, uma redundância”.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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3 comentários “O Carnaval não tem nada a ver com a confusão

  1. Isabela Saramago disse:

    Concordo com tudo. O carnaval não tem culpa.

    Mas o que aconteceu em Copacabana acontece anualmente em Ipanema. Tenho clientes que moram na Avenida Vieira Souto, pagando um dos IPTUS mais caros da Cidade do Rio de Janeiro e nessa época do ano são obrigados a sairem de suas casas porque a avenida fica tomada de blocos desorganizados. As garagens ficam bloqueadas, lixos espalhados sem falar no cheiro de urina que reina até quinta-feira depois da quarta-feira de cinzas.
    Os blocos de Carnaval deveriam ser organizados, planejados, estruturados e realizados em locais fora dos endereços residenciais.

  2. Cesar Caldeira disse:

    Estive no evento entre 17 hs e 18 e 15 min. No palco ocorria a escolha do Rei Momo. A multidão estava tranquila. Havia um número enorme de ambulantes e na areia muitos grupos trouxeram suas próprias cervejas em caixas térmicas . Crianças estavam presentes.
    Perguntei à duas policiais militares, que estavam em grupo no limite da ocupação na areia, se o evento estive mais cheio anteriormente. Disseram que desde que chegaram às 13hs e 30 o público na areia tinha sido até menor. Haveria 300 mil pessoas na apresentação do Bloco da Favorita em Copacabana? Estimo que não. A concentração se dava na frente do Copacabana Palace, na avenida Atlântica e na areia que tinha área cercada como se vê na foto. O som era ruim e se projetava apenas do palco. Não dava para se ouvir bem depois do quarteirão do Copacabana Palace. No Maracanã lotado cabem cerca de 80 mil torcedores. Haveria cerca de três vezes mais espectadores nessa Abertura do Carnaval? Tenho dúvidas.
    De fato, houve em 12 de janeiro um acontecimento político cultural – um show gratuito – que tem repercussões na campanha eleitoral municipal de 2020. Como chamar o que vi, e as brigas posteriores entre ambulantes e policiais, além dos graves problemas de locomoção em Copacabana? A “Muvuca do Crivella”.
    Cesar Caldeira

  3. Cesar Caldeira disse:

    Houve erro no primeiro envio do comentário. Usar o meu segundo comentário enviado. A frase corrigida é: Haveria cerca de cinco vezes mais espectadores nessa Abertura do Carnaval? Prefiro suprimir o exagero proposital por “três vezes”. Agradeço,
    Cesar Caldeira

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