De que modo os ecossistemas de negócios são capazes, atualmente, de fomentar, com soluções estratégicas e essenciais, os empreendimentos baseados em sociobioeconomia na Amazônia? Quais soluções e redes de parceria e prestação de serviços precisam ser ativadas para promover o fortalecimento agregado de um conjunto regional de negócios da sociobioeconomia?
Os ecossistemas funcionais são aqueles constituídos por setores e soluções de apoio plurais, diversas e conectadas às demandas organizacionais do segmento de empreendedores regionais. Dentro da literatura das ciências econômicas, o acesso a recursos – sejam eles humanos, financeiros, físicos, técnicos ou qualquer outro elemento crucial para a produção, distribuição e comercialização de produtos ou serviços – foi classicamente estudado e mobilizado como variável determinante para o êxito, ou não, de um empreendimento no mercado. Compreender as condições de acesso a estas “soluções” em um ambiente externo, sobretudo por meio de relações de cooperação ou acesso a serviços, desponta como uma das frentes de maior relevância para o desenho e implementação de estratégias efetivas de desenvolvimento de negócios.
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Um mapeamento realizado pelo Instituto Conexões Sustentáveis trouxe informações referentes a soluções e parcerias em diferentes ecossistemas regionais de negócios de sociobioeconomia na Amazônia, com dados quantitativos e qualitativos sobre mais de 400 redes de cooperação e acesso a serviços estabelecidas, entre 58 negócios comunitários de impacto socioambiental e 181 instituições, empresas, prestadores de serviços e outras entidades regionais de cinco diferentes territórios amazônicos.
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Veja o que já enviamosEnquanto tipo de empreendimento chave para a sociobioeconomia, os negócios comunitários – associações de produtores, cooperativas singulares e cooperativas centrais –, apresentam intenso nível de fragmentação em 4 dos 5 territórios analisados pelo nosso mapeamento. Nestas regiões, a baixa densidade relacional de 3,8% – ou seja, a cada 100 relações verificadas, somente 3,8 delas são relações de reciprocidade entre negócios comunitários – aponta para uma perspectiva em que ações coletivas entre cooperativas e associações constituem-se em episódios esporádicos.
Superar este cenário de isolamento organizacional passa, muitas vezes, por reativar espaços de interação estratégica que, geralmente, são inexistentes, inativos ou mesmo esvaziados. Fortalecer conselhos, fóruns e outras instâncias participativas, sobretudo a partir de aprendizados sobre experiências similares do passado, como os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural e os Colegiados de Desenvolvimento Territorial, contribuiria para, no médio e longo prazo, os indicadores de coesão e densidade relacional encontrarem alterações significativas nestes territórios.
Atrair e preparar a entrada de novas e diversas organizações nos ecossistemas de negócios, com o estabelecimento de relações frutíferas e responsáveis com os negócios comunitários, também despontou no mapeamento como dimensão-chave para ativar os ecossistemas. Classicamente estabelecidas em diferentes territórios da Amazônia, muitas vezes como uma das poucas entidades de suporte a cooperativas e associações, as organizações do terceiro setor são aquelas com maior representatividade nos laços de cooperação com os negócios comunitários. Junto com sindicatos e movimentos sociais, representam quase metade (47%) de todas as relações estabelecidas pelos negócios comunitários em seus respectivos ecossistemas de apoio.
O levantamento verificou, ainda, que as iniciativas de apoio e prestação de serviços aos negócios comunitários falham, muitas vezes, em atender de maneira continuada as demandas organizacionais das cooperativas e associações, tais como aquelas associadas à assistência técnica continuada aos produtores associados, capital de giro para todas as safras operadas pelo negócio comunitário, soluções de divulgação, representação e comercialização de produto entre outras necessidades. A reduzida perenidade – critério de qualificação com o pior indicador fi nal entre uma variedade de critérios de qualidade mobilizados nas oficinas – também evidencia a relevância do Estado, em suas diferentes esferas, em prover parte das soluções necessárias através da instrumentalização de iniciativas de apoio em políticas públicas de fomento à sociobioeconomia nos diferentes territórios amazônicos.
Um ecossistema de negócios estruturado e funcional deve ser compreendido como um bem comum de uma região: a sua fundamentação adequada e o seu crescimento promovem uma série de impactos positivos à população local, desde a geração de renda a manejadores e produtores, passando por uma crescente massa de empregos a setores produtivos inseridos nas cadeias de valor, até rendimentos adicionais ao Estado na forma de tributação e impostos – sem falar, obviamente, dos impactos socioambientais positivos e, consequentemente, a mitigação das mudanças climáticas, conservação da biodiversidade e promoção do bem viver de povos e comunidades rurais e florestais.