Consumo recorde e insustentável

Materiais consumidos pela humanidade passam de 100 bilhões de toneladas anuais mas só 8,6% são novamente aproveitados

Por José Eduardo Mendonça | ods12 • Publicada em 16 de março de 2020 - 12:43 • Atualizada em 20 de março de 2020 - 13:15

Trabalhadores desmontam aparelhos de TV no Centro Industrial de Economia Circular na China: apenas 8,4% dos materiais que consumimos são reaproveitados (Foto: Zhou Sihan/Imaginechina/AFP)

A ciência do clima alerta que o aquecimento do planeta no século deve ficar limitado a 1,5 ou até 2 graus centígrados sobre as temperaturas pré-revolução industrial. Será o único modo de conter desastres naturais de proporções enormes. 

Mas grande parte dos cientistas acredita que este limite não será viável. Parte da saída será a reciclagem e o reuso de bilhões de toneladas de recursos utilizadas pela economia mundial. E hoje apenas um 8,6% das cerca de 100 bilhões de toneladas de materiais – incluindo minerais, metais, combustíveis fósseis e biomassa – são novamente aproveitáveis. Os dados são da Circle Economy, uma empresa social baseada em Amsterdã.

O relatório revela que os recursos que entraram na economia global aumentaram em 8.4% em dois anos – de 92.8 bilhões de toneladas em 2015 para 100.6 bilhões em 2017, último ano para o qual há dados disponíveis. A maior parte deles – 40% – foi para habitação, Outras categorias importantes incluem alimentos, saúde, comunicações e bens de consumo como roupas e móveis. E a taxa de reaproveitamento caiu 9,1%.

O trabalho, divulgado no final de janeiro, diz que 62% das emissões de gases de efeito estufa, excluindo uso da terra, são liberadas durante a extração, processamento e fabricação de bens. Para enfrentar a mudança do clima, as políticas governamentais até o momento focaram na adoção de energias renováveis, melhorando a eficiência energética e brecando o desflorestamento, afirma o documento, 

Não é o bastante. A quantidade de uso de materiais no mundo triplicou desde 1970, e pode dobrar até 2050 se outras ações não forem incluídas nestas políticas. Para reduzir as emissões, as economias têm de se tornar “circulares”, ou seja, reusando produtos.

Jornais e papéis velhos em fábrica francesa que usa pasta de celulose para produzir isolamento térmico: relatório indica que, para reduzir as emissões, as economias têm de se tornar circulares (Foto: Gaizca Iroz)/AFP)
Jornais e papéis velhos em fábrica francesa que usa pasta de celulose para produzir isolamento térmico: relatório indica que, para reduzir as emissões, as economias têm de se tornar circulares (Foto: Gaizca Iroz)/AFP)

A tarefa é difícil. Envolve mudanças de hábitos de empresas e consumidores, e o convencimento dos países para que adotem as regulações adequadas. Isto, porém, pode ser feito.

Na Ásia, economias de rápido crescimento e urbanização estão fazendo grandes investimentos em construção e infraestrutura, oferecendo oportunidades de promoção de uma economia circular. No caso da Europa, diz o relatório, é preciso que os países maximizem as construções existentes para estender sua vida útil e impulsionar a eficiência energética, encontrando novos usos para os materiais.

Existem três estratégias amplas para a mudança para uma economia circular. O uso de produtos tem de ser mais racional, como por exemplo a partilha de carro ou a manutenção de veículos para que durem mais. A reciclagem e a redução do descarte de materiais são também chaves, assim como a utilização de materiais naturais e de baixo carbono em construção, como o uso de bambu e madeira em vez de cimento,

Os governos devem adotar taxações e planejamento de gastos que encorajem a economia circular, aumentando impostos sobre emissões e produção excessiva de lixo na produção, e os diminuindo no caso de mão-de-obra e inovação. Finalmente, devem ser abolidos incentivos financeiros ao uso em excesso de recursos naturais, como combustíveis fósseis.

Carolina Schmidt, ministra do meio ambiente do Chile, acredita que os relatórios de circularidade têm sido muito úteis, por revelarem a preocupante tendência dos anos passados: “São um alerta para todos os governos. Temos de usar todo tipo de políticas para catalisar uma transformação”, disse ela.

A maioria dos produtos não é planejado para o reuso e não há centros de reciclagem suficientes para reprocessar materiais ao fim de suas vidas úteis. As taxas de reciclagem estão melhorando e trazendo materiais de mais alta qualidade, mas isto está longe do ideal para alimentar o crescimento econômico com segurança. 

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José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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