Voluntários se mobilizam contra o discurso de ódio

O grupo voluntários contra a fake news atua em 15 países, inclusive no Brasil. Imagem Helmut Fohringer/APA-PictureDesk via AFP

Publicitário americano cria grupo para alertar empresas que anunciam em sites que propagam fake news

Por Mônica Medeiros | ODS 12ODS 16 • Publicada em 26 de dezembro de 2019 - 17:07 • Atualizada em 17 de fevereiro de 2020 - 19:49

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O grupo voluntários contra a fake news atua em 15 países, inclusive no Brasil. Imagem Helmut Fohringer/APA-PictureDesk via AFP
O grupo voluntários contra a fake news atua em 15 países, inclusive no Brasil. Imagem Helmut Fohringer/APA-PictureDesk via AFP
O grupo voluntários contra a fake news atua em 15 países, inclusive no Brasil. Imagem Helmut Fohringer/APA-PictureDesk via AFP

O grupo de ativistas em mídia social batizado de “Gigantes Adormecidos” (Sleeping Giants) tomou como missão acabar com a canalização de dinheiro oriundo de publicidade para websites que disseminam desinformação e promovem discurso de ódio.  Seu slogan é “Uma campanha para que radicalismo, intolerância e machismo sejam menos lucrativos”. Eles operam como “lobistas” no Twitter contra a desinformação, para persuadir empresas a exigir que seus anúncios em plataformas como Google, Facebook e Amazon, não apareçam associados a mentiras, falácias e teorias de conspiração. Assim, eles esperam cortar significativamente o patrocínio de desinformação e perseguição a adversários políticos.

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Seu método é simples e não exige nenhum recurso além de um telefone para acessar sites com esse perfil e tuitar. No perfil dos “Gigantes Adormecidos” no Twitter, há instruções para seus seguidores (mais de 240 mil) que querem ajudar, tornando-se um dos “gigantes”. O passo-a-passo começa com uma visita ao site fraudulento para fazer um screenshot do anúncio na página com conteúdo falso, enganoso ou intolerante, tuitar incluindo uma nota cortês e sem ofensas ou agressividade, alertando a empresa do anúncio. O grupo pede que se inclua a identidade do grupo no Twitter – @slpng_giants – para que ele possa acompanhar o progresso da campanha e ter estatísticas referentes ao esforço do grupo. Normalmente, depois de tuitar citando a empresa, seus representantes respondem ao tuíte agradecendo e notificando que colocaram, por exmplo, Breitbart News na lista onde não anunciar.

Os "Gigantes Adormecidos" têm mais de 240 mil seguidores no Twitter. Foto Reprodução
Os “Gigantes Adormecidos” têm mais de 240 mil seguidores no Twitter. Foto Reprodução

Os Gigantes Adormecidos entraram em ação logo depois da eleição de Donald Trump para presidente. Foi no ano de 2016 que se viu a proliferação de websites promovendo desinformação, com conteúdo racista, machista, xenofóbico e antisemita. De 2016 até o mês passado, os Gigantes Adormecidos atuavam em anonimato para evitar ataques, ameaças e retaliação por parte de empregadores e dos sites que perderem anúncios por causa da campanha. Entretanto, a identidade do fundador – o publicitário Matt Rivitz – foi revelada pelo website sensacionalista “Daily Caller”, que frequentemente promove teorias de conspiração. “Daily Caller” foi classificado por Media Bias/Fact Check como de extrema direita que publica falsidades. O grupo não tem patrocinadores nem receita; quando precisam de dinheiro, eles vendem camisetas e pedem doações.

O primeiro alvo foi o “Breitbart News”, que ficou conhecido fora da esfera da extrema direita militante por apoiar agressivamente Donald Trump nas eleições de 2016 nos EUA, difundindo teorias de conspiração e outras falsidade contra Hillary Clinton e o partido Democrata. Tudo começou com uma conta no Twitter e um tuíte alertando a empresa Social Finance sobre seu anúncio na página do Breitbart News. ”Vocês estão sabendo que sua publicidade está aparecendo no site do Breitbart, o maior apoiador do movimento de extrema direita Alt-Right? Vocês estão apoiando eles publicamente?”. No mesmo dia, Social Finance respondeu dizendo que tiraria sua publicidade das páginas de Breitbart. O grupo, formado de voluntários, tem  representantes anônimos em 15 países, incluindo o Brasil, que administram perfis específicos para cada país. No Brasil, os gigantes – slphg_giants_br continuam adormecidos; não se vê atividade no Twitter desde 2017. No curto período que ficou ativo, não teve uma participação significativa.

O tráfego do Breitbart News caiu de 15 para 5 milhões, de acordo com Rivitz, depois da campanha de seu grupo junto às empresas cuja publicidade aparece nas páginas de Breitbart.  A receita de publicidade ficou reduzida a apenas 10% do que estavam acostumados a receber, segundo Stephen Bannon, um dos fundadores do site. Bannon, antiglobalista e ultranacionalista foi o guru ideológico da campanha de Trump e depois da eleição foi nomeado Estrategista-Chefe de Trump. Pouco depois de eleito, o presidente Jair Bolsonaro, com o filho Eduardo e Olavo de Carvalho se encontraram com Bannon, em Washington, durante sua viagem oficial aos EUA.

O site “Breitbart News”, conhecido por apoiar agressivamente Donald Trump e difundir teorias da conspiração e notícias falsas, viu sua audiência cair de 15 para 5 milhões após o trabalho dos voluntários

Rivitz explicou que o Google e o Facebook não identificam e nem removem esses sites e outros fraudulentos do rol de domains em que inserem publicidade de seus clientes. Esse tipo de publicidade, conhecida como programática, escolhe os indivíduos que verão o anúncio, não os sites em que o anúncio aparecerá. Os sites são os que os indivíduos alvos – por exemplo, homens brancos nos EUA – normalmente visitam. Não há regulamentação da publicidade programática que obrigue essas plataformas a informarem onde a publicidade é postada e nem interesse em fazê-lo. O cliente pode bloquear os sites onde não querem anunciar para proteger a marca, mas o ônus de criar uma lista de sites para bloqueio é do anunciante. Se não houver monitoramento constante, eles nunca chegam a saber onde sua publicidade aparece. Sabendo disso, Rivitz apostou que as empresas anunciando no Breitbart News não tinham conhecimento de que estavam financiando e patrocinando o site que publica “fake news” e resolveu avisa-los. Ele estava certo; a campanha de alerta levou 4 mil empresas, entre elas Kellogg’s, Visa, Lenovo e BMW a bloquear Breitbart News reduzindo sua receita de publicidade.

O publicitário Matt Rivitz, fundador dos "Gigantes Adormecidos". Foto Reprodução
O publicitário Matt Rivitz, fundador dos “Gigantes Adormecidos”. Foto Reprodução

Críticos dos Gigantes Adormecidos, como Alexander Marlow, editor-chefe de Breitbart News, acusam o grupo de tentar suprimir a liberdade de expressão pelo estrangulamento econômico e os chamam the “esquerdistas totalitários”. Rivitz, que define o grupo como uma cruzada contra o discurso de ódio, se defende dizendo que ele não promove boicotes; os “gigantes” informam as empresas onde seus anúncios aparecem. A decisão de bloquear anúncios no Breitbart News foi deles; bloqueiam porque não querem estar associados com o tipo de discurso do site, que publica manchetes como “Pílula anticoncepcional torna a mulher menos atraente e louca”. Rivitz disse que ele apoia a liberdade de expressão de Breitbart News mas também a transparência. O problema, segundo ele, não é o que eles escrevem mas sim o fato de serem patrocinados por empresas que não concordam com a linha editorial do site e não sabem o que estão financiando. É aí que entram os “gigantes”: informar para conter a desinformação.

Mônica Medeiros

Mônica é carioca mas expatriada nos EUA, onde fez mestrado em Jornalismo e foi professora de teoria da comunicação. Cobriu política, cidade e meio ambiente para O Globo e Veja. É jornalista freelance com interesse especial por cidadania, feminismo, meio ambiente, e apaixonada pela ideia de lixo zero. É também tradutora e voluntária de Tradutores sem Fronteira.

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