Viralizando a colaboração em tempos de coronavírus: veja ações que vão te inspirar

Daniel Rocha, de 23 anos, resolveu ajudar vizinhos idosos do seu apartamento: ‘É a obrigação dos jovens’, opina (Foto: Arquivo pessoal)

Lista com iniciativas em prol da população mais vulnerável mostra como solidariedade e a colaboração passam a fazer parte da solução no combate aos impactos do avanço do coronavírus no Brasil.

Por Maria Clara Parente | ODS 11ODS 3 • Publicada em 31 de março de 2020 - 11:45 • Atualizada em 13 de abril de 2020 - 19:30

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Daniel Rocha, de 23 anos, resolveu ajudar vizinhos idosos do seu apartamento: ‘É a obrigação dos jovens’, opina (Foto: Arquivo pessoal)

Enquanto a Covid-19 se espalha pela Terra, uma outra onda também viraliza a passos largos: a colaboração. Quando o que antes conhecíamos como poder não serve mais para salvar vidas, a solidariedade e a colaboração passam a fazer parte da solução. Como a economista Naomi Klein declarou em vídeo postado recentemente pelo Intercept Brasil é na crise que as soluções progressistas que pareciam muito radicais há até uma semana atrás podem se tornar o melhor caminho possível. É claro que também existem as ideias fascistas, totalitárias e de vigilância rondando no ar e sendo incentivadas, mas, neste momento, há muito mais lugares abertos e visíveis para outros espaços de poder e de cuidado mútuo que se abrem de forma descentralizada. A vida na Terra se originou da colaboração e precisamos encarar essa realidade para sair dessa situação muito mais resilientes. “Salvar as empresas” que mais poluem o mundo é o que precisamos coletivamente evitar urgentemente, entendendo que empresas só podem fazer sentido como organismos vivos dentro da Terra da Regeneração se tiverem um olhar sistêmico e complexo para o bem estar do todo.

O sistema B, um selo de certificação para organizações que têm esse olhar para o coletivo, se torna absolutamente fundamental nesse momento. O movimento propõe uma nova “genética” econômica que permite que os valores e a ética inspirem soluções coletivas sem esquecer das necessidades particulares. Segundo Tomás de Lara, co-fundador  da Cidade + B, “estamos aprendendo através da dor, que somos todos vizinhos e compartilhamos uma mesma casa, o planeta Terra. O papel das empresas como força de transformação positiva será crucial neste momento que afeta à todos. Trabalharmos com propósito nunca foi tão relevante.”

Com a colaboração mais em pauta ainda por conta do avanço do coronavírus, os participantes da rede já criaram a plataforma #interdependência_20, onde compartilham conteúdos para se apoiarem mutuamente e inspirar organizações nesse processo de transição. Afinal “voltar para o normal” é limitar a nossa criatividade de como podemos existir e nos organizar nesse planeta que é um sistema vivo que expulsa os seres que não colaboram com o todo como um processo biológico natural. Fora das organizações, o movimento de colaboração entre pessoas também é crescente. No Brasil, onde as desigualdades sociais escancaram a falência do sistema capitalista para promover o bem-estar de todos os seres vivos, vemos a colaboração crescer nos últimos dias fazendo diferentes classes sociais se uniram pelo bem do coletivo.

Esther foi a primeira beneficiada com a Vakinha Xô Corona, criada por grupo de amigas. Na foto, a manicure posa ao lados dos pais (Foto: Arquivo Pessoal)

1 – União Br

Um exemplo é o grupo União Br, que se divide em vários subgrupos de empresários, empreendedores sociais e representantes do setor público, para ajudar o coletivo de forma descentralizada. A União SP já arrecadou R$ 6,5 milhões, o que resulta em mais de 108 mil cestas básicas chegando nas casas de quem precisa. Já a União Rio, conseguiu levantar 21,6 mil litros de material de higiene e limpeza, 81 toneladas de alimentos com 13,4 mil famílias em 18 comunidades sendo atendidas, em uma semana. Além disso, a campanha já arrecadou 10 milhões para, entre outros objetivos, ativar 60 UTIs no hospital da UFRJ e quer bater metas muito maiores de colaboração.

Como colaborar? Siga @uniãobrorg e fique por dentro das novidades. Você também encontra as informações atualizadas pelo site, clique aqui para conhecer

2 – Vakinha Xô Corona

Há também muitas ações pontuais de esperança ativa, como a Vakinha Xô Corona, um projeto criado por quatro amigas para arrecadar doações para pessoas que perderam seus empregos ou estão passando situações difíceis no momento. O projeto começou por conta da preocupação de Isabel Firmo com a manicure Esther Gama, que em casa é pai, mãe e cuida dos pais idosos. “Surgiu a ideia de ajudá-la financeiramente, mas antes de transferir, perguntei se a Duda, uma amiga da escola, também cliente, queria participar. Ela topou e falou com outras clientes da Esther. De forma rápida, levantamos uma boa quantia para ela ficar em casa tomando conta dos pais (dentro do grupo de risco) e da filha.” De surpresa, as amigas enviaram a quantia de R$ 1000 para Esther.

E como vírus da colaboração é realmente contagiante, a mãe de Isabel também foi movida pela colaboração e mobilizou esforços para que as freiras da Lapa, no Rio, que fazem quentinhas para as pessoas em situação de rua pudessem continuar com o trabalho que fazem nesse momento.

Como colaborar? Siga @vakinha_xo_corona e veja o passo a passo, que começa com a escolha de um profissional autônomo para apoiar.
Vakinha Xô Corona
Vakinha Xô Corona também ajudou freiras que fazem quentinhas para pessoas em situação de rua no Rio de Janeiro. Na foto, elas posam com o cheque com valor arrecadado em corrente do bem (Foto: Arquivo pessoal)

3 – Solidariedade na Rocinha

Outro caso de colaboração familiar tem foco na Rocinha. Sem dimensionar a proporção que poderia tomar, Ruth Jurberg, que trabalha há muitos anos com urbanização social na favela carioca se juntou com a filha Deborah Sargentelli quando começou a campanha para prevenção do vírus. “Minha mãe deu a ideia de tentarmos arrecadar dinheiro para distribuir álcool gel na Rocinha, e eu lancei uma campanha online pelo Instagram. Confesso que achei que a gente ia conseguir no máximo mil reais, mas conseguimos 18 mil em cinco dias e apoio de algumas instituições. Com isso, compramos 200 litros de álcool gel, e também sabonete e detergente. Além de imprimirmos um flyer explicando a Covid-19. A gente preparou os kits aqui em casa, e as lideranças comunitárias da rocinha estão ajudando na distribuição”, conta Deborah.

4 – Rede de apoio na Babilônia

Preocupada com a situação da favela onde mora – Babilônia -, a jornalista Tatiana Bueno se juntou com amigos da comunidade e do “asfalto” na rede @facaumbemaalguem, que já tem um página no Instagram e alguns grupos de Whatsapp para que as ações que estão sendo desenvolvidas fossem disponibilizadas de forma compilada com foco no Morro da Babilônia e Chapéu Mangueira. Fora isso, a rede também está trabalhando voluntariamente em um mapeamento colaborativo do Rio e já tem apoio de plataformas de compartilhamento com o Tem Açúcar, Idealist e Atados. A iniciativa já contabilizou mais de 2000 reais em doações no primeiro dia no ar e agora conta com apoio de pessoas como André Carvalhal e Gregório Duvivier, que estão usando o engajamento de suas redes sociais para viralizar mais ainda as doações online.

Como colaborar? Siga o @facaumbemaalguem – lá você encontra informações compiladas sobre formas verificadas de como doar .
Ruth Jurberg
Juntamente com a filha, Ruth Jurberg conseguiu arrecadar R$ 18 mil em cinco dias. Comprou 200 litros de álcool gel, além de itens de higiene pessoal para a comunidade da Rocinha (Foto: Arquivo pessoal)

5 – UmHelp

Em São Paulo, Daniel Ruhman criador do app UmHelp, uma plataforma para contratar diaristas, já arrecadou 35 mil reais para as diaristas autônomas que neste momento estão sem trabalho. “Ao longo do último ano me inseri profundamente no universo e rotina das diaristas de São Paulo, apoiando-as na prestação de serviços e dando suporte aos mais diversos problemas que surgem. E ao longo da última semana, percebi uma tendência desesperadora: com o avanço do coronavírus, muitas diaristas e mensalistas foram dispensadas de seus serviços e estão sem pagamento! Afinal, dizem eles, ‘não há nenhuma obrigação de pagar’. Esse não é um serviço que elas podem fazer remoto/home office”, pondera. Para indicar uma diarista para participar, é só preencher o formulário disponível na vakinha logo abaixo. 

Ao longo da última semana, percebi uma tendência desesperadora: com o avanço do coronavírus, muitas diaristas e mensalistas foram dispensadas de seus serviços e estão sem pagamento

Daniel Ruhman
Criador do app UmHelp

Daniel reproduz algumas mensagens que ouviu destas profissionais. “Esse vírus aí é um risco que está tendo agora, né? Mas se eu não trabalhar não é risco não, é certeza que semana que vem não tem janta nem pra mim nem pros meus netos”, disse uma que faz parte do grupo de risco para a doença. Outra lamentou: “Muitas das diaristas trabalham com medo, mas persistem para pôr comida na mesa e ter um teto para morar, muitas vezes com filhos”. Por essas e outras, Daniel acredita que o momento deve ser de união profunda para que o maior número de pessoas possa ficar em casa.

Como colaborar? Link da vakinha: vaka.me/950497 | Para indicar uma diarista: https://forms.gle/NcrefcPTkjSdVtpn6

6 – Vizinho solidário

Além dessas iniciativas, temos também as pessoas que se disponibilizam para ir à rua no lugar de idosos. A ação acabou gerando, em muitos casos, o primeiro contato entre vizinhos. “Vi em um grupo do Facebook de moradores da Gávea, no Rio, uma senhora se disponibilizando para ajudar no que fosse preciso. Achei a ideia sensacional e na hora assinei embaixo. Acontece que nem todos têm acesso ao Facebook, ainda mais os que estão no grupo de risco”, explica o estudante Daniel Rocha, de 23 anos, que resolveu colar mensagens nos elevadores de seu prédio e distribuir pelas ruas do bairro, oferecendo ajuda. “É a obrigação dos jovens”, acredita.

Refettorio Gastromotiva, criado por David Hertz, está funcionando como banco de alimentos para população em situação de rua (Foto: Divulgação)

7 –  Refettorio Gastromotiva

Outra grande preocupação do momento são as pessoas em situação de rua, que dependem completamente das doações diárias das pessoas que circulam pelos bairros.  O Refettorio Gastromotiva, criado por David Hertz, está sendo essencial nesse momento. Funcionando como um banco de alimentos, está distribuindo todas as doações que recebe para treze organizações parceiras. Além disso, está implementando Cozinhas Comunitárias, juntamente com alunos e ex-alunos que moram em comunidades carentes do Rio de Janeiro, dando acesso a uma comida de qualidade para pessoas que não têm mais possibilidade de ter uma refeição digna por dia e garantindo renda aos cozinheiros comunitários.

“No momento de crise, nosso foco foi entender como poderíamos minimizar os impactos da pandemia nos nossos beneficiários: seja a população de rua que se alimenta diariamente no Refettorio Gastromotiva, seja nossos alunos e empreendedores que vêm, a maioria, de regiões de periféricas. São muitos os desafios pela frente, e estamos trabalhando com planos de contingência. Nesse momento é muito importante para nós, como organização social, contar com doações financeiras para atendermos aos que mais precisam”, arremata David.

Como colaborar?
ONG: Associação Incubadora Gastromotiva
Banco Itaú (341)
Ag 0619
CC 35732-0
CNPJ: 08.505.223/0001-12 ou pelo site http://gastromotiva.org/faca-uma-doacao/
Comida com amor: https://www.instagram.com/comidacomamor.covid/

As ações estão rolando, junta-se a elas, seja para ajudar ou para ser incluído no público-alvo das iniciativas. Estamos juntxs.

Maria Clara Parente

É jornalista formada pela PUC-Rio, interessada em iniciativas da economia colaborativa. Protagonista da série Web Colaborativa, terceira colocada no Melbourne Web Fest 2017, na Austrália, na categoria não-ficção internacional.

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