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Veja o que já enviamosUma viagem no tempo (de ônibus) até a Ilha do Governador
Lembranças e conversas num lugar cercado de memória por todos os lados
Com a memória já meio embaralhada pelo excesso de lembranças nestas últimas semanas, embarco numa viagem no tempo, levando comigo vastas emoções e alguns pensamentos imperfeitos. O veículo para este transporte ao passado parece o mesmo de 40 anos atrás: um ônibus – talvez um tanto mais moderno, até com ar condicionado funcionando – da linha Castelo- Zumbi, que me leva novamente do Centro do Rio para a Ilha do Governador para onde se mudara, lá pela aquela metade dos anos 1980, o amigo querido, agora também compadre, a comadre e o afilhado, o primeiro de uma pequena coleção de privilégios afetivos recebidos nesta jornada pela vida.
Foi numa segunda-feira de março, lá se vão 47 anos, que a amizade foi selada: ficamos no bar dentro do campus universitário – após o primeiro dia de aula sem aulas na faculdade – bebendo as primeiras de muitas, vendo ir embora calouros e veteranos, enquanto íamos pulando de assunto em assunto. Nunca mais deixamos o outro beber sozinho: virou um pacto, um mote que repetimos década após década. No sábado final daquele mesmo março, descobri que o já então companheiro de copo e de cruz não gostava muito de comemorações de aniversário – talvez então incomodado com a coincidência da data com a escolhida pela ditadura para festejar o golpe de 1964.


Talvez também fosse março, quando cinco anos depois, o mesmo amigo anunciou a chegada da vida adulta ao comunicar ao parceiro de bebedeiras e madrugadas que ia ser pai – “uma hora, a gente ia ter que virar adulto”, sentenciou para amenizar o meu espanto. Com o nascimento do primeiro filho do casal, virei padrinho – e a prima da comadre, madrinha – sem qualquer solenidade e menos ainda batizado. A nova família se mudou para a Ilha do Governador e, para lá, mudaram-se também os encontros.
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Veja o que já enviamosLeu essa: Baía de Guanabara assiste a decadência do transporte por barcas
Há 40 anos, a casa deles na Praia da Bandeira não tinha telefone e nem sempre era possível combinar as coisas durante a semana (sim, moçada do século 21, houve um tempo em que celulares não existiam). Mesmo assim, foram muitos os sábados e os domingos, durante seis ou sete anos, a partir daquela segunda metade dos anos 1980, que entrei num ônibus da linha Castelo-Zumbi sem saber se encontraria os compadres em casa. Quase sempre estavam; como geralmente acontece com as famílias com um filho pequeno – e depois dois.
Na casa da Praia da Bandeira, tomei cerveja na varanda com o amigo, fui escalado para tarefas domésticas pela comadre, brinquei com o afilhado no quintal e peguei o novo bebê no colo – anos depois, ele me escalaria para padrinho, com a mesma prima de madrinha; éramos (somos) da família. Na casa da Praia da Bandeira, dormi por vezes no sofá já que os ônibus escasseavam à noite. Amanheci ali naquele réveillon do Bateau Mouche, quando, para alívio da minha alma de ressaca, trabalhava na editoria de esportes do JB e estava de folga.
Vou me perdendo pelos labirintos da memória enquanto tento reconhecer pegadas deste passado nas curvas que o ônibus faz agora pelas ruas da Ilha do Governador, chamada por muito tempo de o primeiro bairro do Rio. Maior ilha da Baía de Guanabara, era ocupada pelos indígenas temiminós que viviam em guerra com seus rivais tupinambás quando aqui chegaram os colonizadores europeus. Lá no século 16, os tupinambás se aliaram aos franceses, muito interessados nesta estratégica baía do lado de cá do Atlântico, e aproveitaram para expulsar os temiminós que, abrigados no Espírito Santo, naturalmente, ficaram ao lado dos portugueses, quando eles apareceram por aqui para retomar a região que era sua pelos tratados imperialistas de então.
Não ficaram os temiminós com a ilha – o então governador-geral do Brasil, Mem de Sá, deu a maior parte do território ao seu sobrinho Salvador Côrrea de Sá, depois duas vezes governador da capitania do Rio de Janeiro. A ilha passou a ser “do governador” e o líder dos combatentes temiminós, Arariboia, ganhou terras do outro lado da Baía, onde fundou Niterói com os remanescentes de sua etnia. Durante quatro séculos, a Ilha do Governador foi habitada por poucos – tinha menos de seis mil moradores no começo do século 20. As terras foram ocupadas por grandes engenhos de cana-de-açúcar – o governador tinha o maior deles – e depois por propriedades agrícolas menores (frutas, verduras, mandioca, milho) ou para a criação de gado; haviam casas de veraneio à beira-mar, para aproveitar as águas ainda limpas da Baía de Guanabara.
Até meados do século 20, só era possível chegar à ilha pelo mar. Ou pelo ar: em 1923, foi inaugurado o Centro de Aviação Naval, unidade da Marinha – depois Base de Aviação Naval, que, no começo dos anos 1940, passaria a ser administrada pela recém-criada Força Aérea Brasileira e chamada de Base Aérea do Galeão (essa área, Galeão, da Ilha, foi assim batizada porque ali foi construído pelos portugueses, ainda no século 17, o então maior navio do mundo, o Galeão Padre Eterno – mas isso, definitivamente, é outra história). Foi em 1949, quando foi construída a ponte ligando à Ilha do Governador ao continente, que a urbanização e o adensamento populacional entrou em ritmo acelerado. De acordo com o Censo 2022, a ilha tem hoje quase 200 mil habitantes.


Desembarco do ônibus tentando retomar o caminho das boas lembranças daquele tempo, mas a vista do presente não ajuda a ativar a memória. A casa da Praia da Bandeira não existe mais: edifícios foram tomando conta da orla do bairro. Abro novo parêntesis. A Praia da Bandeira é um bairro, talvez o único do Rio com “praia” no nome – a Ilha do Governador era um bairro só até 1981, quando foi desmembrada em 14 bairros. Fechado o parêntesis, reconheço as escadinhas que dão na pequena faixa de areia da praia. Nas águas ainda poluídas, somente barcos de pescadores – só o mar não parece ter mudado.
Na caminhada pela orla até o Zumbi para embarcar de volta no ônibus, vou revisitando momentos da longa amizade em outras casas, outros bairros, outros bares e até outra cidade. O quiosque Lá na Rosi, nova estrela da gastronomia da Ilha do Governador com seu cachorro-quente de polvo, está ainda fechado nesta tarde e somos obrigados a tomar uma num botequim qualquer. Lembro: um nunca deixou o outro beber sozinho.
E falamos dos afilhados já adultos, da filha caçula dele, das nossas amadas, dos parceiros, dos labirintos da vida, da passagem avassaladora do tempo que agora me permite andar de graça na linha Castelo-Zumbi. Essas conversas talvez tenham ficado mais estranhas para os outros nos últimos 10 marços. Mas aqui, nessa ilha cercada de memórias por todos os lados, ninguém repara.
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