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Salgueiro: nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente. Até na rainha da bateria

Memórias carnavalescas de uma escola de samba radicalmente carioca

ODS 11 • Publicada em 10 de fevereiro de 2026 - 08:37 • Atualizada em 10 de fevereiro de 2026 - 10:19

Eu ainda não tinha completado 10 anos quando meu avô Gastão morreu, mas guardo muitas memórias infantis com ele, que me levava à praia e a jogos de futebol. E também gostava de assistir desfiles de escolas de samba na TV, ainda nos primórdios das transmissões lá no fim da década de 1960. Meu avô adorava passistas e bateria do Salgueiro e as pistas da memória apontam que foi ele quem me ensinou o lema da escola: “Nem melhor, nem pior; apenas uma escola diferente”.

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O general Gastão admirava e torcia pelo Salgueiro e passou a paixão ao filho e ao neto. Foi ele quem me deu um compacto (disco de vinil com apenas duas músicas, uma de cada lado) com o samba Bahia de Todos os Deuses, do desfile do Salgueiro campeão de 1969, que vi pela TV ao lado dele no seu apartamento em Copacabana. Acompanhei de longe e sempre pela TV, mas com orgulho adolescente, as façanhas do Salgueiro, campeão do Carnaval de 1971, 1974 e 1975.

Cena carioca no desfile do Salgueiro: nem melhor, apenas uma escola diferente (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil - 14/02/2016)
Cena carioca no desfile do Salgueiro: nem melhor, apenas uma escola diferente (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil – 14/02/2016)

Quando estreei na cobertura jornalística na Marquês de Sapucaí, um ano antes da construção da Passarela do Samba, já sabia muito mais sobre o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro e porque os salgueirenses se orgulhavam daquele lema – nem melhor, nem pior; apenas uma escola diferente. Sabia que o Salgueiro tinha revolucionado os desfiles ao trazer artistas de formação acadêmica para o samba, responsável pela criação nos barracões da escola de uma dinastia de carnavalescos: Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Maria Augusta, Max Lopes, Joãozinho Trinta, Rosa Magalhães. Sabia que o Salgueiro tinha colocado sangue negro nos enredos desde Zumbi dos Palmares em 1960, que foi a primeira escola a homenagear uma mulher no enredo (Xica da Silva, 1963), que levou a primeira ala de passado marcado, coreagrafada por Mercedes Batista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal.

Só aprendi depois, nos livros do grande salgueirense Haroldo Costa, que o lema – “Nem pior nem pior; apenas uma escola diferente” – não tinha relação com essas inovações surgidas a partir da década de 1960. Foi criado por Nelson Andrade, presidente da escola, ainda nos fins dos anos 1950, quando a Acadêmicos do Salgueiro – que desfilou, pela primeira vez em 1954, fruto da união de três agremiações menores do Morro do Salgueiro, na Tijuca – ficou em quarto lugar em quatro desfiles consecutivos. Apesar de algumas exibições elogiadíssimas, parecia impossível desbancar as multicampeãs Portela e Mangueira e o então gigante Império Serrano. Nelson Andrade – comerciante, dono de uma peixaria e um entreposto de pesca, primeiro “patrono” da escola – colocou o slogan na bandeira do Salgueiro para o desfile de 1958.

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Nos meus 20 e pouco anos de cobertura quase ininterrupta dos desfiles na Passarela do Samba, só vi o Salgueiro ser campeão uma vez – mas a escola quase sempre vinha fiel ao seu lema de ‘nem melhor nem pior’, mas diferente. Era uma bateria diferente, a Furiosa, um show; aulas de harmonia e evolução, heranças dos tempos do grande Laíla, antes de se transferir para a Beija-Flor, enredos inspirados, muitos de matrizes africanas, marca de sua história, uns tantos sobre o Rio de Janeiro, sinal da carioquice explícita de raízes tijucanas.

E, com o Carnaval das escolas de samba virando espetáculo milionário e midiático, o Salgueiro resistiu durante duas décadas a ter uma beldade à frente de sua famosa bateria. As “rainhas” viraram marca do desfile de celebridades no “novo” (inaugurado em 1984) sambódromo da Marquês de Sapucaí. Monique Evans, Luma de Oliveira e Luiza Brunet, estrelas das passarelas e das capas de celebridades abriram caminho para que cada escola de samba passasse a ter uma mulher bonita – célebres em geral, mas também algumas passistas com mais raízes no samba – à frente da bateria, como rainha ou madrinha, o nome, no começo, variava.

Viviane Araújo, com seu tamborim, na estreia como rainha de bateria no Salgueiro em 2008, e em 2022, desfilando grávida à frente da Furiosa (Fotos: Reprodução/Instagram e Douglas Shineidr/Riotur)
Viviane Araújo, com seu tamborim, na estreia como rainha de bateria no Salgueiro em 2008, e em 2022, desfilando grávida à frente da Furiosa (Fotos: Reprodução/Instagram e Douglas Shineidr/Riotur)

Menos o Salgueiro que, diferente, resistia. Chegou à virada do século apenas com o casal de porta-bandeira e mestre-sala à frente da Furiosa. Com só um título nos primeiros 20 anos da nova Passarela, o inesquecível desfile Explode Coração, do enredo “Peguei um Ita no Norte”, de 1993, os salgueirenses também se orgulhavam também dessa resistência a essa nova moda do Carnaval, que, por vezes, atrapalhava a evolução das escolas. As rainhas atraíam (ainda atraem) fotógrafos, cinegrafistas, curiosos e todo o tipo de insetos midiáticos atraídos por holofotes.

Portanto, doeu nos corações salgueirenses a notícia que, no desfile de 2004, a Furiosa teria sua primeira rainha de bateria: a loura Ana Claudia Soares, jovem amante do patrono da escola, o banqueiro do bicho Maninho Garcia, casado e com três filhos pequenos. Não deu liga, naturalmente, entre a bateria e sua suposta rainha. Ana Claudia não voltou – Maninho foi assassinado em outubro de 2004 – mas essa diferença entre o Salgueiro e outras escolas acabou: em 2005, a atriz Carol Castro estava lá, como rainha, à frente da Furiosa.

Mas, para orgulho dos salgueirenses, até rainha de bateria acaba sendo diferente na academia do samba: em 2008, antes de passar oito carnavais consecutivos em Salvador, vi o Salgueiro passar, com a estreia à frente da Furiosa de uma moça bonita que não apenas sambava com mais desenvoltura do que a maioria, mas ainda tocava tamborim. A carioca Viviane Araújo já era conhecida como dançarina e modelo; tinha sido “Garota do Fantástico” em 1994. Numa época de disputa pela posição, era comum a rainha mudar de escola. Mas Viviane ficou no Salgueiro: em 2026, serão 18 anos à frente da Furiosa, atualmente a rainha mais longeva do Carnaval Carioca. Desfilou até grávida na frente da escola.

Comissão de Frente do Salgueiro para o Carnaval 2026: homenagem à carnavalesca carioca Rosa Magalhães (Foto: Rio Carnaval)
Comissão de Frente do Salgueiro para o Carnaval 2026: homenagem à carnavalesca carioca Rosa Magalhães (Foto: Rio Carnaval)

No primeiro desfile de Viviane como rainha da bateria, o Salgueiro veio com o enredo “O Rio de Janeiro continua sendo”, um desfile de amor à cidade com referências ao Pão de Açúcar, ao Jardim Botânico, à Praça Mauá, a Lapa. Essa alma carioca faz parte da história da escola, campeã do IV Centenário do Rio, em 1965, “História do Carnaval Carioca – Eneida”, uma viagem carnavalesca inspirada no livro da jornalista, cronista, pesquisadora e salgueirense Eneida de Moraes, que seria ela mesmo enredo em 1973.

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Também foram inspiraram enredos do Salgueiro a “Praça Onze, carioca da gema” (1970), a coirmã “Minha Madrinha, Mangueira Querida” (1972), o próprio “Rio de Janeiro” (1981) e sua história desde a chegada de Estácio de Sá, o próprio carioca no “Rio de lá para cá” (1994), o “Rio no Cinema (2011)”, os malandros cariocas em “A ópera dos malandros” (2016). Na minha estreia na Marquês de Sapucaí, em 1983, o enredo “Traços e Troças” era sobre a caricatura mas com a marca da cidade desde o samba. “Eu sou o Rio / e rio à toa / só rio do que me impede de sorrir”.

Na minha memória salgueirense, porém, nenhum enredo foi tão carioca como “Me Masso se Não Passo pela Rua do Ouvidor”, desenvolvido pela carioca Rosa Magalhães sobre a mais carioca das ruas, para um lindo desfile, vice-campeão do Carnaval de 1991. Neste 2026, é a própria Rosa, a homenageada pelo enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, com a mesma pegada carioca e a mesma inspiração do slogan da escola. “Ô, lê, lê! Eis a flor dos amanhãs / A 10ª estrela brilha em Rosa Magalhães / Onde o samba é primavera, que floresce em fevereiro / Nem melhor, nem pior… Salgueiro!”

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