#RioéRua – Fachada de antigo cinema ressurge no Leblon

A fachada do Cinema Leblon reaparece na esquina, com seu prédio comercial acoplado: esperança de mais um cinema de rua na cidade (Foto: Oscar Valporto)

Sala tradicional da Zona Sul reaparece no cenário carioca e inspira uma viagem nostálgica pelos cinemas de rua da cidade

Por Oscar Valporto | ODS 11 • Publicada em 31 de agosto de 2020 - 08:31 • Atualizada em 31 de agosto de 2020 - 10:13

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A fachada do Cinema Leblon reaparece na esquina, com seu prédio comercial acoplado: esperança de mais um cinema de rua na cidade (Foto: Oscar Valporto)

Como sabem aqueles que acompanham este #RioéRua, estou confinado aqui no bairro há praticamente cinco meses, circulando somente a pé. Mesmo assim, agora que as autoridades deixaram de dar a devida atenção à pandemia – seguindo a orientação presidencial – e o movimento vai voltando ao normal, é possível ser surpreendido por mudanças no cenário. Dias atrás, reencontrei a fachada do Cinema Leblon, coberta há pelo menos quatro anos por tapumes. Além do cinema, a retirada de partes dos tapumes deixou á vista também o prédio comercial de sete andares, com projeto do recentemente falecido arquiteto André Piva. O compromisso para o destombamento do imóvel em estilo art-decó era que o que o Leblon voltaria a ter seu cinema de rua, fechado desde 2014. A vista da fachada dá esperança que o compromisso seja cumprido e uma velha tradição da cidade ganhe um alento.

Quando comecei a ir ao cinema na década de 1960, todos os cinemas eram de rua – o único shopping da cidade era o Shopping do Méier, aberto em 1963 e que até hoje não tem cinemas. O Rio de Janeiro tinha, na chegada dos anos 1970, quase 200 cinemas. O Cinema Leblon é de 1951, quando a cidade já havia passado por duas febres cinematográficas: a primeira na virada do século 19 para o século 20 quando apareceram os primeiros cinematógrafos em salas improvisadas; a segunda, a partir de 1920, quando as salas se multiplicaram na área que até hoje tem o nome de Cinelândia.  Parisiense, Pathé, Odeon, Cineac Trianon, Império, Capitólio, Rex, Rivoli (depois Orly), Vitória, Palácio, Plaza, Colonial.Alhambra, o Metro Passeio (depois Boavista): só nesta lista, provavelmente incompleta, estão 13 cinemas da região. Cheguei a ver fil mes na j uventude em pelo menos metade deles. Hoje, o Odeon é o único sobrevivente; a fachada do Pathé, de 1907, está lá, mas abriga um tempo evangélico. Também sobreviveu a bela fachada de arquitetura neomourisca do Palácio, sala de mais de 1200 lugares que hoje abriga o Teatro Riachuelo.

O clássico Odeon, inaugurado em 1926: sobrevivente solitário na Cinelândia (Foto: Divulgação/Festival Varilux)
O clássico Odeon, inaugurado em 1926: sobrevivente solitário na Cinelândia (Foto: Divulgação/Festival Varilux)

Os cinemas de rua alimentavam a vida na cidade: a Cinelândia era o coração da vida noturna na cidade até meados dos anos 1950. O eixo cinematográfico, sempre na rua, mudou para os dois lados da cidade. Os cinemas também faziam parte da alma de Copacabana, onde chegaram a funcionar mais de 10 cinemas entre 1960 e 1980: Copacabana, Cinema 1 (antes Paris), Metro, Roxy, Art-Palácio, Condor, Rian, Bruni, Caruso, Ritz (antes Atlântico), Ricamar, Joia, Cinema 2 (antes Riviera), Holiday e Alaska. Do outro lado do túnel, a Tijuca era chamada de Cinelândia da Zona Norte pela concentração de cinemas em torno da Praça Saens Pena, alguns das mesmas redes da Zona Sul como Metro, Art e Bruni; mas também Carioca, América, Tijuca, Madrid, Olinda, Rio, Comodoro, Tijuca Palace. Havia concentrações de cinemas também em Botafogo e na área de Largo do Machado e Catete.

O ocaso dos cinemas de rua na Tijuca - o Carioca (esquerda) abriga um templo religioso, o América virou uma farmácia (Foto: Oscar Valporto)
O ocaso dos cinemas de rua na Tijuca – o Carioca (esquerda) abriga um templo religioso, o América virou uma farmácia (Foto: Oscar Valporto)

Quando os anos 1980 chegaram e, com eles, os primeiros shoppings da cidade, o processo de decadência dos cinemas já havia começado. Cinemas dos subúrbios da Zona Norte vinham desaparecendo desde a década anterior: Vaz Lobo, Irajá (outro que virou templo e teve a fachada preservada), Santa Cecília (em Brás de Pina), Vista Alegre, Guaraci (Rocha Miranda), Cachambi, Caiçara (Bento Ribeiro), Olaria, São Pedro (Penha),  Vista Alegre, Novo Horizonte (Coelho) e os cinemas das redes Bruni e Art no Méier. Igrejas evangélicas, farmácias e agências bancárias avançaram sobre os imóveis dos cinemas conforme a especulação imobiliária e a falta de segurança na cidade iam confinando os apaixonados por filmes em salas cada vez menores – muitas foram divididas antes de sucumbir – e dentro dos shoppings.

O prédio do Cine Irajá, mais um cinema que cedeu lugar a uma sede da Universal (Foto Oscar Valporto)
O prédio do Cine Irajá, mais um cinema que cedeu lugar a uma sede da Universal: decadência dos cinemas de rua começou pela Zona Norte (Foto: Oscar Valporto)

Para quem costumava emendar um filme no outro, com um chope entre eles,  35 anos atrás, é triste ver que o Carioca – outro tombado com fachada preservada virou igreja e o vizinho América é agora uma farmácia. É melancólico andar na mesma calçada de Copacabana onde haviam três cinemas quase vizinhos e lembrar que os cinemas da rede Metro e Art deram lugar a lojas de departamentos e o Copacabana virou uma academia de ginástica. Cinema de shopping não tem a mesma graça: quem acha as cadeiras confortáveis não conheceu o Metro Boavista. Só não é mais sem graça do que bar de shopping. É sintomático que a Barra da Tijuca, o bairro dos shoppings e dos automóveis, concentre o maior número dos cinemas – 10, 12, 16 nos seus complexos.

O Cine Santa funciona em sobrado: resistência de um clássico cinema de bairro (Foto: Divulgação)
O Cine Santa funciona em sobrado: resistência de um clássico cinema de bairro (Foto: Divulgação)

Hoje talvez seja possível contar nos dedos os cinemas de rua: o glorioso Roxy, inaugurado em 1938 com 1620 lugares e hoje dividido em três; as simpáticas salas do Grupo Estação: o pioneiro Estação Botafogo, com três salas, que ocupou o lugar do Capri, um clássico poeira da cidade, o Estação Rio, com cinco salas, no lugar do Cine Botafogo, especializado em filmes pornográficos, e o Ipanema; os cinemas Artplex, na galeria da Praia de Botafogo na área ocupada na minha juventude, pelo Coral e o Scala; o histórico e quase centenário Odeon, pérola da Cinelândia, inaugurado em 1926; os pequenos e resistentes Cine Santa, num sobrado em Santa Teresa, Joia, no subsolo de uma galeria em Copacabana, e Ponto Cine, especializado em cinema nacional, em Guadalupe, na Zona Norte.

Pode ser que os cinemas de rua não tenham futuro e essas salas queridas do parágrafo anterior não durem muito. Cinemas, em geral, talvez não tenham mesmo futuro no mundo pós-pandemia. E cinemas de shoppings? Lugares fechados dentro de outro lugar fechado: não parece saudável. Seja como for o futuro, neste agosto de pandemia, na capital com a maior letalidade pela covid-19 do Brasil, foi bom ver ressurgir a fachada antiga de um cinema de bairro e de rua a quatro quarteirões de casa.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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