#RioéRua – As novas faces dos protestos

Jovens negros em manifestação contra o racismo e em defesa da democracia no Rio de Janeiro: protestos de cara nova (Foto: Carl de Souza/AFP)

Muitos manifestantes contra o racismo e em defesa da democracia já enfrentam diariamente a exposição à covid-19 e a violência policial

Por Oscar Valporto | ODS 11ODS 16 • Publicada em 15 de junho de 2020 - 10:34 • Atualizada em 15 de junho de 2020 - 10:40

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Jovens negros em manifestação contra o racismo e em defesa da democracia no Rio de Janeiro: protestos de cara nova (Foto: Carl de Souza/AFP)

Não fui às manifestações contra o racismo e a favor da democracia que vêm ocupando as ruas das cidades brasileiras nas últimas semanas. Sou quase, quase, um grupo de risco ambulante. Tenho quase 60, sou quase obeso, a diabetes 2 está sob controle; não convém facilitar. E acredito que isolamento social é a prevenção mais eficaz para me poupar da covid-19 enquanto não houver vacina ou remédio: máscara não salva. Não evito a rua – mas, infelizmente, tenho ficado longe das aglomerações e do transporte público, integrantes da minha rotina anterior. Vi que apareceram críticas aos manifestantes por razões sanitárias. Não compartilho delas; entendo quem não foi – pelas minhas razões ou por outras – mas entendo muito bem quem decidiu ocupar a rua em protesto, mesmo colocando em risco saúde, mesmo ameaçado pela violência policial.

Imagens e relatos apontam para uma renovação de manifestantes: uma grande maioria de jovens, uma forte presença de negros, uma significativa parcela – talvez também maioria – feminina. Posso estar enganado, mas creio que muitos vieram dos subúrbios, das periferias, das favelas. Estão refletidos nas fotos dos entregadores pela democracia: quando a pandemia começou a alarmar o Brasil inteiro e os privilegiados – e até alguns nem tanto – se preservavam no home office, os precarizados trabalhadores do Ifood, do Uber Eats, do Rappi e de outros serviços de entrega eram figuras praticamente solitárias com suas motos e bicicletas, muitas alugadas, pelas ruas da cidade. Eram o retrato de quem não podia se proteger do avanço da doença.

Entregador atira pedra na polícia durante ato em São Paulo: protesto de quem está em risco permanente (Foto: André Ribeiro)
Entregador atira pedra na polícia durante ato em São Paulo: protesto de quem está em risco permanente (Foto: André Ribeiro)

Para eles, o risco do contágio vem sendo permanente. O risco no protesto é só mais um nesse pandemônio da pandemia no Brasil: como também é para todos os trabalhadores de serviços essenciais – dos mal pagos técnicos de enfermagem aos ignorados motoristas de ambulâncias, dos garis e funcionários de serviços de limpeza às empregadas domésticas e porteiros; dos empregados em mercados e padarias a motoristas e outros condutores do transporte público. Como também estão se arriscando os milhares – e cada vez mais milhares – de trabalhadores informais, com a renda dizimada pelas medidas restritivas para o combate da covid-19. Todos eles estão em risco permanente – à mercê de um governo incompetente, incapaz de liderar ou coordenar qualquer ação sanitária, com evidente desprezo pelos mais pobres e chefiado por um presidente cruel e covarde. Protestar nas ruas contra os desmandos e as arbitrariedades do governo é só um risco a mais de quem se arrisca diariamente.

Como também para outros tantos manifestantes – muitos jovens, muitos negros, muitos das favelas ou das periferias – o risco da violência policial também faz parte do cotidiano. Estão acostumados a serem acordados com tiros na vizinhança, a sofrerem pelos filhos e irmãos a caminho da escola em meio ao tiroteio, a apanharem quando protestam contra mortes nas comunidades. Em alguns casos, sofrem dupla violência: ficam entre pressão do opressor local, milicianos ou traficantes, e do estado opressor, personificado pela polícia, quase sempre despreparada, quase sempre mal paga, quase sempre exageradamente armada. Eles correram o risco de ocupar as ruas e enfrentar a polícia também porque já estão acostumados a enfrentar, nas ruas, os diversos tipos de repressão social e policial.

Houve quem reclamasse – principalmente entre os fãs de manifestos e notas de repúdio – da presença de torcidas organizadas de times de futebol, habitual refúgio de espertalhões e vândalos. Os ingleses já mostraram o caminho para enfrentá-los: prender, processar e condenar bandidos e arruaceiros. Ficam os torcedores que continuam, na Inglaterra, a lotar estádios. Aqui são torcedores – em inédita união entre rivais das arquibancadas – ajudando a lotar as ruas para ofuscar os atos fascistas e governistas com suas pautas contra a democracia e a diversidade. Nestes atos a favor do vírus, do verme e da morte, os manifestantes têm outro perfil – são quase todos brancos, quase todos homens, grande parte de meia idade.

Eu, que tanto gosto da rua, temo e torço por aqueles que estão lá, correndo riscos para gritar “racismo não”, “democracia” e “fora, Bolsonaro”. Este desastroso governo e seu mentecapto presidente ainda vão causar muitas mortes e prolongar o drama desta pandemia. Mas vai passar e a gente vai se encontrar. Nas ruas.

#RioéRua

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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