Rio Beberibe: entre Recife e Olinda, cada margem sofre de um jeito com a poluição

Na beira do rio poluído e no Morno, seu principal afluente, encontramos Israel, que não sonha e faz “ôia” para sobreviver ao lado de uma ponte improvisada, e Leke, que vende coxinhas e quer uma carreira na política

Por Victor Moura | ODS 11 • Publicada em 15 de junho de 2021 - 08:21 • Atualizada em 23 de junho de 2021 - 09:14

Recife Antigo: região de confluência onde o Rio Beberibe encontra o Capibaribe | Foto de Bruno Lima/MTur

Recife Antigo: região de confluência onde o Rio Beberibe encontra o Capibaribe | Foto de Bruno Lima/MTur

Na beira do rio poluído e no Morno, seu principal afluente, encontramos Israel, que não sonha e faz “ôia” para sobreviver ao lado de uma ponte improvisada, e Leke, que vende coxinhas e quer uma carreira na política

Por Victor Moura | ODS 11 • Publicada em 15 de junho de 2021 - 08:21 • Atualizada em 23 de junho de 2021 - 09:14

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Pedalando morosamente, estava a beiradejar o Rio Beberibe, entre Recife e Olinda, duas cidades-irmãs e vizinhas. Ao contrário do Capibaribe, que corta bairros nobres, o Beberibe corre pela periferia da capital  pernambucana e acolhe em sua ampla maioria populações pobres.

De manhã, apesar do vento generoso, fazia calor. Nem sequer tinha começado a reportagem e a máscara ameaçava suar. Para piorar, nos arredores havia pequenos montes de areia. No chão batido e pelo ar, poeira e mais poeira. Quem agitava tudo isso eram máquinas e funcionários de uma construtora autorizada pela Prefeitura do Recife. Aos poucos, estão erguendo muros de arrimo, pavimentando ruas, fortalecendo calçadas, implementando o esgoto sanitário e drenando o rio, que tem um histórico de inundações na região.

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O curioso é que todas essas melhorias são apenas de um lado do leito, o do Recife. A outra margem depende da Prefeitura de Olinda. Ainda há muito a ser feito. E não há previsão de término. Desde 2007 o PAC Beberibe (I e II) vem avançando a passos de tartaruga. Das oito obras referentes à Bacia do Beberibe, apenas uma possui o status de concluída no site do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento). Somados, os investimentos se aproximam dos R$ 700 milhões. Aproximadamente 600 mil pessoas vivem na Bacia do Beberibe, a maior concentração de baixa renda na Região Metropolitana do Recife.

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Ao pedalar por um pequeno trecho de apenas três quilômetros, da Praça da Convenção em Beberibe, bairro homônimo ao rio, ao Campo do Passarinho mais ao norte, a desigualdade enche a vista. Do lado recifense, já não há moradores na margem fluvial e as obras de infraestrutura, embora atrasadas, ocupam a rua. Do lado olindense nada está sendo feito. E se amontoam casas e pessoas em situação de precariedade. Para ambos os casos, o meio ambiente, que não se sujeita a divisas, continua farto de entulhos, lixo e bichos que pelo lixo são atraídos. Por vezes, Recife e Olinda se confundem. Elas compartilham o aniversário, em 12 de março. Compartilham a história, a cultura e o turismo. Compartilham o colorido do Carnaval, mas também o cinza da Bacia do Beberibe, suas mazelas explícitas e pontes invisíveis.

Israel em uma ponte improvisada sobre o Rio Beberibe, na divisa entre Recife e Olinda | Foto de Victor Moura
Israel em uma ponte improvisada sobre o Rio Beberibe, na divisa entre Recife e Olinda | Foto de Victor Moura

Israel, trabalhador informal, convive com o desequilíbrio ambiental nas duas margens do Rio Beberibe

Sobre uma dessas pontes, encontrei Israel Fernandes da Silva, de 18 anos. Naquela manhã, enquanto ouvia rap bem alto, ele estava “fazendo uma ôia” ajudando a construir o quarto da filha do vizinho. Em Pernambuco, “fazer uma ôia” equivale a “fazer um bico”, um trabalho informal e paralelo. Aos sábados e domingos, Israel toma conta de um estacionamento de carros e, também, é atendente de um bar à beira-mar da Praia de Casa Caiada, em Olinda.

Ele trabalha desde os 13 anos, quando parou de estudar no 9º ano do ensino fundamental. “Já trabalhei em mercado, pegando frete, de barman, no carnaval, no sinal, na rua vendendo pipoca, água, salada de frutas… Já fiz de tudo já”, sintetiza a própria trajetória. Caçula de cinco irmãos, Israel cresceu sem a presença paterna na comunidade do Quilombo, no bairro de Beberibe, Zona Norte do Recife. A feira livre, as pontes e o Rio Beberibe o acompanham desde a infância. Em 2018, sua família foi para Passarinho, Olinda. O irmão mais velho havia comprado um terreno na localidade. Mais tarde nesse mesmo ano, o primogênito, então com 26 anos, acabou assassinado por arma de fogo na véspera de Natal. Ele deixou dois meninos, na época com 4 e 3 anos. O mais novo também tem o nome de Israel.

Hoje, além de tio, o recém-chegado à maioridade também se considera pai. E diz que está sempre cuidando dos dois sobrinhos, que moram junto à família e distante da mãe. Usuária de drogas, ela perdeu a guarda para a avó paterna das crianças. “A gente comprou uma televisão, botou internet e agora os meninos estão entretidos”, comenta em relação ao fechamento das escolas durante a pandemia e a falta de espaços públicos de lazer na região.

O povo foi botando placa, pneu, gastando cimento. Eles mesmos desenrolaram a ponte

Israel Fernandes da Silva
morador da beira do Beberibe

Falta muita coisa na região. As casas não têm número, a iluminação das ruas e becos é feita pelos próprios moradores e até mesmo a ponte que une as duas cidades-irmãs é improvisada. “O povo foi botando placa, pneu, gastando cimento. Eles mesmos desenrolaram a ponte”, diz. Às margens do Beberibe, quando chove, o rio inunda, o chão fica enlameado e Israel precisa sair se pendurando para não sujar a roupa. Mesmo morando entre a Reserva Ecológica de Dois Unidos (Recife) e a Reserva de Floresta Urbana Mata do Passarinho (Olinda), duas unidades de proteção ambiental, ele convive de perto com a falta de equilíbrio ambiental.

Oito pessoas, dois animais, uma casa e nenhum sonho

Na casa de Israel moram oito pessoas, um gato e um cachorro. A mãe e o padrasto trabalham de diarista e gari, respectivamente. Para tirar um cartão de crédito, precisam colocar o endereço de familiares, pois o a residência oficialmente não existe. Para pegar um uber tem que ser até no máximo as 19h, pois para além deste horário os motoristas costumam cancelar a viagem. “Fica dando área vermelha, bagulho de perigo, tá ligado, não?”, relata.

Perguntei se ele tinha algum sonho, porque todo mundo tem sonhos. Mas ele, direto e seco, disse que não. Em seguida, reperguntei para fins de certeza, porém a resposta continuou a mesma. Israel não sonha, mas quer um dia poder voltar a estudar. Israel não sonha, mas quer tão cedo ver as margens do rio cheias não de mato e lixo, e sim de boas oportunidades para si e para todos que aqui vivem. Enquanto isso, junto à família e entre um bico e outro, ele segue lutando contra os abismos de duas cidades unidas na desigualdade.

Cachorro em ponte improvisada sobre o Morno, afluente do Rio Beberibe | Foto de Victor Moura
Cachorro em ponte improvisada sobre o Morno, principal afluente do Rio Beberibe, na Zona Norte do Recife | Foto de Victor Moura

Em uma comunidade do Morno, afluente do Rio Beberibe, moradores cuidam das ruas

Dias depois, num domingo bem cedinho, desci a ladeira em direção ao bairro da Linha do Tiro, Zona Norte do Recife, poucos metros antes do encontro dos rios Morno e Beberibe. O Morno, principal afluente do Rio Beberibe, corta diversas comunidades no norte do Recife e raríssimas vezes é lembrado pela Veneza brasileira. Ao pedalar pela margem, observei placas de conscientização ambiental, calçadas elevadas para mitigar inundações e uma ou outra ponte improvisada. Em determinados trechos, casas e muros impedem o acesso ao rio, que corre espremido entre morros em uma área de alta densidade populacional.

Há trechos mais poluídos, outros menos. Tudo bem aquém do ideal. Até que em Brejo de Beberibe, após o Mercado Público de Nova Descoberta, na Zona Norte, a situação piora bastante. A água ganha tons esverdeados. E o lixo, antes coprotagonista, decide tomar de vez o controle da cena. O nível de poluição é assustador. Em 2021, a prefeitura estima gastar R$ 10,5 milhões com a limpeza de canais e rios canalizados como o Morno. Segundo o Instituto Trata Brasil, estima-se que nem metade do Recife tenha coleta de esgoto sanitário. Apenas 43,96% da cidade. Sem saneamento a situação socioambiental não vai mudar.

Leke da Coxinha perto de casa em uma ponte sobre o Morno, afluente do Rio Beberibe | Foto de Victor Moura
Leke da Coxinha perto de casa em uma ponte sobre o Morno, afluente do Rio Beberibe | Foto de Victor Moura

Leke da Coxinha quer criar uma associação de moradores no Rio Morno

Àquela altura da manhã, por volta das 9h, eu já tinha proseado brevemente com várias pessoas ao longo do percurso. Daí optei por conversar mais a fundo com algum morador daquela comunidade em formação. A rua em si sequer tem um nome. A mais próxima está registrada como SD 9211. Encontrei Alexsandra Marinho, de 38 anos, ainda com cara de sono, sentada na calçada. Alexsandra é o nome de Leke da Coxinha, educadora social formada em RH.

Nascida e criada no Morro da Conceição, Leke se estabeleceu nessa margem do Rio Morno há três anos, quando tudo aqui ainda era barro. Ela ajudou a pintar, iluminar, calçar… Tudo na base da “cotinha”, em que cada um dá uma pequena quantia. “Quando você constrói, você se sente protagonista, realizador da história, então você vai valorizar”, diz. Ante a falta de políticas públicas, faz malabarismo. E já que não tem dinheiro, Leke oferece experiência e conhecimento. De postura solícita e visão política, Leke me convidou para conhecer a associação, a qual está se empenhando para inaugurar. Pelo menos por enquanto, é também onde mora. Mas após a reforma, bancada pela proprietária do imóvel, o espaço será da comunidade e Leke vai se mudar para sete ruas à frente.

Quando você constrói, você se sente protagonista, realizador da história, então você vai valorizar

Leke da Coxinha
moradora da margem do Morno

Ela pretende criar uma sala de informática com os cinco computadores que ganhou de um programa de voluntários. Disse que sonha em abrir oficinas: de esportes, de meio ambiente, de geração de emprego e renda, de educação, fomentar a alfabetização e a formação de jovens e adultos. “Para eles venderem pedra e maconha, de dia, mas de noite estarem aqui no curso. Porque do curso, deixe comigo, que eles não vão mais vender pedra mais não. Eu vou dar condições deles saírem com uma bandeja de coxinha”, diz.

Leke vende as coxinhas que com orgulho carrega em seu nome. Com sete assinaturas na carteira, já trabalhou de telefonista, balconista, monitora, educadora social. “Eu não gosto de papel, eu gosto de pessoas”, diz. Durante nossa conversa o portão da casa foi aberto inúmeras vezes. Um vizinho veio prosear. Uma criança, com uma pipa na mão, veio perguntar se ela tinha tesoura. Já outra queria tomar banho no raso da caixa d’água, o que acabou acontecendo. Como tem uma bomba potente, Leke é uma das poucas que dispõe de água nas torneiras de casa. A água é compartilhada com a vizinhança. O portão está sempre aberto.

Às margens do Rio Morno, os sonhos de Leke se inclinam para o coletivo. Mas ela também tem sonhos mais “egoístas”, como visitar o Arquipélago de Fernando de Noronha. Em 2020, tentou pela primeira vez uma vaga de vereadora. Leke saiu candidata pelo Avante e conseguiu 43 votos. Apesar do resultado, ela diz que sua intenção é persistir e trazer melhorias para a periferia, em especial a terra que ocupa, mesmo sem nenhuma garantia de permanência futura. Todos os moradores aqui se encontram de maneira irregular. Vivem sob o risco do despejo. Uma vez ao ano, o rio, que mais parece um canal, é “limpo” pela Prefeitura. Um raro momento em que a comunidade é lembrada como parte da cidade.

 

Victor Moura

Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e dedicado às periferias. Autor do livro-reportagem “Ciclo histórias pelo Recife” e do romance satírico “O primeiro objeto”. No carnaval, o coração se divide entre o frevo e o samba.

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