Óleo misterioso persiste em lago histórico da Quinta da Boa Vista

Vista aérea da Quinta da Boa Vista, um parque com 155 mil metros quadrados que sofre com o abandono. Foto Yasuyoshi Chiba/AFP

Com baixa execução orçamentária, Fundação Parques e Jardins tem dificuldades em gerir um espaço de 155 mil metros quadrados

Por Emanuel Alencar | ODS 11 • Publicada em 19 de setembro de 2020 - 10:57 • Atualizada em 21 de setembro de 2020 - 11:00

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Vista aérea da Quinta da Boa Vista, um parque com 155 mil metros quadrados que sofre com o abandono. Foto Yasuyoshi Chiba/AFP

Antigo endereço da família real, a Quinta da Boa Vista, na Zona Norte do Rio de Janeiro, deixou seu passado portentoso para trás. Sem o Jardim Zoológico – o novo centro, chamado de BioParque, deverá ser inaugurado até julho de 2021 – e com o Museu Nacional fechado, ainda em reforma, o nobre endereço vem sofrendo com abandono. Reiterados episódios de derramamento de óleo em um lago, desde o dia 2 de agosto, expõem a situação de descuido da área de São Cristóvão, cuja responsabilidade é da Prefeitura do Rio, por meio da Fundação Parques e Jardins (FPJ). A região afetada pelo óleo, que coloca em risco peixes e aves, fica nas proximidades do horto mantido pelo Museu Nacional, a poucos metros do Hospital Copa D’Or, na Rua Almirante Baltazar. Até agora não se sabe a origem do poluente.

Episódios de derramamento de óleo no lago começaram no início de agosto. Foto RioÁguas
Episódios de derramamento de óleo no lago começaram no início de agosto. Foto RioÁguas

No primeiro episódio, no início de agosto, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) retirou do lago aproximadamente 40 mil litros de óleo diesel de cor avermelhada e de água oleosa. Mas houve um segundo derramamento, no dia 23 de agosto. Novamente, equipes do Inea deram apoio e orientação à patrulha ambiental da prefeitura. Só que no dia 15 de setembro, o lago, de cerca de 50 centímetros de profundidade, voltou a ser contaminado por óleo e substância com forte odor de esgoto.

“Não para de surgir óleo e a prefeitura ainda não sabe do que se trata, a origem dessa poluição”, resumiu um técnico que esteve no local ao #Colabora.

A RioÁguas deu apoio ao Inea e à Defesa Civil em ações para remediar o estrago. O órgão afirmou que está fazendo uma verificação em todas as saídas de galerias de águas pluviais do local para identificar a possível origem do crime. Em nota, a FPJ informou que as equipes “fizeram a limpeza do córrego, instalação de boias de contenção e desobstrução de bueiros. As boias de contenção seguem posicionadas no córrego da Quinta para evitar que mais material se espalhe pelos lagos do Parque”.

De acordo com o gestor da Quinta da Boa Vista, Walter Nogueira Nasseh, outra possibilidade que vem sendo avaliada é de o despejo ter sido feito por um caminhão, em uma galeria pluvial fora dos limites da Quinta. Toda a concepção paisagística do parque – lagos, cascatas, ilhas, quiosques e simulacros de ruínas – tem assinatura de Auguste François Marie Glaziou, em projeto apresentado a D. Pedro II em 1868. As obras começaram em 1872.

Sem orçamento específico

“Houve casos no passado, poucos, mas esse é o episódio mais recorrente”, lamenta ele, há 11 anos comandando o parque. “Fizemos quatro vistorias, fomos aos poços de visita dos poços de gasolina, aos hospitais, mas não conseguimos detectar as origens. Estamos tentando com Centro de Operações (COR) avaliar se algum caminhão possa estar despejando [o poluente] irregularmente. O quanto mais rápido for resolvido melhor para todo mundo. No passado, os lagos tinham acará e tilápia, então acreditamos que alguns peixes ainda ocorram nos lagos, que são interligados”.

Walter afirma que todos os serviços da Quinta são feitos por órgãos da prefeitura, como Guarda Municipal, Comlurb, Rioluz. Não há um orçamento específico para a unidade. A segurança também não é a mais adequada para cobrir um território de 155 mil metros quadrados: são 3 guardas municipais por turno e uma dupla de policiais. Restrições em tempos de pandemia pelo coronavírus.

A Fundação Parques e Jardins sobrevive, basicamente, para pagar os poucos funcionários que ainda estão por lá. Em 2017, o orçamento final foi de R$ 15,4 milhões. Em 2020, caiu para R$ 13,3 milhões (queda de 13%), segundo dados do gabinete da vereadora Teresa Bergher (Cidadania). A execução orçamentária (liquidação) só ultrapassou os 90% em 2019. Neste ano de 2020 (até 17 de setembro), a FPJ só liquidou R$ 5,9 milhões até agora, menos da metade do orçamento previsto, a três meses do fim do ano.

Emanuel Alencar

Jornalista formado em 2006 pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou nos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo, no qual ficou por oito anos cobrindo temas ligados ao meio ambiente. Atualmente, é editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Tem pós-graduação em Gestão Ambiental e cursa o mestrando em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apaixonado pela profissão, acredita que sempre haverá gente interessada em ouvir boas histórias.

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