Comunidade de Ibicuí da Armada é exemplo de pecuária quilombola e resistência coletiva no Pampa

Foto colorida com várias pessoas reunidas em um semi-círculo no Quilombo Ibicuí da Armada, em Santana do Livramento. As pessoas estão com os braços erguidos e sorriem. Ao fundo, aparece a casa em que fica a agroindústria para apicultura e panificados

Quilombo no interior do Rio Grande do Sul aposta em agroindústria para apicultura e centro de manejo de ovinos e bovinos

Por Micael Olegário | ODS 11
Publicada em 26 de março de 2026 - 09:54  -  Atualizada em 26 de março de 2026 - 11:33
Tempo de leitura: 9 min

Foto colorida com várias pessoas reunidas em um semi-círculo no Quilombo Ibicuí da Armada, em Santana do Livramento. As pessoas estão com os braços erguidos e sorriem. Ao fundo, aparece a casa em que fica a agroindústria para apicultura e panificados
Comunidade celebra inauguração de agroindústria: união entre famílias garante a sustentabilidade do quilombo (Foto: Divulgação)

No Quilombo Ibicuí da Armada, crianças, adultos e pessoas idosas se reúnem para inaugurar uma agroindústria. Os sorrisos transparecem o orgulho da comunidade quilombola que fica na zona rural de Santana do Livramento, interior do Rio Grande do Sul. Com os braços erguidos, os moradores celebram mais uma conquista coletiva

Localizada à cerca de 50 km do centro do município da Fronteira Oeste, a comunidade é formada por 65 famílias, sendo 40 as que residem no quilombo. “A gente tem bastante coisa e somos muito diversificados. Tem uma casa digital aqui na sede e estamos organizando um mini-museu”, destaca Maria Leci.

Presidenta da Associação Remanescente de Quilombo Ibicuí da Armada, Maria Leci vive há 27 anos na comunidade e, atualmente, mora com a filha e três netos. Na conversa por videoconferência com o #Colabora, ela descreve a organização e a diversidade de atividades socioeconômicas no quilombo.

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Além da agroindústria voltada para a produção de mel e de panificados, inaugurada em março deste ano, a comunidade possui um centro de manejo para ovinos e bovinos. A pecuária familiar, aliás, é uma das principais fontes de sustento local, o que vai ao encontro da preservação dos campos nativos do Pampa.

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Criada em 2002, a Associação conseguiu o reconhecimento do território pela Fundação Cultural Palmares em 2009. A comunidade integra a Federação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Rio Grande do Sul (FACQ/RS) e participa do Comitê de Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa.

Foto colorida com vista aérea da agroindústria e de membros da comunidade de Ibicuí da Armada reunidos perto do prédio, pintado de azul com telhado de zinco
Inauguração de agroindústria representa mais uma opção para diversificar as atividades na comunidade (Foto: Divulgação)

Coletividade e resistência

As comunidades quilombolas do Pampa nasceram a partir da resistência da população negra que trabalhava como mão de obra escravizada nas grandes estâncias de gado e nas charqueadas. 

Organizados em uma lógica coletiva, esses quilombos contribuíram para a formação identidade gaúcha, além de praticar uma forma equilibrada de habitar o bioma. A união da comunidade de Ibicuí da Armada é uma das maneiras de driblar desafios logísticos e um contexto de invisibilidade histórica.

A soja é uma coisa que tomou conta de tudo. A gente tem vizinho aqui que tinha pomar orgânico, que a gente sabe que já não é mais orgânico, porque o avião passa todo dia colocando veneno por cima

Maria Leci
Presidenta da Associação Remanescente de Quilombo Ibicuí da Armadau

Maria Leci explica que todas as decisões no quilombo são tomadas coletivamente. Da mesma forma, as ações comunitárias são divididas em grupos específicos de trabalho, por exemplo, para a vacinação e venda dos rebanhos, para a apicultura, para compra de sementes e participação em feiras de economia solidária e da agricultura familiar.

Mesmo em um Estado e uma região em que o patriarcado e o machismo ainda são muito presentes, Maria Leci se consolida como uma liderança feminina respeitada no quilombo. “Essa resistência pela coletividade é muito boa. Temos um coletivo bem grande de homens, então eu tento delegar funções”, descreve.

Foi assim que as famílias da comunidade conseguiram adquirir sementes de forrageiras, vitais para alimentação dos rebanhos, a preços mais acessíveis, via Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (Feaper-RS). 

A Associação também faz parcerias com outras instituições, como Emater RS/Ascar, Embrapa Pecuária Sul, Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), entre outras.

Desafios e pressão da soja

Apesar de conseguir produzir alimentos para o sustento das famílias, a comunidade de Ibicuí da Armada também sofre com a pressão das monoculturas, especialmente, da soja. Ao lado das plantações de eucalipto, as lavouras do grão representam as principais ameaças ao Pampa.

“A soja é uma coisa que tomou conta de tudo. A gente tem vizinho aqui que tinha pomar orgânico, que a gente sabe que já não é mais orgânico, porque o avião passa todo dia colocando veneno por cima”, conta Maria Leci. 

Ao comentar sobre esse avanço das monoculturas, a líder quilombola  cita o documentário “Sobreviventes do Pampa”, produzido por Rose França e Rogério Rodrigues. O longa, com entrevistas de diferentes representantes de povos tradicionais do Pampa, aborda a degradação do bioma, a sociobiodiversidade e os modos de vida tradicionais do território. 

Uma das reivindicações das famílias de Ibicuí da Armada é a educação escolar quilombola, com implementação desse modelo na escola que existe na comunidade. Outros desafios incluem a falta de ônibus para Santana do Livramento e o baixo preço da lã.

Foto colorida que mostra um homem vestido com roupas de lida campeira e chapéu, de costas e com vários ovelhas na sua frente. Ao fundo, cercado e árvores. Quilombo Ibicuí da Armana, no Pampa
Pecuária de ovinos é uma das principais atividades na comunidade de Ibicuí da Armada e contribui para preservação dos campos nativos do Pampa (Foto: Divulgação)

Pecuária quilombola no Pampa

O território do quilombo Ibicuí da Armada possui cerca de 150 hectares. Em 2025, a Associação entrou com o pedido de titulação das terras junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

As famílias estão organizadas em dois núcleos divididos geograficamente em torno da sede. Essa divisão também orienta, por exemplo, as atividades de inseminação dos rebanhos bovinos, pois cada núcleo possui um touro. Os animais foram doados pela Embrapa Pecuária Sul.

A maioria das famílias, porém, trabalha com a criação de ovelhas de corte e produção de lã. As vendas costumam ser feitas de forma coletiva, no centro de manejo da comunidade. “Quando é venda de terneiro, junta todos aqui na mangueira, o comprador vem e leva o que ele quiser”, explica Maria Leci.

Agora, a intenção é diversificar ainda mais as fontes de renda por meio da apicultura e da nova agroindústria, financiada com recursos de um fundo social da empresa CMPC. Apesar de aceitar os recursos da multinacional, Maria Leci destaca a postura crítica do quilombo aos projetos de expansão da produção de celulose no RS.

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“A gente pegou esse projeto, porque se eles não fizessem para nós, iam fazer para qualquer outra comunidade. Mas ficou bem claro para eles que nós não temos interesse em (produzir) celulose aqui dentro da nossa comunidade”, enfatiza a presidente da Associação da comunidade de Ibicuí da Armada. 

Nos últimos anos, o quilombo da zona rural de Santana do Livramento tem se tornado uma referência para outras comunidades. Em 2025, o local foi palco de uma série de encontros de formação sobre direitos étnicos e coletivos para lideranças de povos e comunidades tradicionais do Pampa. Assim, a resistência ancestral dos quilombolas ecoa para outros territórios.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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