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E acabaram com a Praça Onze

De berço dos desfiles das Escolas de Samba à estação do metrô


A Presidente Vargas. no Carnaval, em 1976: fim da tradição de colorir as ruas da cidade. Foto Arquivo / Agência O Globo
A Presidente Vargas no Carnaval, em 1976. Foto Arquivo / Agência O Globo

Jovem seguidor deste #RioéRua pergunta se a antiga Praça Onze, onde nasceram os desfiles das escolas de samba, ficava perto da Estação Praça Onze do Metrô, a mais próxima da Passarela do Samba. A resposta precisa de uma viagem no tempo porque, nas primeiras décadas do século passado, a Praça Onze de Junho, batizada em homenagem à vitória decisiva da Marinha brasileira na Guerra do Paraguai, era um espaço de encontro, com crianças brincando de dia, com vida boêmia à noite, famílias aos fins de semana – numa área cercada de moradias populares, onde viviam ex-escravos e imigrantes. A Praça Onze era um quadrilátero formado pelas ruas Santana, Marquês de Pombal, (paralelas e ainda existentes até hoje), Visconde de Itaúna e Senador Eusébio (também paralelas na época e que já não existem). Ficaria a pouco mais de um quilômetro da rua Laura Araújo, da estação do metrô.

A Escola Municipal Tia Ciata, em homenagem à baiana que vivia na Praça Onze. Em sua casa nasceu o primeiro samba oficial, Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida. Foto Oscar Valporto
A Escola Municipal Tia Ciata, em homenagem à baiana que vivia na Praça Onze. Em sua casa nasceu o primeiro samba oficial, Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida. Foto Oscar Valporto

Era na Visconde de Itaúna que morava, no começo do século XX, Tia Ciata (a baiana Hilária Batista de Almeida), mãe de santo e quituteira, que reunia em sua casa os talentos musicais de Donga, Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Sinhô, Mauro de Almeida, Pixinguinha.  Foi na casa de Tia Ciata, que nasceu o primeiro samba oficial, Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida.  As festas repetiam-se em casas da vizinhança, de outras tias baianas, adeptas do candomblé, com muita batucada, com o nascente samba.  Quando surgiram os primeiros blocos de carnaval embalados pelo samba, a Praça Onze passou a ser seu ponto de encontro; como também das primeiras escolas que, a partir da Deixa Falar – considerada a primeira escola de samba da história, fundada em 1928, no Estácio – não deixavam de desfilar pela área.

E assim, em 1932, quando o jornalista Mario Filho e seu Mundo Sportivo idealizaram o primeiro desfile competitivo de escolas de samba, ele foi realizado exatamente na Praça 11 de junho. Os jurados elegeram a Mangueira campeã. Durante 10 anos, os desfiles ficaram na Praça Onze: no começo, era praticamente uma disputa de sambas; depois, ainda ali, foram ganhando unidade entre enredo, fantasias e alegorias.  A Portela venceu o último desfile no local histórico, em 1942: a Praça Onze, as ruas Senador Eusébio e Visconde de Itaúna, trechos da Santana e Marquês de Pombal, mais de 500 imóveis, inclusive igrejas históricas, foram destruídos para a construção da Avenida Presidente Vargas.

“Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais escola de samba, não vai / Chora o tamborim / Chora o morro inteiro…” – O samba de Herivelto Martins em parceria com o ator Grande Othelo fez sucesso, mas o desfile das escolas de samba, já consagrado pelo gosto popular, resistiu, facilmente, ao atropelo do progresso. Passou dois anos na Avenida Rio Branco, foi realizado em 1945 no Estádio de São Januário e deslocou-se para a nova Presidente Vargas, em 1946, e por lá ficou durante 10 anos com cada vez mais público. O desfile voltou para Rio Branco em 1957 – onde os jornais falam que foi acompanhado por 700 mil pessoas – e retornou a Presidente Vargas, com largada na Candelária, em 1963. Desde 1961, havia cobrança de ingressos em arquibancadas móveis. “Escola de samba entrando na avenida” passou a ser uma frase comum para informar o começo do desfile.

Só em 1978, depois de passar pela Antonio Carlos com as obras do Metrô, o samba saiu da avenida e foi parar na rua Marquês de Sapucaí – ministro da Fazenda e da Justiça no segundo reinado, bem menos conhecido que Rio Branco e Vargas.  Era também um espaço menor e mais apertado para as escolas de samba que tinham cada vez mais componentes e alegorias cada vez maiores. E, lá, surgiu a Passarela do Samba, de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, que completa 35 anos neste Carnaval, esta sim, a três quarteirões da estação batizada com o nome da praça onde surgiram os primeiros desfiles.

O Terreirão do Samba, palco de shows e uma vaga lembrança do que um dia já foi o berço do samba. Foto Oscar Valporto
O Terreirão do Samba, palco de shows e uma vaga lembrança do que um dia já foi o berço do samba. Foto Oscar Valporto

Neste século XXI, é difícil imaginar que, em algum lugar no meio desta poluída, barulhenta e movimentada Avenida Presidente Vargas, ficaria a Praça Onze. Do lado esquerdo, a partir da Candelária, ficava a antiga Visconde de Itaúna, moradia de Tia Ciata, berço do samba – hoje, na avenida, entre Santana e Marquês de Pombal, há a Escola Municipal Tia Ciata; logo ao lado, fica o Terreirão do Samba, palco de shows, outra vaga lembrança. Durante o Carnaval, uma multidão de sem ingressos circula pela região para ver a armação das escolas e ver um pouco da festa, hoje muito diferente dos tempos da Praça Onze. #RioéRua


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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Um Comentário

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  1. Muito bom texto, Oscar.
    A história da Praça Onze e sua destruição é para mim um marco pouco conhecido de nós, cariocas.
    Ano passado, no Dia da Consciência Negra, escrevi uma cronicazinha sobre, ressaltando que o Vargas homem foi responsável pela Vargas avenida ter atropelado o reduto do samba.
    Um abraço!

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