Cristo Redentor: 90 anos de deslumbramento, fé e algumas tretas

Turistas enfrentam vento, chuva e neblina no Cristo Redentor: 90 anos de sucesso, apesar das tretas (Foto: Oscar Valporto)

Neblina e nuvens não afastam turistas e fieis do monumento no alto do Corcovado que faz aniversário em meio à disputa entre arquidiocese e ICMBio

Por Oscar Valporto | ODS 11 • Publicada em 12 de outubro de 2021 - 07:44 • Atualizada em 27 de outubro de 2021 - 08:18

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Turistas enfrentam vento, chuva e neblina no Cristo Redentor: 90 anos de sucesso, apesar das tretas (Foto: Oscar Valporto)

O céu estava totalmente coberto de nuvens e uma chuva fina completava o cenário, tudo semelhante há 90 anos atrás quando o monumento ao Cristo Redentor foi inaugurado no alto do Corcovado. Na primavera carioca, o sol quase não deu as caras na semana anterior ao 12 de outubro, aniversário da abertura oficial da estátua à visitação. Ainda assim, não eram poucos os visitantes na véspera dos 90. Privados da vista deslumbrante do Rio de Janeiro, turistas lamentavam o mau tempo, mas não queriam deixar de ver o Cristo de perto antes do feriado acabar. A família do interior da Bahia explicava que não podia voltar para o sertão sem ver o monumento: esperaram até a véspera de partir e as nuvens não deram trégua. As irmãs paranaenses atendiam um pedido da mãe, católica com intenção de agradecer a cura do caçula, recuperado da covid-19.

Cristo Redentor no alto do Corcovado: 90 anos de deslumbramento e fé (Foto: Custódio Coimbra)
Cristo Redentor no alto do Corcovado: 90 anos de deslumbramento e fé (Foto: Custódio Coimbra)

A vista exuberante da cidade e as razões da fé sempre se misturam no alto do Corcovado, desde a inauguração da estátua, mas a atração pela paisagem chegou antes. Em 1824, quando o imperador Pedro I comandou a primeira expedição oficial ao pico da montanha, o objetivo era instalar um posto telegráfico, mas a vista da Baía da Guanabara e da Lagoa dos Tupinambás inspirou a implantação de um mirante ao lado do telégrafo. O pintor francês Jean-Baptiste Debret acompanhou a expedição e, com suas telas, ajudou a popularizar a paisagem em torno do Corcovado. Em 1884, 47 anos do monumento, foi inaugurada a Estrada de Ferro do Corcovado, a primeira ferrovia turística, com o apoio e a presença de Dom Pedro II – o primeiro trecho ia até as Paineiras, o segundo, alcançando o alto do Corcovado, começou a funcionar no ano seguinte. Entre um ano e outro, o Imperador mandou construir um novo mirante no alto do Corcovado, encomendado a uma fundição belga, que ficou conhecido como Chapéu do Sol.

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O trem, movido a vapor no século XIX e em trilhos elétricos a partir de 1910, ainda é a melhor maneira de subir o Corcovado – na minha modesta opinião de carioca. Fui ao Cristo Redentor ainda criança, algumas vezes, levado de carro pelos meus pais. Mas, desde adolescente, prefiro sempre o trem, com seus trilhos pelo meio da Mata Atlântica, da Floresta Nacional da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo. No meio do verde, aparecem trechos da paisagem privilegiada do Rio de Janeiro lá embaixo, antecipando a vista do alto do Corcovado. De carro mesmo, não é mais possível chegar: ainda no século passado, os automóveis foram barrados. Pode-se chegar no máximo às Paineiras, onde fica o Centro de Visitantes do Cristo Redentor, e seguir de van a partir desse ponto. Desde os tempos do imperador, é um passeio para elite: o trem sempre foi caro; o atual serviço de vans – a única outra alternativa – também não é barato: todos os preços são de R$ 65 para cima, exceto para crianças e idosos.

Turistas no Trem do Corcovado, inaugurado 47 anos do monumento ao Cristo Redentor: linha férrea por dentro do verde exuberante da Mata Atlântica (Foto: Oscar Valporto)
Turistas no Trem do Corcovado, inaugurado 47 anos do monumento ao Cristo Redentor: linha férrea por dentro do verde exuberante da Mata Atlântica (Foto: Oscar Valporto)

O transporte sobre trilhos foi fundamental para a instalação da estátua do Cristo Redentor no alto do Corcovado, ideia consolidada em 1921 pelo Círculo Católico, uma organização religiosa, que reuniu milhares de assinaturas para ter a autorização do presidente Epitácio Pessoa. O arcebispo do Rio de Janeiro, dom Sebastião Leme, lançou uma campanha de arrecadação para reunir os fundos necessários para a construção do monumento, criado pelo escultor francês Paul Landowski, com base nas ideias do engenheiro carioca Heitor da Silva Costa. A campanha para a obra provocou as primeiras tretas em torno do Cristo Redentor. Igrejas protestantes – liderados pelos batistas – fizeram oposição religiosa à imagem de 30 metros – 38m com o pedestal – do Cristo. “Os que tiveram a infeliz idéia de erigir o monumento a Cristo Redentor, não tiveram a intenção de honrar a Cristo, mas sim a de engrandecer o catolicismo romano, o paganismo”, escreveu o jornal batista. Em 1923, enquanto o Cardeal Leme buscava levantar fundos, mais de 600 protestantes se reuniram na Igreja Presbiteriana em manifestação contra o monumento; abaixo-assinados foram encaminhados à Presidência mas a autorização para a obra não foi revogada.

Entre 1926 e 1931, toneladas de concreto armado e pedra sabão foram levados 710 metros acima, até o platô preparado no alto do Corcovado para a montagem da estátua do Cristo Redentor – apenas a cabeça e as mãos vieram prontas da Europa. A inauguração foi marcada para o Dia de Nossa Senhora Aparecida, mas a primavera – ou, quem sabe, São Pedro – não ajudou. O mau tempo atrapalhou a semana de festejos preparada para a inauguração, com missas e eventos por toda a cidade, que duraram de sábado, dia 10 de outubro de 1931, até a quinta-feira, 15. Missa campal na Quinta da Boa Vista foi cancelada, marcada para a véspera, foi cancelada. Mas o presidente Getúlio Vargas e bispos de norte a sul do Brasil estiveram presentes – sob céu nublado e chuva fina – à inauguração do Cristo Redentor, no dia 12. Peregrinos subiram de trem ou mesmo a pé nos dias seguintes; os mais ricos fizeram sobrevoos de avião no Corcovado na quinta-feira, quando o tempo começou a melhorar.

O monumento ao Cristo Redentor, cercado pela Floresta Nacional da Tijuca: conflito entre ICMBio e Arquidiocese do Rio (Foto: ICMBio)
O monumento ao Cristo Redentor, cercado pela Floresta Nacional da Tijuca: conflito entre ICMBio e Arquidiocese do Rio (Foto: ICMBio)

Em 90 anos, o monumento ao Cristo Redentor do Corcovado tornou-se o ponto turístico mais visitado do Brasil, com cerca de R$ 2 milhões de visitantes por ano, virou um símbolo do país no exterior, e, em 2007, numa eleição global que contou com mais de 100 milhões de votos pela internet, a imagem foi eleita uma das sete novas maravilhas do mundo. Em 2008, a estátua foi tombada pelo Iphan. E não há chuva, nem nuvens, nem vento que afastem os visitantes. Na véspera do aniversário, mesmo sem a vista maravilhosa da cidade, os visitantes pagavam para subir ao Corcovado e fotografar o Cristo Redentor ou ser fotografado: casais trocavam juras de amor, fiéis faziam orações. O deslumbramento e a fé seguem intactos no alto do Corcovado.

O monumento também não ficou livre das tretas. A concorrência para a exploração dos espaços é alvo de uma briga judicial que envolve não apenas novos e antigos licenciados como também o ICMBio, responsável pelo Parque Nacional da Tijuca, e pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, que cuida do monumento ao Cristo Redentor. A troca dos concessionários acirrou o conflito entre os religiosos e o órgão federal que disputam o controle dos acessos ao santuário. Hoje, quando receberá festa com políticos, empresários, artistas e religiosos, a principal atração turística do Brasil não terá, para suas dezenas de visitantes diários, um um lugar sequer para compra de bebida ou comida; e suas lojas de souvenir são improvisadas.

Mas a festa é mais do que merecida. O Cristo Redentor – “braços abertos sobre a Guanabara”, inspiração para o maestro Tom Jobim – ganhou canção de Moacyr Luz para os seus 90 anos: “não é de agora que eu vivo aos pés do Redentor”.

#RioéRua

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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