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Crise demográfica esvazia cidades no interior da Espanha

Crise demográfica fará país da Península Ibérica perder um milhão de habitantes em 15 anos


Privilegiado, o pueblo histórico de La Fresneda ainda tem cerca de 500 habitantes. Foto Rosane Marinho
Privilegiado, o pueblo histórico de La Fresneda ainda tem cerca de 500 habitantes. Foto Rosane Marinho

Quando Isabel Lahoz, 50, era pequena, a cidadezinha onde ela nasceu, Fonfría, na província de Teruel, em Aragão, Espanha, tinha quase 100 habitantes. Era pequena, mas havia um pouco de tudo: Escola, uma loja de secos e molhados, padaria, açougue, vida. Hoje, em Fonfría restam 10 moradores permanentes. Destes 10, cinco já superam os 80 anos. Isabel teme o pior. Que seu “pueblo”, como os espanhóis chamam a estas pequenas localidades, simplesmente desapareça.

A crise demográfica é uma realidade de toda a Espanha, que tem uma das menores taxas de natalidade do mundo, apenas 1,3 filhos por mulher. A metade dos municípios espanhóis tem menos de 500 habitantes. Segundo dados de Projeção de População para os anos de 2014-2064, este país perderá 1 milhão de habitantes em 15 anos. E mais: 80% da população viverá nas grandes capitais, deixando todo o interior quase vazio.

As pessoas achavam que a imigração seria a solução de todos os problemas, mas se não tem trabalho, como estas famílias vão viver? Precisamos de investimentos. Que venham empresas, turismo, que melhorem as comunicações. Porque uma família não pode viver apenas da horta doméstica

Cristóbal Sánchez
Morador de Navarrete

O marido de Isabel, Cristóbal Sánchez, 55, também é de um “pueblo” na mesma zona, Navarrete del Río, que hoje tem 80 residentes. “Quando era criança, vivíamos aqui mais de 300 pessoas e meus pais contam que no pós-guerra éramos quase 900. Havia três lojas, dois bares, tudo. Ano passado, a padeira se aposentou e ninguém mais quis assumir o negócio e já nem pão podemos comprar na cidade” – lamenta Cristóbal. “Pelo menos em Navarrete ainda temos seis crianças. Todas de fora, filhos de imigrantes. Porque nascidos na cidade mesmo, há mais de 15 anos que não nasce ninguém”. No município não há escola e as crianças vão de ônibus escolar até Calamocha, a maior cidade da região com quatro mil habitantes.

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O casal Isabel e Cristóbal lamenta o completo esvaziamento dos seus povoados. Foto Arquivo Pessoal
O casal Isabel e Cristóbal lamenta o completo esvaziamento dos seus povoados. Foto Arquivo Pessoal

Fonfría e Navarrete del Río estão dentro da chamada “Laponia Espanhola”, por ter uma densidade populacional inferior a esta região da Finlândia, situada no Círculo Polar Ártico. Uma região de 63.098,69 quilômetros quadrados (duas Bélgicas), que inclui as províncias de Soria, Teruel e Gualajara, com 1.632 municípios, mas com apenas 500 mil habitantes. Menos de 8 habitantes por quilómetro quadrado, segundo dados da Universidade de Zaragoza. No caso de Teruel, o número de moradores é ainda menor: há apenas 1,63 por quilômetro quadrado. Esta província perde em média três habitantes por dia. Um drama para esta população que se sente esquecida pelo governo central, onde faltam transporte, médicos e o acesso à internet é limitado.

“Fui embora de Fonfría com 14 anos, quando já não tinha mais escola para mim. Depois meus irmãos também se foram. E depois da gente, já não teve mais outra geração de crianças. A escola primária fechou e pouco a pouco a cidade foi ficando vazia. Em 10 anos, quando as pessoas mais velhas já não estiverem conosco, quem vai viver ali? As casas ficarão fechadas e só se abrirão no verão, quando as famílias voltarem para passar férias. E logo, quando os encanamentos arrebentarem no inverno pelo frio, pela falta de uso, e seja muito caro consertar, as famílias também deixarão de vir e a cidade ficará totalmente abandonada”, profetiza Isabel, que hoje é professora em Calamocha. Atualmente em Fonfría não há nenhum comércio, ônibus duas vezes por semana e médico apenas nas quintas-feiras. “Imagina que estas pessoas têm mais de 80 anos e se alguém passa mal na sexta? Sem transporte? E no inverno, com a neve e o gelo nas estradas?”, reclama.

A imigração tem ajudado a esta Espanha vazia. Principalmente marroquinos e romenos, que vêm para o trabalho no campo, atraídos por ofertas de até casa grátis, caso a família tenha filhos em idade escolar. Criança passa a ser um bem disputado por prefeituras, garantia de futuro para estas cidades.  “As pessoas achavam que a imigração seria a solução de todos os problemas, mas se não tem trabalho, como estas famílias vão viver?”, queixa-se Cristóbal, completando: “Aqui precisamos de investimentos. Que venham empresas, turismo, que melhorem as comunicações. Porque uma família não pode viver apenas da horta doméstica”

A crise econômica dos últimos dez anos acelerou a debandada do campo para as cidades. Em média, Teruel perde três habitantes por dia. Para reivindicar mais serviços e dar visibilidade ao drama da falta de população, as cidades da “Laponia espanhola” se organizaram em plataformas como Teruel Existe e Soria ya. No domingo 31 de março, uma grande manifestação em Madri, batizada de La Revuelta de la España Vaciada (A Revolta da Espanha Esvaziada) pediu mais investimentos em infraestrutura para frear a fuga de habitantes. Isabel vê com bons olhos as manifestações, mas acredita que o problema não terá uma solução fácil. “Os políticos não se interessam por uma região que tem poucos votos”, lamenta.

A farmacêutica Mirian Merchante teme pelo fechamento do negócio da família. Foto Rosane Marinho
A farmacêutica Mirian Merchante teme pelo fechamento do negócio da família. Foto Rosane Marinho

A farmacêutica Mirian Merchante, 38, também está desanimada. “Sou de um pueblo privilegiado, La Fresneda, onde temos quase 500 habitantes. Isto porque é uma cidade do século XI, o que atrai o turismo. É o que mantem restaurantes e hotéis abertos. Dá emprego e por isto temos crianças e a escola funciona. Mesmo assim, já perdemos quase a metade da população desde quando eu era criança”, conta Mirian, que desde a adolescência foi estudar na capital Zaragoza e volta à sua cidade apenas para ver a família. Mirian tem a mesma profissão do seu pai, mas não pensa sucedê-lo no negócio familiar. “Meu pai criou seus três filhos apenas com uma farmácia, mas agora não vende o suficiente. Quando ele se aposentar, não sei se alguém vai querer comprar o negócio. E se ninguém continua, será mais um serviço que a cidade perderá”, lamenta. “Aqui precisamos é de investimentos a longo prazo em estradas e comunicações. Amo minha cidade, se algum dia tiver filhos, gostaria que eles tivessem a mesma infância livre que eu tive. Eu poderia trabalhar na capital e viver em La Fresneda, se tivesse um trem mais rápido, por exemplo. Em Madri, o aluguel de um apartamento de quarto e sala não custa menos de mil euros (quase 5 mil reais), enquanto aqui, em La Fresneda, por 200 euros (mil reais) dá para alugar uma casa inteira com terreno”, explica.

O professor Daniel Izquierdo, 43, é da mesma opinião. “O que salvaria os “pueblos” seriam garantias para que uma família pudesse levar seus filhos a estudar em qualquer capital. Ter transporte, ajuda para pagar internatos, ter acesso a internet de qualidade, banda larga, etc”, acredita. Daniel é de Aguilar de Alfambra, que atualmente tem 20 habitantes e onde há 37 anos não nasce nenhuma criança. “E ainda podemos dizer que temos sorte, porque, nos últimos anos, abriu uma cooperativa de queijos artesanais, feitos com leite de ovelhas marroquinas. Dos 20 moradores, 10 são imigrantes do Marrocos”, conta.

Mesmo vivendo há muitos anos em Barcelona, Daniel se mantém próximo da sua cidade. Todos os anos, ele e outros antigos moradores organizam um festival literário em setembro. Até já conseguiram abrir uma biblioteca que tem quatro mil livros, todos doados. “Esta Páscoa, como sempre, voltarei para a minha cidade. É a época que muitas famílias voltam. Estarei na biblioteca organizando os livros”, conta.

E como Daniel, muitos que deixaram suas cidades voltarão para esta festa católica, onde se lembra a morte e a ressureição Jesus.  Isabel também voltará. “É uma alegria. O bar reabre. Vamos organizar almoços, churrascos com toda a gente da cidade. As crianças voltarão a correr pelas ruas de Fonfría. Quem dera que fosse assim sempre”, sonha, esperando que a morte anunciada de seu “pueblo” se transforme em uma possível ressurreição.


Escrito por Rosane Marinho

É jornalista, carioca, e há dez anos vive em Zaragoza, na Espanha. No Rio, trabalhou como fotógrafa na sucursal da Folha de São Paulo, em seguida no Jornal do Brasil e foi correspondente do O Globo em Recife. Na Espanha, é professora de fotografia digital e continua trabalhando como jornalista freelancer. Casada, é mãe de dois pequenos hispano-brasileiros.

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Um Comentário

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  1. Ola. Sou Carlos Iglesias, também residente em Madrid. Gostei muito da reportagem. Estou fazendo o Caminho de Santiago-Norte e entre Ciudades e Pueblos, há muita natureza. Uma Espanha diferente das demais.

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