Ainda precisamos de aquários?

Os tubarões são a grande atração do AquaRio, o maior deles tem 2,5 metros. Foto Divulgação

Nova atração do Rio reacende debate sobre maus-tratos aos animais

Por Agostinho Vieira | ODS 11 • Publicada em 15 de novembro de 2016 - 00:12 • Atualizada em 17 de novembro de 2016 - 10:59

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Os tubarões são a grande atração do AquaRio, o maior deles tem 2,5 metros. Foto Divulgação
Os tubarões são a grande atração do AquaRio, o maior deles tem 2,5 metros. Foto Divulgação
Os tubarões são a grande atração do AquaRio, o maior deles tem 2,5 metros. Foto Divulgação

A pergunta aí de cima foi feita há alguns dias por uma leitora ilustre do #Colabora. A razão era óbvia, o Rio estava prestes a ganhar o seu aquário. O maior da América do Sul, com três mil animais de 350 espécies diferentes e um investimento de R$ 150 milhões. A resposta, no entanto, varia muito de acordo com o interlocutor. Para os ativistas do movimento “AquaRio – Eu não vou”, que fizeram um protesto no dia da inauguração, não há muito o que discutir: “Nenhum animal deve ser retirado do seu habitat natural para viver em cativeiro.  O aquário do Rio é um buraco escuro, prejudicial aos peixes e que tem como objetivo, apenas, o entretenimento e a geração de lucro”, disse Cibele Clark, uma das lideranças.

O grande predador, sem dúvida, é o homem. Eu passei a minha vida tentando salvar as baleias e os tubarões. Por que razão, agora, eu viria para cá maltratar os animais?

O presidente do AquaRio e idealizador do projeto, Marcelo Szpilman, obviamente discorda, e cita Jacques Cousteau para explicar o seu ponto de vista: “Só se preserva aquilo que se conhece”, dizia o oceanógrafo francês. Szpilman argumenta que 90% dos peixes vistos no aquário são os mesmos que podem ser encontrados nos supermercados, nas feiras livres e nas peixarias: “A grande maioria das pessoas só conhece o peixe morto, muitas vezes congelado, ou quando ele já vem preparado num restaurante. Não há preço que pague a alegria e a experiência das crianças quando veem o movimento das raias, das garoupas e dos badejos”.

O aquário do Rio abriga três mil animais de 350 espécies diferentes e custou cerca de R$ 150 milhões. Foto de Divulgação
O aquário do Rio abriga três mil animais de 350 espécies diferentes e custou cerca de R$ 150 milhões. Foto de Divulgação

A polêmica envolvendo maus-tratos de animais em aquários não é exatamente nova. Em 2013, o documentário americano “Blackfish” (trailer abaixo) levantou acusações contra o “SeaWorld”, que opera 11 parques aquáticos nos EUA. O filme, exibido pela CNN e visto por mais de 20 milhões de espectadores, conta a trajetória da orca Tilikum, que aparecia no show Shamu. Segundo o documentário, a vida no aquário teria tornado a baleia violenta, provocando a morte de vários treinadores.  Funcionários dos parques ouvidos pela produção denunciavam atos de crueldade, como a redução da alimentação para tornar os bichos mais “ativos” nas apresentações.

Nenhum animal deve ser retirado do seu habitat natural para viver em cativeiro. O aquário do Rio é um buraco escuro, prejudicial aos peixes e que tem como objetivo, apenas, o entretenimento e a geração de lucro.

Marcelo Szpilman explica que o AquaRio não é um parque aquático e nem pretende ser. Quem for visitá-lo não verá baleias, golfinhos e muito menos ursos polares, como chegaram a denunciar alguns ambientalistas. A única baleia do lugar está morta, e pode ser vista logo na entrada. É a ossada de uma Jubarte, de 13 metros de comprimento, que ficou encalhada na praia da Macumba, em 2014. As principais atrações são os quatro tubarões, o maior com 2,5 metros. Dois deles vieram de São Paulo e estão entre as espécies ameaçadas de extinção. Szpilman, que é um dos fundadores do Instituto Aqualung e autor de vários livros, aproveita a deixa para lembrar que cerca de cem milhões de tubarões são mortos todos os anos no mundo: “O grande predador, sem dúvida, é o homem. Eu passei a minha vida tentando salvar as baleias e os tubarões. Por que razão, agora, eu viria para cá maltratar os animais?”.

Biólogos, oceanógrafos e outros pesquisadores ouvidos pelo #Colabora tendem a concordar. Dizem que as vantagens de um aquário como o do Rio ainda são maiores do que as eventuais desvantagens. Principalmente quando se fala em educação, pesquisa e preservação de espécies, que seriam os pilares da iniciativa. O AquaRio tem uma parceria com o Instituto de Biologia Marinha da UFRJ e dois trabalhos de pesquisa já estariam sendo realizados. No entanto, o que atrai mesmo o visitante continua sendo o entretenimento, que vai desde o peixinho virtual que acompanha o passeio, passando pelos jogos interativos e terminando com as lojas no melhor estilo Disney.

Contudo, para um projeto preocupado com a preservação da fauna marinha e instalado no Porto do Rio, chama a atenção a ausência de qualquer menção à Baia de Guanabara. A poluição endêmica das águas, o massacre das baleias no tempo do Brasil Colônia e, principalmente, a situação dos botos-cinza, símbolos da cidade, não aparecem em nenhuma sala, cartaz ou folheto. Marcelo Szpilman diz que essa é uma iniciativa para o futuro, que eles estão apenas começando. Também nesse futuro, os visitantes vão poder nadar com os tubarões e dormir no túnel de acrílico, onde se tem a sensação de estar submerso em 3,5 milhões de litros de água.

Enquanto isso não acontece, parte dos ambientalistas sonha com um mundo onde até seja possível nadar com os tubarões, mas no seu habitat natural. Aquários e zoológicos funcionem apenas como centros de reabilitação para animais doentes ou que não possam ser reinseridos nos oceanos e nas selvas. Um turismo de observação feito em santuários ecológicos. Até lá, se você veste a camisa “AquaRio, eu vou” é bom saber que ele funciona de 10 às 18 horas e que o ingresso custa salgados R$ 80.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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5 comentários “Ainda precisamos de aquários?

  1. marcia soares de araújo disse:

    Não. Não precisamos de msid aquários. Despoluam a baía de guanabara e veremos lindos golfinhos em seu habitat natural. Mas aquário gera muita grana, né

  2. Flavia disse:

    Engraçado que falam em pesquisa, mas não hp nenhuma preocupação em educar as pessoas com relação por exemplo, no lixo deixado nas praias.Outra coisa: aquela baleia tinha restos de material parecido com rede. Encalhou em um sábado e só foi retirada na segunda. Ninguém publicou nada a respeito depois sobre isso. Lamentável.
    Agora animais vão ficar em aquário servindo p entretenimento e enriquecimento dos envolvidos no projeto.
    Esse é o Brasil, caminhando para trás. Em nome do capital!

  3. Hylton Sarcinelli Luz disse:

    A matéria é muito boa porque levanta as questões que ficam invisíveis para o grande público, exatamente aquelas que podem fazer com que esta proposta de aquário avance na direção de construir as razões éticas e científicas que podem estar presentes na proposta e na intenção de seu proponente. Esta vertente se faz necessária para que o empreendimento escape da crítica justificada acerca da crueldade que representa a desumana a exploração mercantilista dos animais confinados, de uma vida destinada ao sofrimento vitalício do apartamento de seu habitat.

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