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A tempestade perfeita

Eventos extremos no Rio de Janeiro mostram a urgência de ação conjunta de governos, empresas e sociedade


No Rio, a tempestade perfeita do mês de abril juntou a força da natureza, com o descaso do governo e a falta de educação da população. Foto AFP
No Rio, a tempestade perfeita do mês de abril juntou a força da natureza, com o descaso do governo e a falta de educação da população. Foto AFP

De origem inglesa, a expressão “tempestade perfeita” vai além da descrição de um fenômeno meteorológico. É um empréstimo léxico que trata de uma situação desfavorável, drasticamente agravada por uma conjunção de fatores negativos, que modulam o pior cenário possível e em geral levam a um desastre. Pois o Rio de Janeiro viveu este mês a tempestade perfeita em todos os sentidos da expressão.

É fato que as mudanças climáticas são uma realidade e representam um dos desafios mais complexos deste século. As alterações climáticas provocam mudanças nos sistemas geofísicos, biológicos e humanos e já há comprovação de que as alterações do clima relativas ao aquecimento global e ao aumento do nível do mar estão se intensificando, e aumentando a frequência de eventos extremos. Já temos de maneira inequívoca, e confirmada pela ciência, as temperaturas mais altas dos últimos cinco séculos.

Outra constatação é que nenhum país está imune a essas mudanças climáticas e os seus efeitos devastadores, que não podem ser detidos individualmente ou apenas com avanços tecnológicos. São desafios interconectados que compreendem decisões políticas e econômicas, pois têm implicações na indústria, na agricultura, no comércio, na segurança e no bem-estar social.

Nessa linha de raciocínio, também é incontestável que países em desenvolvimento e subdesenvolvidos são mais vulneráveis, na medida em que não têm infraestrutura para suportar os eventos mais frequentes de chuvas e tempestades decorrentes dessas mudanças climáticas. Nestes países, a vulnerabilidade é ainda maior nos grandes centros urbanos, pelo excesso de concreto e asfalto, responsáveis por aumentar a temperatura e dificultar o escoamento, e pela concentração de aglomerações populacionais, muitas das quais vivendo em áreas de risco extremo.

Espremido entre o mar e montanha, o Rio de Janeiro é a síntese da vulnerabilidade a essas mudanças climáticas e ao novo padrão climático, em que os chamados eventos extremos se repetem com mais frequência. De um lado, a chuva encharca as encostas e oferece riscos de deslizamento. Do outro lado, a chuva forte combinada com maré alta agrava episódios de enchentes pela impossibilidade de escoamento da água no litoral. Mas para a tragédia ser ainda maior, some-se a isso quase 20 mil imóveis localizados em área de risco e vivendo à espreita de alarmes e sirenes que nem sempre funcionam para anunciar a tempestade. Adicione a essa receita o fato de que a prefeitura do Rio tem paralisadas obras de drenagem e contenção de encostas em 31 comunidades.

O resgate das vítimas na tragédia da comunidade do Muzema, na Zona Oeste do Rio. Foto Carl de Souza/AFP
O resgate das vítimas na tragédia da comunidade do Muzema, na Zona Oeste do Rio. Foto Carl de Souza/AFP

Doze pessoas já morreram em deslizamentos no Rio em 2019. Três grandes tempestades atingiram a cidade e a última provocou o decreto de calamidade pública por 180 dias, após receber mais de 300 milímetros de chuva em apenas 24 horas. Ainda há riscos de desabamentos e vias importantes estão fechadas. A energia falta em vários bairros e o risco de doenças advindas das enchentes só serão conhecidos nas próximas semanas. Escolas foram fechadas, ruas ficaram vazias sem transporte, trabalhadores não conseguiram se locomover, indústria e comércio tiveram prejuízos. Inúmeras famílias saíram de suas casas deixando tudo para trás ao soar de uma sirene, não sabem se voltam, quando voltam e, se voltarem, quando soará a nova sirene.

Reconhecer a nova realidade climática, (não fugir dela e nem se esconder atrás dela), é o primeiro passo para encarar o desafio e impedir a “tempestade perfeita”. Medidas de adaptação à esta nova realidade se fazem necessárias. Novos equipamentos de segurança, soluções de infraestrutura para encostas, definição sobre moradias em áreas de risco, tudo isso é necessário, mas o mais importante é colocar essa nova realidade no planejamento das cidades e na vida da sociedade. O cidadão que suja a praia no domingo, deixando lá garrafas pet, sacos plásticos ou restos de comida, tem responsabilidade, como também tem o governo que se ausenta e empresas que descartam resíduos inadequadamente. O motorista que joga lixo na rua pela janela do carro não tem direito de cobrar da prefeitura que tape buracos e desentupa bueiros, ele tem que se ver como parte de um sistema que precisa de mudança no comportamento e na forma de pensar essa questão.

Comerciantes, empresários, donas-de-casa, estudantes e administradores, todos são vetores que podem nos levar a uma “tempestade perfeita” ou minimizar seus impactos e nos preparar para o novo normal do clima. Essa nova realidade precisa de uma ação conjunta para que não se repita o mesmo cenário todos os anos.

O princípio de causa e efeito está claro. E a responsabilidade para que mudemos essa realidade está nas mãos de cada um, seja como pessoa física ou jurídica. Como já alertou Albert Einstein: Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.


Escrito por Marina Grossi

Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010. Foi negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre 1997 a 2001 e coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto.

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