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Racismo e intolerância no Sínodo da Amazônia

Atos discriminatórios contra os povos da floresta aconteceram em diferentes momentos desde o primeiro dia do evento


Papa Francisco celebra a missa de abertura do Sínodo da Amazônia, cercado por representantes dos povos indígenas. Foto Massimo Valicchia/NurPhoto
Papa Francisco celebra a missa de abertura do Sínodo da Amazônia, cercado por representantes dos povos indígenas. Foto Massimo Valicchia/NurPhoto

Dizem pelos corredores do Vaticano que a periferia chegou ao centro do mundo. A frase se refere ao sínodo da Amazônia que termina neste domingo, dia 27, após a divulgação do relatório que está sendo votado com as novas diretrizes da igreja católica. A ideia de trazer um sínodo indigenista para dentro do Vaticano não agradou muita gente: desde a ala ultraconservadora da igreja aos fanáticos católicos contrários à ideia de uma evangelização enculturada. Desde o início tem se visto atos de racismo e intolerância religiosa contra povos indígenas, afrodescendentes e camponeses.

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Na segunda passada, dia 21, porém, as manifestações de ódio contra os povos da Amazônia chegaram ao ápice, tanto foi necessário o envolvimento da polícia. Um grupo de ativistas ultraconservadores roubou pequenas estátuas de uma mulher grávida que simboliza a Mãe Terra e as jogou no rio Tibre. A ação foi filmada e postada em um canal do Youtube. As imagens estavam expostas na igreja Santa Maria, em Traspontina, a poucos passos do Vaticano. A igreja é um dos locais que hospeda a “Amazônia: Casa Comum”, um evento que acontece em paralelo ao Sínodo e, consequentemente, abriga objetos, fotos e imagens da cultura indígena.

Que diferença existe entre as penas na cabeça e o tricórnio (um tipo de chapéu usado por membros do clero)

Papa Francisco

O grupo voltou à igreja e tentou roubar novamente outros objetos, mas o ato foi flagrado pelo padre Antonio Soffiantini, que conseguiu recuperar os objetos. Soffiantini, ao perguntar por que estavam fazendo aquilo, um deles respondeu, em inglês: “Porque ela é perigosa”. A polícia foi acionada e a ação, denunciada. Desde então, todos os dias a igreja passou a ser alvo de manifestações coletivas e individuais de ativistas ultraconservadores. Na manhã de quarta-feira, 23, um deles ficou 4 horas ajoelhado em frente ao altar. Em outro momento, o grupo praticamente impediu que a missa foi realizada, pois rezavam mais alto que padre. “Não sabemos se é o mesmo grupo do roubo”, disse o padre Soffiantini.

Estátua de uma mulher grávida que simboliza a Mãe Terra para os povos indígenas. Foto Janaína Cesar
Estátua de uma mulher grávida que simboliza a Mãe Terra para os povos indígenas. Foto Janaína Cesar

O que se sabe é que alguns do grupo acreditam na suposta aparição de Maria, sob o título de “Rosa Mística – Nossa Senhora de Argyle”, que teria acontecido em 2017, na Igreja Católica St. Mark, em Argyle, no Texas. Fato que teria sido negado pelo bispo Michael Olson, da diocese de Fort Worth. A informação consta em um dos cartazes usados por eles durante uma das manifestações. O cartaz que traz a escrita “O Sínodo da Amazônia é herético”, também divulga o site https://www.ourladymysticalroseofargyle.com/ para maiores informações. O site foi registrado no domínio Wix.com, o que não dá muita possibilidade de saber quem está por traz dele.

As manifestações de intolerância surgiram até na missa de abertura do Sínodo e quem a tornou pública foi o próprio Papa Francisco, que no dia seguinte, durante a abertura dos trabalhos na assembleia, lamentou ter ouvido alguém fazer um comentário de mau gosto que ele não gostou sobre um representante dos povos indígenas que usava um cocar e convidou os bispos a refletir: “Que diferença existe entre as penas na cabeça e o tricórnio (um tipo de chapéu usado por membros do clero).

Certa parte da imprensa trabalha como porta-voz desses ultraconservadores. Durante as primeiras coletivas do Sínodo eles estavam mais preocupados em saber sobre o infanticídio que seria praticado por indígenas do que sobre os temas do evento. Para a socióloga Marcia de Oliveira, uma das peritas no Sínodo que estava presente em uma das coletivas e que foi questionada sobre o tema, “essa é uma forma de desqualificar os povos indígenas”. Segundo ela “de um modo geral, a imprensa está acompanhando com muito respeito, mas há uma parte dela que é etnocêntrica. O que incomoda essa parte da imprensa etnocêntrica é o fato de a Amazônia estar aqui no centro das discussões”. Agora mesmo a ação do roubo e destruição das estátuas foi apoiada por uma parte da imprensa conservadora que noticiou como “um grupo de bravos católicos limpou o local sagrado das várias estátuas de Pachamama”.

Padre Massimo Ramondo, missionário comboniano, presenciou casos de racismo ao longo do evento. Foto Janaína Cesar
Padre Massimo Ramondo, missionário comboniano, presenciou casos de racismo ao longo do evento. Foto Janaína Cesar

Segundo o indígena José Correia ou Tunamao, representante dos povos Jaminawa, do Acre, “o europeu ainda tem uma visão muito preconceituosa em relação aos índios, a gente percebe quando caminha pelas ruas e as pessoas nos olham de modo estranho. Todo mundo tem o direito de não concordar (com a cultura indígena), mas precisamos respeitar as opiniões do outros”. João Newman, cardeal há pouco tempo canonizado, em sua obra Essay on the Development of Christian Doctrine, publicada em 1878, a propósito da adoção por parte da Igreja de elementos pagãos, escrevia que “o uso de certos santos, enfeitados com ramos de árvores; incenso, velas, procissões, bênçãos dos campos são todos de origem pagã e santificados pela sua adoção na Igreja”.

Padre Massimo Ramondo, missionário Comboniano, relata duas situações de racismo, em uma delas ele estava presente. “Estávamos na praça São Pedro, do lado de fora das barras que delimitam o espaço. Um canal de televisão estava entrevistando alguns representantes de povos brasileiros. O jornalista pediu para abrirem a faixa com a escrita “Demarcação Já!”, gesto que irritou a polícia. Imediatamente pediram a documentação de todo mundo, eles começaram a falar alto e os brasileiros sem entender nada. Tentei explicar o que estava acontecendo, o significado daquela faixa, mas nada adiantava, para eles havíamos cometido uma infração ao abrir aquela faixa”, relata o bispo.

Estes acontecimentos têm sido pautados pela intolerância. São atitudes que não têm nada a ver com a vida da igreja, ainda que envolvam membros do clero, mas estão absolutamente fora daquilo que é a perspectiva global da igreja

Dom Zenildo Luiz Pereira
Bispo de Borba

Dia 19 passado, na praça São Giovanni, aconteceu uma grande manifestação da Lega Norte, o partido de extrema direita ligado a Matteo Salvini que até dois meses atrás fazia parte do governo. Por conta do evento, vários “leguistas” circulavam pela cidade carregando bandeiras. Até que encontraram com um grupo de povos indígenas que vestia suas indumentárias e carregava no corpo suas pinturas. Neste momento, os brasileiros viram nos rostos dos italianos expressões de desprezo e deboche. “Eles não entendiam as palavras que os italianos pronunciavam por não conhecerem a língua, mas das expressões faciais, compreenderam perfeitamente o que estavam pensando em relação a eles”, conta o Padre Massimo Ramondo.

“Estes acontecimentos têm sido pautados pela intolerância”, disse Dom Zenildo Luiz Pereira da Silva, bispo de Borba. “São atitudes que não têm nada a ver com a vida da igreja, ainda que envolvam membros do clero, mas estão absolutamente fora daquilo que é a perspectiva global da igreja.” Para o Bispo, “o mundo está atravessando um momento sombrio, o que se percebe com democracias de algumas nações do mundo, de algumas recorrências à modelos impositivos, eu tenho receio que estejamos no início de uma constatação da humanidade que está adoecida”. Para ele essa dificuldade de acolhida, de ouvir o outro é o reflexo da humanidade que está perdendo a capacidade de dialogar. “É a tal sociedade líquida.”, finaliza.


Escrito por Janaína Cesar

Formada pela Universidade São Judas Tadeu, trabalha há 17 anos como jornalista e vive há 10 na Itália, onde fez mestrado em imigração, na Universidade de Veneza. Escreve para o Estadão, Opera Mundi, IstoÉ e alguns veículos italianos como GQ, Linkiesta e il Giornale di Vicenza. Foi gerente de projetos da associação Il Quarto Ponte, uma ONG que trabalha com imigração.

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