Brusque faz racismo no futebol brasileiro alcançar outro patamar

O meia Celsinho, do Londrina, com seu cabelo black-power: após injúria racial durante jogo, ataque racista em nota oficial do Brusque (Foto: Divulgação/Londrina)

Após ofensa racial a jogador do Londrina, clube catarinense, primeiro a ser patrocinado por empresário bolsonarista, divulga nota ainda mais racista

Por Oscar Valporto | ODS 10 • Publicada em 30 de agosto de 2021 - 21:47 • Atualizada em 11 de setembro de 2021 - 10:37

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O meia Celsinho, do Londrina, com seu cabelo black-power: após injúria racial durante jogo, ataque racista em nota oficial do Brusque (Foto: Divulgação/Londrina)

Racismo nos campos de futebol não é novidade no Brasil nem em outras partes do mundo. As entidades esportivas – umas mais, outras menos – têm punido jogadores, times e torcidas. No último fim de semana, a violência racial alcançou outro patamar por aqui, após jogo da Série B, no sábado (28/08), em que o catarinense Brusque recebeu o Londrina em seu estádio. O jogador Celsinho, do time paranaense, ouviu: “Vai cortar esse cabelo, seu cachopa de abelha”, vindo da camarote onde estavam pessoas ligadas ao Brusque, além de outras ofensas.

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Ficasse aí, seria ruim, mas não seria inédito. O Brusque conseguiu tornar o ataque racista mais abjeto com uma nota oficial racista, divulgada no domingo (29/08), quase 24 horas depois do jogo. “O atleta, por sua vez, é conhecido por se envolver neste tipo de episódio. Esta é pelo menos a 3ª vez, somente este ano, que alega ter sido alvo de racismo, caracterizando verdadeira ‘perseguição’ ao mesmo”, atacava a nota oficial.

Em apenas duas frases, o clube catarinense, em primeiro lugar, acusa Celsinho de se envolver em episódios racistas como se ele não fosse a vítima e, sim, o autor. Em seguida, afirma que o jogador “alega ter sido alvo de racismo” pela terceira vez, como se os atos criminosos não estivessem comprovados; nos dois casos anteriores, inclusive, gravados. Em julho, durante a transmissão do jogo entre Goiás e Londrina, o narrador Romes Xavier, da Rádio Bandeirantes de Goiânia, comentou sobre o cabelo black power de Celsinho: “Esse cabelo deve pesar demais, né, Vinicius?”. Ao que o comentarista Vinicius Silva emendou de primeira. “Parece mais uma bandeira de feijão a cabeça dele do que um verdadeiro cabelo. Não é porque eu estou perdendo os cabelos que eu vou achar um negócio imundo desse bonito”. Os dois foram afastados pela emissora após a repercussão dos comentários racistas.

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Uma semana depois, o Londrina estava em Belém para enfrentar o Remo e Cláudio Guimarães, da Rádio Clube do Pará, narrou durante ataque paranaense: Celsinho vai “com seu cabelo meio ninho de cupim para bater na bola”. Guimarães também perdeu o posto na rádio. Os três comunicadores pediram desculpas pelas injúrias raciais das quais o Brusque debocha ao colocar perseguição entre aspas na já famosamente abjeta nota oficial. Os jogadores do Londrina chegaram a fazer um protesto – ajoelhados e com punhos para cima – numa partida em casa.

Manifestação antirracista do time do Londrina em partida da Série B: Celsinho já sofreu três ataques racistas (Foto: Ricardo Chicarelli/Londrina E.C. - 20/07/2021)
Manifestação antirracista do time do Londrina em partida da Série B: Celsinho já sofreu três ataques racistas (Foto: Ricardo Chicarelli/Londrina E.C. – 20/07/2021)

O comunicado do Brusque ataca Celsinho chamado de contraditório e oportunista. “Importante esclarecer que, ao árbitro, o atleta não relatou ter sido chamado de ‘macaco’, mas sim que teriam dito ‘vai cortar esse cabelo de cachopa de abelha’, o que constou da súmula e revela a total contradição nos seus relatos”. Fica claro, portanto, que o Brusque não considera chamar o cabelo black power de “cachopa de abelha” um ataque racista.

Na súmula, o árbitro Fábio Augusto Santos Sá informa que “por volta dos 45 minutos do 1º tempo, o atleta do londrina sr. Celso Luis Honorato Júnior informou ao quarto árbitro que foi ofendido com as seguintes palavras: ‘vai cortar esse cabelo, seu cachopa de abelha’, por um homem na arquibancada, que foi identificado pelo coordenador da CBF, sr. Ricardo Luiz, como Julio Antônio Petermann, staff da equipe do Brusque”. Petterman é presidente do Conselho Deliberativo. Na súmula, o árbitro informa que a ofensa racista foi confirmada por dirigentes do Londrina

A nota abjeta tenta confundir a comunidade ao dizer que Celsinho disse ter sido chamado de “macaco”. Na realidade, em entrevista após a partida, repórteres perguntaram se ele tinha ouvido ofensas racistas ou sido chamado de macaco. “De fato aconteceu. Aquele senhor de vermelho ali no camarote”, disse apenas o jogador, criticando ainda a quantidade de pessoas no estádio quando o protocolo não permite. “É inadmissível, ainda mais vindo de um clube que acabou de subir para a série B”, lamentou em entrevista ao SporTV, acrescentando que as providências seriam tomadas.

Antes de chegarmos as providências, vamos deixar a direção do time catarinense ir mais longe para levar o racismo a outro patamar ao prometer processar a vítima de ataque racista. “O Brusque F.C. reitera que nenhum de seus diretores praticou qualquer ato de racismo e tomará todas as medidas cabíveis para a responsabilização do atleta pela falsa imputação de um crime. Racismo é algo grave e não pode ser tratado como um artificio esportivo, nem, tampouco, com oportunismo”, encerrava o comunicado.

Jair Bolsonaro com camisa do Brusque e jogo do Brasil na TV: Havan, do empresário bolsonarista Luciano Hang, patrocina o time catarinense (Foto: Reprodução/Twitter)
Jair Bolsonaro com camisa do Brusque e jogo do Brasil na TV: Havan, do empresário bolsonarista Luciano Hang, patrocina o time catarinense (Foto: Reprodução/Twitter)

Não se sabe quem é o autor intelectual do racismo por escrito da nota. Mas cabe contar um pouco da história recente do Brusque, que foi o primeiro investimento no futebol de Luciano Hang, empresário bolsonarista conhecido por suas berrantes roupas verdes ou amarelas e o apelido de Véio da Havan, nome de sua empresa varejista que tem sede justamente em Brusque. Hang, investigado no inquérito das fake news no STF, investe há mais de uma década no clube, mas turbinou o patrocínio com a eleição de Bolsonaro. O Brusque foi campeão da Série D em 2019 e subiu da série C para a B em 2020. Nesses últimos anos, a Havan passou a patrocinar outros clubes como Vasco, Atlético Paranaense e, mais recentemente, o Flamengo.

Na tarde de segunda-feira (30/08), a Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) informou que está analisando como será feita a denúncia sobre o caso de racismo relatado pelo meia Celsinho no jogo entre Brusque x Londrina. Serão avaliados a súmula e os vídeos para definir quem e em quais artigos será feita a denúncia. Em nota também na segunda, o Londrina garantia que ia tomar medidas “nas esferas criminal, cível e desportiva” com o objetivo de “punir atos repugnantes como este, a fim de não serem mais praticados”.

A repercussão negativa da abjeta nota racista obrigou o Brusque a mudar de tom e divulgar outro comunicado, no começo da noite de segunda, 48 horas após o insulto racista durante o jogo. “O Brusque Futebol Clube diante do ocorrido vem respeitosamente pedir desculpas ao atleta Celso Honorato Junior pelo transtorno causado a sua pessoa, a nossa torcida, simpatizantes, patrocinadores e imprensa devido ao nosso posicionamento equivocado”, afirma o texto, que pede compreensão pelo racismo.

“Esperamos que entendam esse momento infeliz que estamos vivendo, cabe a nós, humildemente reconhecer o erro da nota anterior e pedir desculpas mais uma vez ao atleta Celsinho e a compreensão de todos. O Brusque FC tomará todas as medidas cabíveis diante do ocorrido e vai apurar os fatos”, acrescenta a nota que, ao contrário da primeira em nome apenas do clube, está assinada pelo presidente Danilo Rezini, apontada pela mídia catarinense, como amigo de Luciano Hang.

Vamos aguardar as medidas cabíveis da Justiça Esportiva, da CBF e das próprias autoridades policiais e judiciárias sobre a ofensa racista durante o jogo e a nota ainda mais racista divulgada pelo Brusque depois. O clube catarinense – que já teve seu momento de fama nacional ao ter a camisa usada pelo presidente Jair Bolsonaro em post durante a Copa América – anda, realmente, em péssima fase: depois de liderar a Série B após as três primeiras rodadas, foi desabando na tabela e não vence a sete jogos (ficou no 0x0 contra o Londrina). E elevar o racismo a novo patamar só vai piorar a imagem do Brusque.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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Um comentário em “Brusque faz racismo no futebol brasileiro alcançar outro patamar

  1. Ricardo Salles disse:

    O “reporti” (já um senhor), conseguiu ligar o caso ao Presidente da República e a um empresário. É muita vontade de ser babaca, né?? Por isso ngm respeita a classe jornalística e qualquer um escreve um texto como esse.

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