Memórias de um pugilista da Justiça Social

Em sua biografia, Suplicy conta como se aproximou dos Yanomamis. Foto Acervo pessoal

Ao completar 80 anos, Suplicy lança primeiro volume de sua autobiografia

Por Florência Costa | ODS 10 • Publicada em 17 de dezembro de 2021 - 11:18 • Atualizada em 19 de dezembro de 2021 - 11:47

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Em sua biografia, Suplicy conta como se aproximou dos Yanomamis. Foto Acervo pessoal

Há vários jeitos de se fazer política, mas o de Eduardo Suplicy – inconfundível – rendeu-lhe muito mais do que votos: respeito.  Chamado informalmente de “eterno Senador da República”, ele é hoje vereador em São Paulo, um campeão nacional de votos para este cargo. Amante do boxe, mas pacifista de carteirinha, está no ringue da política há 43 anos (24 deles no Senado), desde que foi eleito deputado estadual pelo antigo MDB. Da arena de luta, esse pugilista da Justiça Social e dos Direitos Humanos, um dos fundadores do PT, nunca se deixou nocautear: seu projeto de vida e do coração, a Renda Básica de Cidadania, acabou sendo sancionada como lei em 8 de janeiro de 2004 pelo então presidente Lula após 30 anos de campanha ininterrupta: “Foi um dos dias mais felizes da minha vida”.

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Suplicy marcou os seus 80 anos de vida, completados em junho, com o lançamento do primeiro volume de sua autobiografia: “Um Jeito de Fazer Política” (Ed. Contracorrente), com 101 fotos, muitas inéditas. O livro foi escrito em parceria com Monica Dallari, sua amiga de longa data, responsável pelo projeto, pesquisa e texto final, e editado pelo jornalista Jorge Felix. O segundo volume, “Meus 24 anos no Senado, está previsto para 2022.

Neste primeiro volume, ele descreve sua infância, o casamento dos pais, o nascimento de três filhos que teve com Marta Suplicy e o amor pelos netos. As memórias também ressaltam as suas relações travadas enquanto político. Suplicy relata, por exemplo, como conheceu e ajudou Anderson Herzer, a primeira pessoa trans no Brasil a escrever uma autobiografia: “Queda para o Alto” (Editora Vozes). “O livro continha denúncias sobre a Febem. O principal objetivo era relatar os fatos para que diminuíssem a violência, a corrupção, a tortura e o massacre de crianças e adolescentes que necessitavam apenas de amor e compreensão”, explica o vereador.

Suplicy campeão de boxe. Foto Acervo pessoal
Suplicy campeão de boxe. Foto Acervo pessoal

Ele conta também em suas memórias como se aproximou dos índios Yanomami e detalha seu envolvimento com Mano Brown. Essa amizade recebe atenção especial na obra e não é à toa que o rapper escreve um dos dois prefácios: “É talvez um dos únicos – talvez exista mais uma ou duas pessoas – com o nível de respeito que o Eduardo Suplicy tem na periferia, entre os jovens, entre os negros, entre a rapaziada da arte, entre os caras de mente, de vanguarda do rap. Vários setores da periferia, não só da música, entendem que é um cara certo. No Brasil, quando você tem o rótulo de ser certo, não é pouca coisa”, testemunhou.  Brown conta que sempre ouviu relatos na periferia de pessoas que, quando presas, recebiam cartas escritas à mão pelo político. “A gente sabe que podia contar com ele. Saber que você pode ligar para um cara e ele não vai fugir de você, isso é muita coisa”, escreveu o artista.

O outro prefácio, do teólogo Leonardo Boff, ressalta a defesa incansável que ele sempre fez dos mais vulneráveis: “Eduardo Suplicy nunca fez da política uma profissão, mas uma missão de serviço ao bem comum, a opção clara para com os mais destituídos e para com os movimentos sociais das cidades e do campo. Não só apoiou os empobrecidos, os catadores de materiais recicláveis, o Movimento dos Sem-terra e Sem-teto, os movimentos negros e indígenas e as lutas das mulheres por mais dignidade e participação bem como os LGBTQIA+ a partir de um burocrático gabinete de senador em Brasília, mas estando fisicamente presente em quase todos esses grupos”.

O livro passeia por alguns episódios que marcaram a vida de São Paulo e do Brasil, dos quais Suplicy participou como negociador: a desocupação, em 2012, da área conhecida como Pinheirinho (São José dos Campos); a luta pela preservação do Teatro Oficina; o estímulo às várias formas de cooperativas de produção; o apoio aos acampados do MST em tensas negociações em áreas ocupadas no interior de São Paulo em 1997; e a rebelião na Casa de Detenção em 2001, a primeira organizada pelo PCC no Estado de São Paulo, quando dormiu no local para evitar que ocorresse um massacre.

Eduardo Suplicy com cantora Joan Baez no Teatro Tuca, em São Paulo. Foto Acervo Pessoal
Eduardo Suplicy com cantora Joan Baez no Teatro Tuca, em São Paulo. Foto Acervo Pessoal

Estar presente nesses eventos e viver essas situações foi fundamental para a sua atuação e Suplicy aconselha aos jovens que queiram entrar na Política a mesma disposição: “Para ser justo, eu preciso conhecer a verdade e as situações a fundo, mesmo que trabalhosas. Para isso, devo estar em contato com as pessoas. Ser um homem público significa estar sintonizado com a vida e os problemas das pessoas e dos lugares onde vivem”.

Um trecho mais pessoal e picante é o que se refere à sua relação com a cantora de protestos Joan Baez – e o beijo que ela lhe deu na boca em um hotel no Rio. “Fui encontrá-la no Hotel Excelsior e a convidei para almoçarmos no Copacabana Palace. Era incrível, porque tínhamos muitos assuntos interessantes em comum. Carinhosamente, Joan Baez falou que eu fazia lembrar uma pessoa de quem gostava muito. Acabou o almoço, e voltamos caminhando para o hotel. Como eu tinha que confirmar a minha palestra em Brasília, subi ao quarto dela para usar o telefone. Enquanto eu falava, ela veio até mim e me deu um beijo muito especial na minha boca. Foi só isso que aconteceu. Nos despedimos, e fui embora. Liguei, então, para a Marta e resolvi contar a minha aventura. Ela ficou muito brava”, descreveu.

Mas o ponto alto de suas memórias não poderia deixar de ser a Renda Básica de Cidadania. Suplicy conta que visitou, em janeiro de 2019, o Quênia, país que implanta esse projeto e já pode constatar a emancipação das mulheres. “A distribuição de uma Renda Básica Universal nas vilas rurais extremamente pobres, no Quênia, está revolucionando positivamente a vida das mulheres. Além de ter reduzido em mais de 50% a violência doméstica, a renda básica propiciou que as mulheres ganhassem autonomia, voz dentro da família e o direito de empreender novas atividades”, diz.

No Brasil, Suplicy destaca a experiência de Maricá, onde um quarto da população (42,5 mil habitantes) já está recebendo a Renda Básica de Cidadania. “A universalização no município está prevista para beneficiar todos os seus habitantes até 2024”, afirmou. O vereador mais famoso do Brasil tem entre as suas principais inspirações, Martin Luther King, Mahatma Gandhi e Papa Francisco.

“Mais recentemente o Papa tem conclamado a todos chefes de Estado e aos povos para colocar em prática os instrumentos de política econômica que signifiquem a realização da Justiça. No seu último livro, ‘Vamos Sonhar Juntos’, na página 143, há dois parágrafos onde o Papa conclama a todos, após a pandemia, colocar em prática a Renda Basica Universal”, lembrou Suplicy. Com seu jeitao manso e insistente, ele nunca jogou a toalha e por isso mesmo agora vê suas ideias ganharem mais força justamente em um momento em que o Brasil e o mundo afundam em desigualdades.

Florência Costa

Jornalista freelance especializada em cobertura internacional e política. Foi correspondente na Rússia do Jornal do Brasil e do serviço brasileiro da BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia e foi correspondente do jornal O Globo. É autora do livro "Os indianos" (Editora Contexto) e colaboradora, no Brasil, do website The Wire, com sede na Índia (https://thewire.in/).

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