Expectativa de vida dos brasileiros chegará a 88 anos em 2100

Casal de idosos passeia na orla de Copacabana. Expectativa de vida no Brasil chegará a 88 anos em 2100. Foto Allan Carvalho/AGIF via AFP

Projeções da ONU indicam que o mundo terá mais de 10 bilhões de habitantes em 2060 e Brasil ultrapassará os 230 milhões em 2045

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 10 • Publicada em 11 de julho de 2022 - 13:10 • Atualizada em 18 de julho de 2022 - 12:35

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Casal de idosos passeia na orla de Copacabana. Expectativa de vida no Brasil chegará a 88 anos em 2100. Foto Allan Carvalho/AGIF via AFP

A Divisão de População da ONU divulgou, neste Dia Mundial de População, 11 de julho de 2022, as novas projeções demográficas para todos os países e regiões do mundo. São as primeiras divulgadas depois da covid-19 e já incorporam os efeitos da pandemia na dinâmica populacional nas várias escalas geográficas. Os novos números nacionais e internacionais estavam sendo bastante aguardados, pois os novos cenários demográficos são essenciais para o planejamento das políticas de saúde, educação, assim como para todas aquelas políticas de longo prazo fundamentais para o desenvolvimento econômico com justiça social e ambiental.

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As projeções da ONU apresentam três cenários populacionais até 2100. O cenário médio construído com base nas informações disponíveis, é o mais provável. A cada dois anos as projeções são refeitas, incorporando novos fatos e novas evidências registradas. Em geral, as projeções populacionais são muito consistentes e muito mais previsíveis do que as projeções econômicas. Enquanto a economia pode variar no ritmo de um Jet Sky, as tendências demográficas são como um transatlântico que requer tempo para viradas de rumo.

O gráfico abaixo mostra a evolução da população mundial, que era de 2,5 milhões de habitantes em 1950 e passou para 7,9 milhões em 2021 (mais que triplicou em 71 anos). A pandemia da covid-19 aumentou o número de óbitos e diminuiu o número de nascimentos entre 2020 e 2022. No entanto, alterou pouco as tendências de longo prazo. A população mundial, de 01 de julho de 2022, é de 7,975 bilhões de habitantes e, na projeção média, deve alcançar um pico máximo de 10,43 bilhões de habitantes em 2086 e apresentar um declínio para 10,35 bilhões em 2100. É a primeira vez que a ONU apresenta um cenário médio com tendência de decrescimento absoluto da população mundial ainda no século XXI.

No cenário baixo (que pressupõe uma queda rápida das taxas de fecundidade), o pico da população aconteceria em 2053, com 8,94 bilhões de habitantes e um posterior declínio para 7 bilhões de habitantes em 2100. No cenário alto (que pressupõe taxas de fecundidade aproximadamente no patamar atual), a população continuaria crescendo até atingir o montante de 14,8 bilhões em 2100.

O gráfico abaixo mostra a população do Brasil e as projeções até 2100. A população brasileira era de 53,9 milhões de habitantes em 1950 e passou para 214,3 milhões em meados de 2021. A população brasileira estimada para 01 de julho de 2022 é de 215,3 milhões e, na projeção média, deve alcançar um pico máximo de 231,2 milhões de habitantes em 2047 e apresentar um decrescimento para 184,5 milhões em 2100. No cenário baixo, o pico da população aconteceria em 2032, com 220 milhões de habitantes e um declínio para 119,3 milhões de habitantes em 2100. No cenário alto, a população continuaria crescendo até atingir o montante de 273,4 milhões em 2100.

Segundo a variante média da projeção populacional da ONU, o século XXI apresentará um ritmo cada vez menor de crescimento demográfico, sendo que a população do Brasil vai começar a decrescer em 2048 e a população mundial em 2087. Isto acontece pela redução das taxas de fecundidade e não pelo aumento das taxas de mortalidade.

O gráfico abaixo mostra que a expectativa de vida ao nascer apresentou e deverá continuar apresentando ganhos extraordinários entre 1950 e 2100. Tanto o Brasil quanto o mundo tinham uma expectativa de vida pouco abaixo de 50 anos em 1950 e tiveram um expressivo aumento nos 70 anos seguintes. O mundo teve uma queda curta e brusca da expectativa de vida no início dos anos de 1960 devido à grande fome que ocorreu na China naquela época. Em 2019, a expectativa de vida estava em 72,8 anos no mundo e 75,3 anos no Brasil. Mas com a pandemia da covid-19 houve aumento da mortalidade e a expectativa de vida caiu, em 2021, para 71 anos no mundo e para 72,8 anos no Brasil. Nos cálculos da Divisão de População a expectativa de vida ao nascer deve apresentar um ganho em 2022 e deve superar as marcas de 2019 tanto no Brasil quanto no mundo em 2023. Para 2100 as estimativas são de 82,1 anos no mundo e 88,2 anos no Brasil.

Considerando os estratos de renda per capita, o gráfico abaixo mostra que, em 1950, os países de renda alta (países desenvolvidos) tinham uma população de 687 milhões de habitantes (representando 27,6% da população total), os países de renda média alta tinham 900 milhões de pessoas (36,1% do total), os países de renda média baixa tinham 789 milhões de pessoas (31,6% do total) e os países de baixa renda apenas 117,4 milhões de pessoas (4,7% do total).

Ao longo de 150 anos, os países de renda alta devem atingir 1,19 bilhão de habitantes (11,5% do total) em 2100, um crescimento de 1,7 vezes no período. Os países de renda média alta devem atingir, em 2100, uma população de 1,87 bilhão de habitantes (18,2% do total), um crescimento de 2,1 vezes. Os países de renda média baixa devem atingir 4,99 bilhões de habitantes (48,4% do total) e um crescimento de 6,3 vezes no período. Os países de renda baixa devem atingir, em 2100, um montante de 2,27 bilhões de habitantes (22% do total), um crescimento demográfico de 19 vezes no período de 150 anos.

Desta forma, a soma dos dois grupos de renda média alta e renda alta deve atingir 3,1 bilhões de habitantes em 2100, representando 30% da população global e a soma dos países de renda média baixa e renda baixa deve atingir 7,3 bilhões de habitantes em 2100, representando 70% da população mundial. O desafio será enorme no século XXI para o mundo superar a pobreza e melhorar o bem-estar humano, com respeito ao meio ambiente, pois 70% da população estará nos estratos mais baixos de renda.

Considerando os 10 países mais populosos do mundo, a tabela abaixo mostra o Brasil, com 53,9 milhões de habitantes, em 8º lugar no ranking dos países mais populosos em 1950. Nota-se que, em meados do século passado, na lista liderada pela China, Índia e EUA havia 4 países europeus (Rússia, Alemanha, Reino Unido e Itália) entre as 10 nações com maior número de habitantes do Planeta.

Na virada dos anos 2000, o Brasil alcançou o 5º lugar no ranking, mas foi ultrapassado pelo Paquistão em 2019 e pela Nigéria no corrente ano. A China continua liderando a lista em 2022, mas deve ser superada pela Índia em 2023. Os EUA se mantiveram em 3º lugar em 2022, a Indonésia saltou para o 4º lugar, a Rússia caiu para o 9º lugar e o México aparece como o 10º país mais populoso em 2022.

Para 2100 o quadro muda bastante. A Índia que vai assumir a liderança do ranking no ano que vem, deve continuar crescendo até atingir 1,7 bilhões de habitantes em 2063, quando iniciará uma fase de decrescimento até 1,53 bilhão em 2100. A China, que começará a diminuir de tamanho no ano que vem, deverá decrescer para 767 milhões de habitantes em 2100 (perdendo 660 milhões de pessoas nos próximos 78 anos). Os EUA continuarão apresentado crescimento demográfico, mas em ritmo cada vez mais lento e devem atingir 394 milhões de habitantes em 2100, ficando em 6º lugar no ranking global. A Nigéria deve subir do 6º lugar para o 3º lugar, com uma população de 546 milhões de habitantes em 2100. O Paquistão com quase meio bilhão de habitantes ficará em 4º lugar no final do atual século.

A República Democrática do Congo que tem uma população de 99 milhões de habitantes em 2022 deve dar um salto para 432 milhões em 2100, ficando em 5º lugar no ranking. A Etiópia que tem uma população de 123,4 milhões em 2022 deve passar para 324 milhões em 2100, ficando em 7º lugar no ranking. A Tanzânia que tem uma população de 65,5 milhões de habitantes em 2022 deve alcançar 245 milhões em 2100, ficando em 9º lugar. E o Egito que tem população de 110 milhões de habitantes em 2022 deve passar para 205 milhões em 2100, ficando em 10º lugar no ranking global.

O Brasil que tem uma população estimada em 215 milhões de habitantes em 01 de julho de 2022, deve alcançar o pico de 231 milhões em 2047 e cair para 184 milhões em 2100, ficando na 11ª posição do ranking global e fora da lista dos 10 países mais populosos do mundo. Nota-se que não haverá nenhum país europeu no topo do ranking no final do século. Por outro lado, não havia nenhum país africano na lista dos 10 mais em 1950 e haverá 5 países da África na lista dos 10 países mais populosos em 2100.

Indiano pilota uma motocicleta sobrecarregada. A Índia deve ultrapassar a China em 2023 e passará a ser o país mais populoso do mundo. Foto Ritesh Shukla/NurPhoto via AFP
Indiano pilota uma motocicleta sobrecarregada. A Índia deve ultrapassar a China em 2023 e passará a ser o país mais populoso do mundo. Foto Ritesh Shukla/NurPhoto via AFP

A dinâmica demográfica global segue o seu ritmo desigual e combinado e tem aspectos dinâmicos e complexos que vão se aprofundar no restante do século XXI. Neste momento em que o mundo convive com uma tempestade perfeita – pandemia, crise climática e guerra na Ucrânia – a pobreza e a fome estão aumentando no mundo e as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) não devem ser alcançadas até 2030. Neste sentido, a redução do incremento populacional é uma boa notícia para a mitigação e a adaptação das crises superpostas. O decrescimento demo econômico global está cada vez mais no radar das políticas públicas internacionais. A redução populacional é essencial para a luta pela justiça social e ambiental.

No material de divulgação dos novos cenários das projeções demográficas, a Divisão de População da ONU destaca 12 mensagens chave:

  1. A população mundial continua crescendo, mas em ritmo cada vez menor.

  2. A população mundial está projetada para chegar a 8 bilhões em 15 de novembro de 2022.

  3. O rápido crescimento populacional é causa e consequência do lento progresso do desenvolvimento.

  4. Embora a expectativa de vida continue aumentando globalmente, grandes disparidades permanecem.

  5. Uma parcela crescente da população em idade ativa (1º bônus demográfico) pode ajudar a impulsionar o crescimento econômico per capita.

  6. O montante de idosos está aumentando tanto em número quanto em proporção em relação ao total populacional.

  7. Mais e mais países começaram a experimentar o decrescimento demográfico.

  8. A migração internacional está causando impactos importantes nas tendências populacionais de alguns países.

  9. A pandemia de covid-19 afetou todos os três componentes da dinâmica populacional.

  10. A alta fecundidade e o rápido crescimento populacional apresentam desafios para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A necessidade de educar um número crescente de crianças e jovens, por exemplo, subtrai recursos dos esforços para melhorar a qualidade da educação.

  11. Para países com altos níveis de fecundidade, alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), particularmente aqueles relacionados à saúde, educação e gênero, provavelmente ajudará a transição para uma fecundidade mais baixa e um crescimento populacional mais lento.

  12. Os dados populacionais fornecem informações críticas para uso no planejamento do desenvolvimento.

Nos próximos artigos vamos aprofundar o debate demográfico, com base nas novas projeções da ONU, relacionando a dinâmica populacional com as questões ambientais, as políticas para superar a pobreza e para diminuir as desigualdades sociais, mostrando que a análise das questões demográficas importa e é essencial para a construção de um mundo mais justo, com bem-estar humano e ecológico.

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

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