Diversidade no jornalismo: como estruturar as redações para serem mais inclusivas?

Corrida da Meritocracia no Jornalismo. Ilustração: Beatriz Cristina

Debate promovido pelo Festival 3i mostrou caminhos de construção para uma comunicação verdadeiramente antirracista e com pautas urgentes à sociedade para o combate aos mais diversos tipos de preconceito

Por Yuri Fernandes | ODS 10 • Publicada em 22 de março de 2022 - 20:46 • Atualizada em 24 de março de 2022 - 17:56

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Corrida da Meritocracia no Jornalismo. Ilustração: Beatriz Cristina

Como estruturamos as redações para serem mais inclusivas e isso se refletir na produção? Foi essa a principal pergunta que norteou a mesa “Diversidade no jornalismo – como fazer”, promovida pelo Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente – na segunda-feira, 21. O debate mostrou caminhos de construção, num movimento de dentro pra fora das redações, para uma comunicação verdadeiramente antirracista e com pautas urgentes à sociedade para o combate aos mais diversos tipos de preconceito. 

Confira a programação completa do Festival 3i

O Festival, com uma programação 100% virtual, gratuita e multiplataforma, tem como pauta o futuro da profissão e como público-alvo estudantes, empreendedores e jornalistas. Até o dia 25, serão 34 mesas, painéis e diálogos transmitidos pelo canal do festival no Youtube e pelo Facebook.

O racismo na mídia e como combatê-lo 

Entre os profissionais convidados para a mesa sobre diversidade, Midiã Noelle, jornalista, midiativista e idealizadora da iniciativa Commbne (Comunicação baseada em inovação, raça e etnia). Em seu tempo, Midiã usou de toda sua bagagem profissional – ela também ministra cursos sobre comunicação antirracista – para primeiramente alertar que a mídia muitas vezes reproduz o racismo da sociedade ao invés de combatê-lo. 

Demonstrou na prática como isso é feito quando em um título de notícia uma pessoa presa com 42 kg de cocaína e 16 kg de crack é chamada de estudante de medicina. Enquanto pessoas negras são taxadas como traficantes nos mais variados contextos. Ela enfatiza que o racismo é um problema das pessoas brancas. E que o posicionamento é fundamental. 

“A comunicação acaba sendo um instrumento de manutenção do racismo, que é estrutural e institucionalizado nos meios de comunicação. Quando uma pessoa branca não se posiciona, ela corrobora com o racismo. Não adianta na redação o jornalista ver situações de racismo e discursos que violentam a imagem do que é ser negro e não se posicionar”, afirma. 

Não adianta na redação o jornalista ver situações de racismo e discursos que violentam a imagem do que é ser negro e não se posicionar

Midiã Noelle
Jornalista

Midiã também compartilhou algumas dicas para não ser ser racista no espaço de trabalho jornalístico, como: não criminalizar a pobreza; não naturalizar violências cometidas contra pessoas negras; usar linguagem na perspectiva de raça e etnia (inclusiva e respeitosa); riscar expressões racistas do vocabulário; não normalizar a sexualização de corpos negros; e ter humanidade com vítimas de violência. 

O papel das universidades

Quem também compôs a mesa foi Helton Gomes, editor do Núcleo de Diversidade do Uol, que também destacou que o jornalismo não está distante do que a sociedade é, com todos seus vieses, com todos seus problemas e com todas as suas complexidades. E que a diversidade é um desafio para todos. 

“Tornar uma redação mais diversa é papel de homens, é papel de pessoas cis, de pessoas brancas. É uma forma cada vez mais complexa de fazer com que cada um olhe para si e se pergunte se essa é a única forma de se conectar com o público”.  

Ele ressaltou que o discurso e a prática sobre a pluralidade precisa começar ainda nas universidades: “Precisamos trazer novos autores que pensem e dialoguem com a comunicação de um lugar que, de alguma forma, supra as demandas de uma população que até então não era ouvida”. 

Diversidade nas tomadas de decisões

Para além da inquietação, do posicionamento e de levantar pautas sobre diversidade nas redações, é preciso transformar as estruturas. Thais Bernardes, jornalista fundadora do portal Notícia Preta, acredita que para um jornalismo de fato diverso é preciso romper com os funis que excluem desde o sistema acadêmico até a estrutura de poder dos meios de comunicação. 

“A gente precisa que pessoas negras, indígenas e LGBTQIA + ocupem lugares de poder e de tomadas de decisão. O jornalismo diverso vai realmente existir quando as pessoas que ocupam lugares de poder dentro das redações forem diversas. Um jornalismo que respeite nossa diversidade, que entenda a nossa união e o que a gente quer”.

O jornalismo diverso vai realmente existir quando as pessoas que ocupam lugares de poder dentro das redações forem diversas

Thaís Bernardes
Jornalista

O Notícia Preta, do qual Thaís é CEO, é um jornal antirracista que acredita na comunicação como uma ferramenta de não reprodução de preconceitos e estereótipos. Para a profissional, mídias que lutam por essa comunicação existem desde o século XIX, apesar de muita gente acreditar que é um movimento recente. Falta visibilidade e, principalmente, investimentos para que mais “Notícias Pretas” Brasil afora possam se desenvolver. 

“Hoje, a gente tem muita dificuldade de permanecer e crescer para poder trazer os ‘pequenos’, porque a gente também não tem investimento. Se você acredita e quer um jornalismo diverso, invista em veículos antirracistas, assine e compartilhe os links”. 

Os convidados concordaram que para haver diversidade no jornalismo é preciso ultrapassar barreiras desde o ingresso na profissão até a publicação de narrativas antirracistas. O que inclui a existência de políticas afirmativas nas universidades até manter equipes diversas nas organizações, inclusive em cargos de chefia.

Pelo fim da ‘brotheragem’ branca

Apenas 20% dos jornalistas são negros. É o que mostrou o estudo Perfil Racial da Imprensa Brasileira, E 98% afirmaram que os profissionais de imprensa negros enfrentam mais dificuldades em suas carreiras do que os colegas brancos. Sanara Santos, comunicadora e produtora do Énois Laboratório de Jornalismo, foi a mediadora do debate. Ao costurar as opiniões dos convidados, ela, que é uma mulher trans, ressaltou que a diversidade vem justamente do deslocamento.

“É preciso colocar mulheres cis, mulheres trans, indígenas, negras, PCDs, nos espaços de poder para romper com essa ‘brotheragem’ branca que leva a um jornalismo isento, mas isento de forma branca, hétero e cis normativa. Essa isenção não contempla muito mais da metade dos corpos brasileiros. A gente na verdade é atropelado por essa isenção”.

Yuri Fernandes

Yuri Fernandes é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora e roteirista pela Academia Internacional de Cinema. Trabalhou nas redações de Bom Dia Brasil, Fantástico e EGO. Em 2017, passa a fazer parte do time do #Colabora e do #Colabora Marcas, agência de branded content. No ano seguinte, lança a websérie “LGBT+60: corpos que resistem”, com depoimentos de idosos LGBT+. O projeto alcança mais de 1 milhão de views no YouTube, é exibido em diversos seminários e festivais, e vence o Prêmio Longevidade Bradesco Seguros, em 2019. No mesmo ano, Yuri Fernandes também é laureado com o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, com a série “Sem direitos: o rosto da exclusão social no Brasil”. Por meio do jornalismo humanizado, busca ecoar vozes de minorias sociais, sobretudo, da comunidade LGBT+.

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