Carnaval SP: enredo sobre a atriz negra Léa Garcia dá título à Mocidade Alegre

Escola de samba destaca momentos marcantes da trajetória profissional e também sua ancestralidade e representatividade africana

Por #Colabora | ODS 10
Publicada em 18 de fevereiro de 2026 - 10:53  -  Atualizada em 18 de fevereiro de 2026 - 11:51
Tempo de leitura: 7 min

Mocidade Alegre em seu desfile sobre Léa Garcia: trajetória profissional e ancestralidade e representatividade africana no Sambódromo do Anhembi (Foto: Felipe Araújo / Liga-SP)

Com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”, desenvolvido para celebrar o pioneirismo e o protagonismo negro da atriz Léa Garcia, que morreu em 2023 aos 90 anos, a Mocidade Alegre conquistou o título de campeã do Carnaval 2026 de São Paulo, após apuração realizada nesta terça-feira (17/2) no Sambódromo do Anhembi. A escola de samba destacou momentos marcantes da trajetória de Léa Garcia, com fantasias e alegorias que revisitavam sua carreira, desde as origens no Teatro Experimental do Negro até os papéis consagrados no cinema e na televisão.

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A  e de Léa Garcia estiveram entre as principais características do desfile da Mocidade Alegre. Consagração da negritude/ Resiste entre tantos personagens/ A pele preta é armadura / No palco, expressão de liberdade”, exalta o samba-enredo. Ela rompeu barreiras do racismo e conquistou reconhecimento internacional ao participar do premiado filme Orfeu Negro, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960.

Carro alegórico representação africana da Iemanjá, repleta de conchas, e com efeitos de água: aplausos das arquibancadas para a Mocidade (Foto: Felipe Araújo / Liga-SP)
Carro alegórico representação africana da Iemanjá, repleta de conchas, e com efeitos de água: aplausos das arquibancadas para a Mocidade (Foto: Felipe Araújo / Liga-SP)

Carioca da Praça Mauá, Léa Garcia estreou como atriz aos 19 anos, na peça Rapsódia Negra, encenada pelo Teatro Experimental do Negro, em 1952. Além de uma longa carreira no teatro, onde atuou em muitas peças com temáticas referentes à negritude, à trajetória dos escravizados africanos no Brasil e às religiões de matriz africana, a atriz participou de mais de 30 filmes no cinema e de quase 20 novelas na televisão.

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Os carros alegóricos da Mocidade Alegre foram fundamentais para destacar a trajetória pessoal e profissional da atriz durante o desfile. O carro abre-alas veio coberto de indumentárias africanas fazendo referência à ancestralidade de Léa Garcia; outro carro alegórico arrancou aplausos das arquibancadas por trazer a representação africana da Iemanjá, repleta de conchas, e também pela plasticidade do efeito da queda da água. A alegoria foi inspirada no filme A Deusa Negra, de 1978, do cineasta nigeriano Ola Baloguno, em que Lea interpreta Iemanjá.

Desfile da Mocidade Alegre com enredo para Lea Garcia: atriz morreu aos 90 anos no dia em que seria homenageada no Festival de Gramado (Foto: Felipe Araújo / Liga-SP)
Desfile da Mocidade Alegre com enredo para Lea Garcia: atriz morreu aos 90 anos no dia em que seria homenageada no Festival de Gramado (Foto: Felipe Araújo / Liga-SP)

O samba-enredo da Mocidade Alegre ganhou força principalmente no “lerê, lerê”, em alusão à novela A Escrava Isaura – maior sucesso da Léa Garcia na TV, em que ela interpretou a vilã Rosa – e também no “ô, malunga ê”. Malunga é um termo bantu que significa companheira, amiga. “Saudamos Léa como nossa malunga, companheira de luta. Esse enredo é um tributo àquelas que ousaram existir além dos papéis que lhes foram dados. Lembramos o nome e o rosto de quem forjou a história do nosso país”, explicou a escola na apresentação do enredo.

Outro momento marcante da escola de samba foi quando os ritmistas entraram no recuo da bateria e a rainha Aline Oliveira, cria da Mocidade onde desfila desde a infância, agitou um bandeirão e levantou a arquibancada. Na alegoria final, a atriz Adriana Lessa interpretou Léa Garcia na premiação do Festival de Cinema de Gramado, local onde a artista morreu, aos 90 anos, no dia em que receberia uma homenagem por sua carreira.

A rainha de bateria Aline Oliveira com o bandeirão da Mocidade: momento marcante no desfile (Foto: Felipe Araújo / Liga-SP)
A rainha de bateria Aline Oliveira com o bandeirão da Mocidade: momento marcante no desfile (Foto: Felipe Araújo / Liga-SP)

O desfile também buscou estabelecer uma conexão com a história da própria agremiação. “Aqui, na Mocidade Alegre, o negro sempre esteve em protagonismo”, disse o carnavalesco Caio Araújo. “Léa Garcia merecia ser campeã com essa homenagem”, acrescentou, após a apuração em que a escola conquistou seu 13º título.

No próximo sábado (21/02), a Mocidade Alegre vai encerrar o desfile das Campeãs, que também terá a participação da Gaviões da Fiel, segunda colocada no Grupo Especial de São Paulo, Dragões da Real (3ª), Acadêmicos do Tatuapé (4ª), que levou uma homenagem ao MST e à reforma agrária para o sambódromo, e Barroca Zona Sul (5ª). Completam o desfile a campeã e a vice do Grupo de Acesso 1, Acadêmicos do Tucuruvi e Pérola Negra, e a campeã e a vice do Grupo de Acesso 2, Morro da Casa Verde e X-9 Paulistana.

A escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi levou o título do grupo de acesso do carnaval de São Paulo, com um enredo sobre os anti-heróis brasileiros e foi seguida pela Pérola Negra, que também vai desfilar no Grupo Especial em 2027, com o enredo enredo “Valei-me cangaceira arretada, Maria que abala é gira valente e Bonita que vence demanda”, sobre a trajetória de Maria Bonita.

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