Mulheres, a derrota de Trump

Eleitorado feminino desembarca da campanha do pré-candidato republicano

Por Helena Celestino | artigo ods1 • Publicada em 7 de abril de 2016 - 08:00 • Atualizada em 8 de abril de 2016 - 13:42

Pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, em campanha
Pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, em campanha
Donald Trump, em campanha, exagerou nas frases de efeito de gosto duvidoso e perdeu o apoio do eleitorado feminino.

“Fired”, estão dizendo as mulheres  a Donald Trump, repetindo com gosto o bordão que o magnata usava para demitir os aprendizes incompetentes nas temporadas do seu reality show na televisão. Na época, no mais perfeito estilo cafajeste, ele adorava exibir as namoradas e vangloriar-se de suas proezas com o sexo feminino. Distribuía insultos como se fossem elogios. “Você só tem emprego porque é bonita”, disse a uma jornalista no “The Apprentice”. Na sua atual encarnação política, continuou a reservar adjetivos como “gostosa”, “cachorra” ,“porca gorda” às mulheres no seu caminho e a fazer insinuações sobre o tamanho do seu pênis comparado com o dos rivais. Elas não acharam a menor graça: 73% das americanas – indicam pesquisas – não votarão em Trump no próximo dia 4 de novembro, prenunciando uma derrota para o até agora líder nas primárias do Partido Republicano. Se enfrentasse hoje a candidata democrata Hillary Clinton na eleição geral, Donald Trump perderia por 23 pontos percentuais entre as mulheres. Se o adversário fosse o socialista Bernie Sanders, a derrota seria ainda mais humilhante.

Mulheres são 52% do eleitorado dos EUA e elas se pintaram com as cores da guerra contra a homofobia do pré-candidato doublé de construtor, cujo nome destaca-se no alto das mais horrendas torres de Manhattan. Nunca antes, nem o mais conservador dos políticos defendeu punição criminal para as gestantes que decidem abortar. Trump ousou e foi obrigado a voltar atrás. Legal desde os anos 70, o direito de interromper a gravidez divide a sociedade americana mas a mulher é sempre alvo de cuidados, nunca de punição. Desavisado como sempre, o candidato entrou na discussão sem o menor conhecimento sobre as políticas públicas de saúde da mulher. A revolta contra sua proposta uniu conservadores e liberais.

“Ele é perigoso”, sustentam grupos feministas, em propaganda na televisão.

“Eu errei”, reconheceu pela primeira vez nessa campanha Trump à Maureen Dowd, colunista do New York Times, apesar de também já ter insultado imigrantes, muçulmanos e deficientes físicos.

Estamos falando de alguém que tem a devoção apaixonada de uma minoria e, ao mesmo tempo, assusta, aterroriza e irrita – tudo ao mesmo tempo – a maioria do país. Uma histórica derrota está marcada para acontecer

Henry Olsen
Analista conservador

O erro a que se referiu foi outro: a troca de baixarias entre ele e Ted Cruz – seu principal rival entre republicanos – numa espécie de briga de colegiais de péssimo gosto. Trump divulgou foto horrorosa de Heidi Cruz ao lado de imagem glamurosa de Melanie Trump. E legendou: “Temos de separar os grãos”. Opositores de direita ( Utah Mormons) contra-atacaram com um “nude” da atual Sra Trump – modelo profissional nos anos 2000 – sugerindo que seu estilo não era o desejável para uma primeira-dama. Cruz nega qualquer envolvimento, mas insultos voltaram a cruzar os Estados Unidos.

A pergunta que não quer calar é: Donald Trump tem realmente chances de ser o novo presidente dos EUA ? Não, parece ser a resposta da maioria dos politicólogos e dos institutos de pesquisa. “Estamos falando de alguém que tem a devoção apaixonada de uma minoria e, ao mesmo tempo, assusta, aterroriza e irrita – tudo ao mesmo tempo – a maioria do país. Uma histórica derrota está marcada para acontecer”, disse Henry Olsen, um analista conservador. Pode ser, mas Trump foi o fenômeno das primárias de 2016. Derrotou uma fileira de pré-canditados republicanos, entre eles, Jeb Bush, ex-governador da Flórida e parte da aristocracia política americana. Continua como o candidato com mais delegados conquistados, apesar da oposição da elite conservadora.

Campanha grotesca

Raiva é o sentimento dominante entre os eleitores do magnata: eles são brancos, com tendências racistas, nível educacional e econômico baixo, impressionam-se com a retórica agressiva e preconceituosa de Trump, considerando-o um outsider, o único a dizer a verdade.

O refinado presidente Obama está chocado. “O espetáculo grotesco da campanha 2016 está manchando a marca EUA”, reclamou num dos raríssimos comentários sobre a eleição.  Segundo ele, a temporada pré-eleitoral está vivendo numa atmosfera carnavalesca sem graça e líderes ao redor do mundo perguntam–lhe o que está acontecendo.

“Um bom trabalho jornalístico não pode se limitar a segurar o microfone, é preciso escolher melhor os assuntos”, criticou Obama, em discurso diante de proprietários de jornais, pedindo-lhes maior investimento em jornalismo investigativo .

Trump subiu no palanque da campanha eleitoral exatamente no momento em que a mídia está enfrentando inseguranças profundas sobre seu futuro. A verdade é que a mídia criou uma dependência de Trump como um viciado depende do crack

Ann Curry
Ex-âncora do Today, jornal matutino na NBC

Lá como aqui, a mídia é acusada de não cumprir seu papel. Lá a autocrítica já começou. Uma análise do Times concluiu que televisões, jornais e internet dedicaram a Trump um espaço equivalente a US$ 9 bilhões, 190 vezes o valor pago pelo magnata por propaganda eleitoral – nos EUA, não existe horário eleitoral gratuito e as inserções políticas na televisão são pagas a preço de ouro. Trump – indicou a mesma pesquisa – também teve direito a um espaço muito maior do que o aberto aos outros candidatos.

Muitos colunistas e editores reconhecem que deixaram Trump dizer suas barbaridades sem contextualizar ou checar declarações e informações formatadas para criarem escândalo e manchetes. Com isso, “empoderaram um demagogo”,escreve Nicholas Kristoff, colunista do New York Times. “Trump subiu no palanque da campanha eleitoral exatamente no momento em que a mídia está enfrentando inseguranças profundas sobre seu futuro. A verdade é que a mídia criou uma dependência de Trump como um viciado depende do crack”, disse Ann Curry, a ex-âncora do Today, jornal matutino na NBC.

Mesmo jornalistas experientes e brilhantes caíram no erro de considerar o magnata uma farsa, uma piada pronta. O reputado site Politico.com, por exemplo, tratou a cobertura do republicano como fait-divers, deixando-o longe dos assuntos políticos do dia. “ Nós, jornalistas, fazemos parte de uma classe média urbana e estamos desconectados da dor da classe operária. Por isso, não conseguimos entender como a mensagem de Trump ressoa entre eles”, escreveu Kristoff.

Aparentemente, as mulheres foram mais rápidas em perceber o perigo e se preparam para derrotar o candidato com vício de showman. A reflexão sobre a cobertura política da nova e velha mídia está apenas começando.

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Helena Celestino

Jornalismo é um vício assumido, é difícil me imaginar longe da notícia. Acostumei a viver com o dedo na tomada: aprendi isto trabalhando, viajando pelo mundo e sendo por muitos anos editora executiva do Globo.

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