Socos e chutes pela inclusão

Na Maré, ONG Luta pela Paz transforma vidas e forma atletas olímpicos

Por Liana Melo | ods1 • Publicada em 14 de fevereiro de 2016 - 09:06

Preparação para aula de boxe na Maré, onde funciona a ONG Luta pela paz
Preparação para aula de boxe na Maré, onde funciona a ONG Luta pela paz
Preparação para aula de boxe na Maré, onde funciona a ONG Luta pela paz

Depois de alongar os músculos, é hora de colocar bandagem nas mãos, vestir as luvas de boxe e o capacete, e colocar o protetor bucal. Paramentado para a briga, o ringue vira o centro das atenções. Com os pés posicionados corretamente e os olhos fixos no adversário, os alunos de boxe e artes marciais da Associação Luta pela Paz têm algo em comum. Todos estão acostumados a enfrentamentos duros, dentro e fora do ringue. A perda precoce de irmãos, pais, parentes e amigos mortos a tiros pelo tráfico de drogas ou pela polícia é uma história que se repete na vida de praticamente os dois mil alunos do projeto social Luta pela Paz.

A localização da sede da entidade não poderia ser mais emblemática desta trajetória de violência: a divisa entre a Baixa do Sapateiro e a Nova Holanda, duas das 16 comunidades que compõem o Complexo da Maré, na zona Norte do Rio. O local foi batizado de Faixa de Gaza em analogia ao território palestino localizado em um estreito pedaço de terra na costa oeste de Israel, na fronteira com o Egito. Palestinos e israelenses vivem em guerra.

Tanto lá quando cá, os moradores estão acostumados a uma vida de restrições e de violência. A Faixa de Gaza da Maré é a linha divisória que separa os territórios dominados por duas facções criminosas: o Comando Vermelho e o  Terceiro Comando.

Cria da Maré, o lutador Roberto Custódio virou uma espécie de metáfora do esporte, ao mostrar que é possível nocautear a criminalidade. Atleta da seleção brasileira de boxe, na categoria 69kg, ele sonha com uma vaga nos Jogos Olímpicos de 2016. Por duas vezes sagrou-se campeão brasileiro de boxe. Toda a sua formação profissional foi no Luta pela Paz, onde se tornou um lutador habilidoso.

Misturando jab e alterando os próximos lances – um uppercut de esquerda, ou direto de esquerda, ao invés do cruzado de esquerda – ele foi derrubando um a um seus oponentes. Virou ídolo na favela.

Socos que transformam vidas

Paramentados com luvas, capacete e protetor bucal, alunos começam a luta
Paramentados com luvas, capacete e protetor bucal, alunos começam a luta

Tudo começou quando o inglês Luke Dowdney – um jovem boxeador amador – descobriu que não poderia mais lutar. Foi golpeado por um sangramento cerebral enquanto disputava um campeonato no Japão. Chegou ao final da luta, mas teve que se aposentar precocemente.

Sorte sua que tinha um mestrado em Antropologia Social pela Universidade de Edimburgo (Escócia). Sua linha de trabalho era a relação entre violência e crianças de rua do Brasil. O projeto de pesquisa o trouxe ao país anos antes, em meados dos anos 90, mais precisamente a Recife, onde trabalhou como voluntário no projeto “Ruas e Praças”, por oito meses. Concluiu a tese, se apaixonou pelo país e, quando soube pelo médico, que, por conta do sangramento, teria que abandonar o ringue, o então jovem de 25 anos, olhou o mapa mundi e pensou: “Vou morar no Brasil”.

Em 2000, o boxe amador perdeu um atleta e o Rio de Janeiro ganhou um empreendedor social . Nascia a Luta pela Paz, que começou a vida incubada no Viva Rio. Nos primórdios eram apenas 15 alunos espremidos em uma das salas da associação de moradores do Parque União, que também faz parte do Complexo da Maré. Com o crescimento do projeto, a ONG ganhou musculatura, independência e notoriedade internacional. A sede, de três andares, já recebeu a visita do príncipe Charles e sua esposa, a duquesa da Cornuália, Camilla Parker, quando o casal esteve na cidade. Em 2014, o ex-presidente Bill Clinton concedeu o prêmio, no valor de US$ 120 mil, à instituição.

Administrando um orçamento de R$ 3 milhões e um conjunto de troféus e medalhas (em um total de 300), a entidade coleciona  indicadores de resultados que comprovam mudanças significativas na vida dos jovens: 73% dos nem-nem (representantes de uma geração que nem trabalha nem estuda) voltaram a estudar, e 68% deles estão menos propensos a cometerem crimes. Em todos estes anos, o projeto só não conseguiu apontar uma alternativa de vida para três alunos, que acabaram expulsos porque continuaram envolvidos com drogas.

Luke espalhou a tecnologia social do Luta pela Paz por 25 países através da Rede Global de organizações parceiras. São cerca de 250 mil jovens atendidos mundo afora pela rede. Todas as organizações parceiras espalhadas estão alinhadas através do uso do boxe e das artes marciais, combinados com educação e desenvolvimento pessoal. A lista de espera é grande em todos os projetos, e quem consegue uma vaga não pode vacilar: assiduidade e bons resultados escolares são prerrogativas para continuar lutando no ringue. Caso contrário o aluno é obrigado a abandonar o sonho de um dia ser peso-pesado na vida.

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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