
Neste fim de ano, o clima entre artistas cariocas é de temor, desânimo e incertezas em relação a 2017. O clima só não está mais pesado porque o anunciado fim da Secretaria Estadual de Cultura não vai acontecer. O órgão passaria a fazer parte da pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação (decreto 45.809 assinado pelo Governador Pezão). Com isso, os profissionais do setor temiam que a verba, tradicionalmente escassa, não chegasse mais aos palcos do Rio. Mas, no dia 6 de dezembro, Pezão garantiu às secretária de estado de Cultura (SEC), Eva Dóris Rosental, que o órgão continuará com a sua autonomia. A notícia provocou alívio, mas não foi capaz de acabar com as inquietações dos agentes de cultura, temerosos de que a secretaria tenha sua estrutura reduzida. Outra fonte de preocupação são as mudanças que virão com a eleição de Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio. Na comissão de frente do bloco dos preocupados está um setor que, desde antes dessa nova realidade, já lutava muito para produzir, financiar e legitimar seus eventos: o da cultura negra.
[g1_quote author_name=”Aori Sauthon” author_description=”MC” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A cultura afro vai continuar, sim. Quanto mais sofremos resistência, mais energia acumulamos. Se a situação apertar, haverá mais luta do que nunca. A gente se movimenta pelas rachaduras.
[/g1_quote]Nos últimos anos, a temática afro ganhou relevância na cidade, com festas, celebrações, feiras e atividades que reúnem milhares de pessoas nos fins de semana. De acordo com o produtor Júlio Barroso, da festa Soul de Santa, o receio é de que a nova gestão da cidade dificulte as ocupações culturais em praças e espaços públicos, como a Praça São Salvador, em Laranjeiras. Além disso, ele explica que há um temor generalizado de que aconteçam retaliações por motivos políticos.
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Veja o que já enviamos– Ao tentar fundir as secretarias de turismo e cultura, eles demostram que cultura, para eles, é uma coisa secundária. E como boa parte da classe artística se posicionou a favor do Freixo, talvez a nova prefeitura possa, sim, nos retaliar. Eu diria ao Crivella para fazer uma pesquisa e ver quem são os verdadeiros fazedores de cultura da cidade que ele vai governar. Que não deixe sua religião influir nas decisões.
A zona portuária é outra preocupação em comum. Lugar-chave da atual renovação da cidade e também da memória afrodescendente, é naquela região – nas casas de festas, praças e ruas – que se concentra a maioria dos novos eventos com temática negra. No Cais do Valongo, a dançarina Ana Catão promove, mensalmente, o seu Tambor de Cumba. O grupo realiza roda de danças populares, como jongo, coco e samba de roda, além de shows, peças, palestras e oficinas. A preocupação de Ana é que o novo governo se alinhe demais com a Igreja Universal e sufoque ainda mais o movimento. No entanto, ela espera que Crivella dialogue com as tradições culturais de matriz africana da cidade, inclusive o candomblé, para a inserção de políticas públicas que promovam a melhoria desses seguimentos. O seu anseio também é que haja um maior diálogo com os evangélicos sobre a questão, a fim de tentar diminuir o ódio de alguns praticantes de religiões cristãs para com os de religiões afro-brasileiras.
– Crivella não tem plano de governo para a cultura. Temo especialmente pela cultura negra, tendo em vista que muitos evangélicos já associam diretamente o tambor à macumba e são intolerantes com qualquer prática que venha do povo preto.
Foi na Pedra do Sal, na Saúde, que o Baile Black Bom cresceu e apareceu. A festa itinerante capitaneada pela banda Consciência Tranquila traça uma linha do tempo da black music americana e brasileira. Antônio Consciência, um dos vocalistas do grupo, foi procurado por vários dirigentes de partidos durante as eleições, mas a banda manteve sua posição neutra. Ele apenas espera que o novo prefeito não abandone a região da Pequena África: os bairros de Gamboa, Saúde, Santo Cristo e, claro, o Quilombo da Pedra do Sal.
O empoderamento negro e LGBTT é o mote da festa Batekoo. A celebração, nascida em Salvador, em 2014, foi a responsável por agitar a pista do festival Back2Black ao som de hip-hop, rap, funk carioca, R&B, trap, twerk e kuduro. A festa, até o momento, vem sendo bancada pela iniciativa privada, mas alguns projetos futuros vão depender de editais do governo. E esta é justamente a preocupação. De acordo com Guilherme Blum, um dos produtores, este tipo de evento já costuma ser estigmatizado, mesmo sem se posicionar pelo partido A ou B.
– Tudo vem se resumindo a uma questão partidária. Mesmo sem estarmos ligados à política, somos vistos como um projeto politizado. A gente chega falando de empoderamento negro e tem gente que acha que queremos segregar.
A Batalha do Real, evento nascido na Lapa que promove embates de improviso e rimas entre novos MCs há 13 anos, sempre foi marginal. O MC Aori Sauthon, um dos criadores da batalha, acredita na importância da secretaria e na boa relação com a prefeitura, mas não espera que a situação vá melhorar muito.
– O prefeito não terá como virar as costas para o nosso trabalho, mas sempre fomos cultura marginalizada, não importa quem estivesse no governo. Por isso mesmo, a gente mete a mão na massa e faz o trabalho por nossa conta. A cultura afro vai continuar, sim. Quanto mais sofremos resistência, mais energia acumulamos. Se a situação apertar, haverá mais luta do que nunca. A gente se movimenta pelas rachaduras.